366 Motivos para gostar de música


Eu nunca aprendi a tocar mais que três notas num violão, nunca fui afinado – apesar de, pasmem, eu ter cantado no coral da escola quando era pequeno, e cantar em latim era irado -, nem nunca tive pretensões de ser. Inclusive fui recusado em aula de canto quando tinha uns 14 anos porque eu era sofrível. Não consegui fazer o UuUuUuuuUuUUuuuU que o cara pedia. Meu irmão Mateus, ao contrário de mim nasceu artista. Ele se formou na Belas Artes da UFMG, toca qualquer instrumento, canta, sapateia, etc.

Em proporção, existem um Mateus para cada sei lá, milhares de Pedros. Mas isso não quer dizer absolutamente nada. Eu consigo gostar, sentir e principalmente me emocionar com música tanto quanto meu irmão que toca, cria, compõe. Eu sempre digo, não é porque você não sabe uma coisa que você não pode gostar e principalmente criticar aquilo. É o famoso “eu não preciso ser bonito para achar alguém feio”.

Eu já tentei várias vezes colocar em palavras o que uma música, ou a Música, faz comigo. Acho que se juntarmos tudo que escrevi sobre o assunto e todos os adjetivos que já usei não conseguiria exemplificar 1% do que realmente a música mexe não só comigo, com todo mundo.

Ela é a sua companheira quando você está triste, quando terminou com a namorada. Ela te acompanhou durante todos os momentos felizes. Outro dia tracei um paralelo entre a nossa playlist e a nossa vida. O que estamos escutando condiz muito com o momento que estamos vivendo. E se você é nostálgico como eu, e quer reviver na memória alguma coisa que já viveu, é só ir lá na biblioteca do iTunes e dar o play naquela música. O iTunes para mim, na maior parte do tempo é como um grande repositório de memórias e experiências que tive na vida.

Um exemplo? Enquanto escrevia o parágrafo aí de cima, o shuffle me mandou para Infinita Highway do Engenheiros do Hawaii. Eu me lembro com detalhes assustadores do dia que comprei um ao vivo do Engenheiros com o nome dessa música. No dia que eu comprei o disco (era dia de gincana no colégio) eu estava junto com Aylsson, colega de sala. Comprei na mão do Nozinho, eu estava de calça jeans clara e uniforme do colégio. Eu devia ter uns 15 anos.

Quer ver mais um exemplo do que eu considero a música em sua essência mais pura e mágica, e que inspirou esse texto todo para defender um ponto. O nome desse exemplo é o Nick Ellis, um dos caras mais legais da “internet”. Conheci o Nick por causa do Digital Drops – site que me transformou em uma espécie de “guru” de gadgets para os amigos e parentes – e depois pelo Nerdcast. Eu que já tinha uma mega admiração por ele, e esse sentimento cresceu ainda mais com o Projeto 366 músicas.

É tudo bem simples. Desde o dia 1 de Janeiro de 2012, ele está tocando, gravando e upando para o Youtube uma música. Estamos na música 282. Além de atentar para o fato que falta 74 dias para o mundo acabar, quero que você entenda o porque de eu achar genial o projeto. Nick Ellis é um mega cantor, faz miséria no ukulele ou no violão, afinado e tal, que faz aqueles vídeos que ganham o mundo?

Não. E é exatamente aí que está toda a mágica do negócio. Não importa as habilidades dele como músico, essa nunca foi a intenção ou pretensão. O que o Nick está fazendo, é aquilo que todos nós “Pedros” fazemos quando estamos sozinhos, quando estamos com o fone de ouvido cantando fingindo estar em cima do palco. Estamos expressando a nossa paixão por uma música ou pela arte, estamos sentindo e colocando esse sentimento pra fora.

Não é qualquer um que tem a coragem de colocar isso para todo mundo ver, e muito menos a força de fazer isso 366 vezes. É simplesmente mais um apaixonado por músicas incríveis mostrando o amor que tem por elas. Para mim isso é o que faz da música uma arte. Explorada e sentida por todos nós.

Para você entender isso melhor, fiz algumas perguntas para o próprio Nick Ellis, que apesar de torcer para o Fluminense, é de fato um cara legal. E a primeira coisa que perguntei, foi da onde ele tirou a ideia de tocar, gravar e postar uma música para cada dia do ano. Ele disse que sempre quis tocar as músicas favoritas dele e colocar no Youtube, só para os amigos. Mas ele morria de vergonha, então nunca passou da vontade. Até surgir uma motivação para que a música o ajudasse a passar um momento difícil:

No final do ano passado eu me separei, e o 366 Músicas nasceu com o propósito de me ajudar a superar este momento conturbado, algo que ele conseguiu fazer com méritos. De certa forma, você poderia dizer que o 366 é uma forma de terapia para mim, a diferença é que ele é muito mais efetivo em me ajudar do que qualquer psicólogo.

Quando começamos um projeto, às vezes, não temos a noção do tamanho que ele pode ter. Então quis saber do Nick se ele tinha alguma ideia, da “loucura” que é gravar uma música todo dia. E também se ele chegou a pensar em desistir do projeto.

Não tinha idéia do trabalho que ia dar. Alguns dias eu fico mais de 2 horas ensaiando e tocando até conseguir cantar aquela música específica que eu escolhi. Pensei em desistir em setembro, quando enfrentei uma situação bem complicada na minha vida, mas o meu irmão não me deixou parar de gravar.

O 366 é um projeto que me faz muito bem, mesmo que eu esteja triste ou deprimido e que pareça ser impossível cantar uma música, ao terminar a gravação estou sempre me sentindo melhor do que antes.

Imagine fazer um Top 366? Eu não consigo. Toda vez que vou para a academia, tento fazer uma lista de 50 músicas, nunca fui com menos de 80. Sempre tem mais uma para colocar. Então quis saber também como ele escolhe as músicas do proejto.

Existe uma lista que preparei com várias sugestões, mas na maioria dos casos, escolho a música 5 minutos antes de começar a ensaiar. Algumas músicas são escolhidas pelas lembranças que elas me trazem, outras eu simplesmente escutei naquele dia e fiquei com vontade de cantar.

Toda a introdução desse texto e todo o objetivo final dele culmina na próxima pergunta, e obviamente na resposta. A arte, ou uma forma dela como a música, não pode se prender à certas amarras, pode e deve atingir todo mundo, de todas as formas possíveis. Seja você construindo ou agregando, seja recebendo ou assimilando. Perguntei então ao Nick se todo mundo entendia o que significava o 366.

Acho que a imensa maioria das pessoas não entende o 366, incluindo aí meus amigos mais próximos e parte da minha família. O projeto foi criado para fazer sentido para mim, para ser uma válvula de escape, sabe?

O 366 Músicas faz muito sentido para mim também. Conheci o projeto na Música 24, Father & Son. Eu já escrevi sobre o Cat Stevens aqui, e o tanto que essa música significa pra mim. E foi o grande motivo pelo qual me apaixonei pelo projeto.

Ele gravou a música, em homenagem ao pai, tocando ao lado dos filhos.

Entende agora?

Para terminar, perguntei ao grande Nick Ellis o que ele pretende fazer no fim do projeto. Se ele vai contar as experiências, a transformação que o 366 fez com ele. Para minha e a nossa alegria, ele respondeu assim:

Penso em escrever um livro sobre a minha experiência, mas antes disto, vou fazer uma segunda temporada no ano que vem, com mais pelo menos 365 músicas.

731 músicas. Veja os vídeos do Nick, cante junto com ele.

Comente aí também sua relação com a música, o que você gosta, cada um tem uma relação diferente. Quem sabe não rende mais um texto com seu depoimento?

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2 Comentários

  • Thais Waack
    09/12/2012 at 11:58

    Algumas pessoas acreditam que o artista de verdade é aquele que consegue associar técnica ao sentimento. Acho que só o sentimento já é suficiente. Achei o projeto ótimo e imagino o trabalho que ele teve! Já comecei um projeto de 365 textos e nunca o concluí. Não tinha como objetivo desenvolver textos mega elaborados ou super fodas, era só escrever, sabe? O que eu estava sentindo, uma crônica de algo que vi na rua, algum pensamento doido que obtive na fila do Mc, sei lá. E mesmo assim não concluí. =/ Parabéns à ideia, ao objetivo e à força de vontade!

  • Max Valarezo
    14/10/2012 at 23:59

    Post muito legal! Não conhecia o Projeto 366 Músicas e é interessante ver a simplicidade da proposta.

    No meu caso, uma das manias que sempre tive com a música é a de estabelecer algumas canções para se ouvir em momentos específicos da minha vida. Então tinha a pra se ouvir quando eu visse neve ao vivo pela primeira vez (Ticket to Ride, dos Beatles), a pra ouvir quando dirigisse sozinho pela primeira vez (Red Barchetta, do Rush), a pra se ouvir lanchando na cozinha com a namorada, pra quando eu conhecer a Torre Eiffel…enfim, acho que deu pra pegar a ideia.

    Até agora, felizmente, já consegui escutar algumas delas nas devidas situações planejadas.

    Parabéns mais uma vez pelo post. Vou aproveitar e ouvir mais o Nick Ellis aqui. Abraço!

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Pedro Turambar

Pedro Turambar

Gosto de escrever, reclamar e não tenho controle sobre chorar. Escrevo há 10 anos sobre a loucura de viver em sociedade, futebol e falo bem e mal das coisas que leio, vejo e ouço.

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