A Atriz


A Atriz

camarim

Ela era assim. Marina tinha mania de atriz. E isso era só um detalhe em sua vida. Não fosse as mentiras que ela criava. E os papéis que inventava para a vida real. Afinal, o trabalho do ator é mentir convincentemente. E isso ela fazia muito bem. Se tornou uma mania. Uma obsessão. Conhecia outras meninas no playground ao lado de casa e inventava nomes diferentes para si mesma. Inventava outras famílias. Mudava até mesmo a idade. Se apresentava e se portava como uma pessoa da idade que dizia ter.

Uma vez fingiu para a família ter perdido a memória. A história durou 4 meses e só não se prolongou por mais tempo porque se cansou do papel. Começou a criar disfarces. E fazia com tanta perfeição que nunca a descobriam. Ai de quem a descobrisse. Isso para ela, não podia acontecer. Conseguia convencer até mesmo o diabo de que ele sim, ele era o bonzinho da história. Ser descoberta não. Nunca.

A mania chegou ao seu ápice quando ingressou na faculdade. Artes Cênicas. Resolveu criar um papel de moça perdidamente apaixonada. Na terceira semana, entrou na sala e se declarou para o colega.

-Arthur! Eu te amo loucamente! Nunca me senti assim durante toda a minha vida. Você é tudo pra mim! Foi amor a primeira vista! Entrego a ti meu corpo e a minha alma! Derrame em mim ou seu líquido sagrado do amor.

E o beijou como nunca tinha beijado ninguém antes. Foi um estouro. Tinha criado o disfarce da sua vida. O de namorada, e futuramente, esposa dedicada somente ao marido. Tinha que manter o disfarçe afinal, ser descoberta não. Nunca.

Transaram no primeiro mês de namoro. Tinha que levar o papel até o final. Mostrou ser a pessoa mais apaixonada e dedicada de todo o mundo. A mais servil. A mais amante. A mais esposa de todas. Se entregou de corpo e alma ao papel. Largou a faculdade. Iria se dedicar somente ao parceiro. Tinha de desempenhar bem o papel. Não poderia falhar. Ser descoberta? De jeito nenhum.

Logo que Arthur se formou, os dois se casaram. Viviam uma vida plena. Tiveram filhos. Ele era extremamente feliz com ela. Nunca conhecera mulher mais dedicada em todo o mundo. O que posso dizer? Viviam bem. Ficaram velhos. Os filhos cresceram. Se casaram. Foi a melhor sogra do mundo.

Como todo papel, o de Marina chegou ao fim. Ela morreu por uma doença qualquer. Casada ainda. Nunca amou o Arthur, nem um pouquinho que seja, mas manteve o papel até o fim. No seus sonhos, tinha sido a melhor atriz do mundo. Desempenhou o papel até o fim. E quando morreu, tinha a certeza. Não seria descoberta nunca. Ser descoberta? Só por cima do próprio cadáver.

No velório só se ouvia choro. O marido estava inconsolável. Os filhos ainda mais. Todos falavam sobre como tinha sido boa esposa, boa mãe, boa mulher. Que vida! Que ser humano ela era! No enterro todos choraram. Fazia sol. Na sua lápide, a família escreveu o epitáfio.

“Aqui jaz Marina. Nasceu atriz, mas abandonou seu sonho para ser a melhor mãe, esposa e mulher do mundo”.

Lá no além Marina resmungava. “Desgraçados! Mãe é o cacete! Eu sou atriz! E o Arthur é um filho da puta. Filho da puta!”. E Deus a acalmava. “Calma Marina. Nós sabemos que você foi uma boa atriz. Juro por mim mesmo que sempre te achei uma excelente atriz”. E ela resmungava cada vez mais.

***

Bem. Esse é um dos melhores contos que eu já escrevi (na minha opinião completamente parcial). Se você não gostou, nem se dê o trabalho de ler o resto.

***

1 – A você mulher bonita e respeitosa. Se estiver disponível, já tentou desencalhar o Wanderson?

2 – Você tem twitter e trabalha com propaganda? Siga o @pedroporto. O cara é foda. E digo por experiência própria. Já assisti a uma palestra dele.

3 – Você já viu o portfolio do Fernando Valente? Olha só esse manual de identidade visual que ele fez. Que primor de trabalho!

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23 Comentários

  • Rangel Alves da Costa
    06/06/2010 at 21:27

    MOÇA TRISTE NO CAIS

    Rangel Alves da Costa*

    Moça triste no cais. Parece nome de pintura dos poetas de óleos e aquarelas, dos artistas que retratam marinas, portos, areia da praia que vai invadindo o mar e vice-versa, barcos que chegam cansados e tristes, velas distantes de tristeza solitária; pontinhos que se descortinam nas distâncias. Moça triste no cais. Parece uma cena de fim de tarde. E é…
    O cais onde a moça chegava todos os finais de tarde para ficar ali, mirando o horizonte com o sol naquele amarelado de despedida, observando as gaivotas pairando entre água e céu, avistando lá longe os barcos solitários e as velas pequeninas naquela imensidão, ansiando pela chegada feliz das embarcações no ancoradouro, era um cais alegre e triste, feio e bonito, de encontros e despedidas. Era um cais com seus ais. E quantos ais adormecidos nas dores do cais…
    Era um cais que causava prazer e aflição. E era assim porque todo cais é misterioso para o navegante de suas areias. Não do mar, que tem destino certo, mas da margem que repousa em si a tristeza e a solidão. A moça sabia bem disso. Ninguém conhecia mais os mistérios do cais quanto ela. Uma vez quis virar sereia para entrar nas águas e fugir dali.
    Quem está na beira do cais sempre tem um compromisso com as águas adiante, que permite o embarcar e desembarcar de pessoas com sonhos e destinos diferentes, que vela o barco que voltou sozinho porque o pescador foi chamado pelos seres das águas, que traz o alimento do retorno na pessoa que ficou dois dias mar adentro e não pescou nem o almoço que era pra ser ontem.
    Por isso o cais é misterioso, e mais enigmático ainda nas noites em que os vultos passeiam pelas águas e velas são avistadas acesas ao longo das areias, sem que nenhuma alma vivente fosse ali acendê-las. Gente viva que vai é para fazer oferendas com flores e perfumes, esperanças, misticismo e fé. Por isso o cais é misterioso. E mais misteriosa ainda era a moça do cais…
    Ao entardecer, quando quase nenhuma movimentação de partida era observada, diferentemente dos retornos das águas que eram muitos, a moça para lá se dirigia e ficava ora em pé, passeando pelas margens, molhando os pés descalços nas ondas cansadas, ora sentava no banquinho de madeira fincado ali, debaixo de um pé de coqueiro. Em muitas tardes já escurecidas, quem olhasse com cuidado podia ver os cabelos da moça balançando o mesmo balançar das folhas do coqueiro, numa dança leve soprada na melodia do vento.
    Todo mundo sabia que todas as tardes, caísse o maior temporal ou existisse um resto de sol, a moça sempre podia ser encontrada vagando ou simplesmente parada na beira do cais. Era um cotidiano já duradouro, já do conhecimento dos navegantes, pescadores e outras pessoas que viviam naquelas redondezas. Contudo, ninguém sabia quem era a moça, de onde vinha todas as tardes e nem quais os motivos que a fazia retornar sempre e mais, como se algo estranho instintivamente a levasse para as margens das águas sempre ao cair do sol. Todo mundo via a moça por lá, triste, num olhar só, mas ninguém nunca sabia o instante em que saía de lá. Simplesmente a moça triste desaparecia…
    Não sabiam praticamente nada sobre ela, a não ser que ontem estava lá, hoje se encharcou toda com o temporal que caiu, e amanhã certamente será avistada olhando o mundo das águas como se quisesse encontrar uma importante resposta, independentemente de tempo bom ou ruim. A única coisa que tinham certeza era sobre a sua beleza, sua faceirice na roupa simples que vestia, sua face e cabelos encantadores, seu lindo colar de conchas e um olhar esverdeado da cor de mar profundo. Linda mulher essa moça do cais…
    Um dia, no último vermelho do sol, pescadores avistaram a moça levantar do seu banquinho e caminhar descalça até o limite das águas, onde as ondas batiam e voltavam. Enxergaram também um barquinho solitário que veio chegando e chegando, sem ninguém dentro dele, e aportar bem diante dela.
    No mesmo instante, um velho pescador falou quase gritando para os amigos: “Mas aquele barco afundou há uns cinco anos atrás, deixando nas águas o pescador Demundo, um rapaz trabalhador que ia casar naquele mesmo dia, deixando a sua noiva praticamente esperando no altar. O barco afundou despedaçado e o rapaz morreu, e como agora ele sobe das águas e vem parar aqui?”.
    A moça triste jogou um vestido de noiva dentro do barco vazio e lentamente ele deu a volta e foi se distanciando nas águas. Uma semana depois o barco voltou e ela subiu nele e partiu nas águas, sem que ninguém mais pudesse vê-la no cais ao entardecer. Somente nas noites de lua cheia, quando avistam o seu vulto descendo do barco, caminhar até o coqueiro e depois retornar.
    E ouve-se ao longe um canto como de sereia…

    Advogado e poeta
    e-mail: rangel_adv1@hotmail.com
    blograngel-sertao.blogspot.com

  • Rangel Alves da Costa
    06/06/2010 at 21:26

    Minha Senhorita

    Rangel Alves da Costa*

    É de vossa competência, senhorita do meu amor, ser feliz e muito feliz.
    Sei que é da minha competência, linda mulher que amei, continuar te amando. O destino separa o ser mas não ousa dividir o que é absolutamente amor.
    Talvez nem imagine onde repouso minhas lembranças. Tão longe ou tão perto, tanto faz. Foi o destino, você quis dizer e não disse. Mas digo que é doce destino continuar pensando em ti. Tanto faz, eu aqui e você onde e com quem estiver. Continuo te amando.
    Você costuma rasgar o passado? Lembro de tudo, não adianta. O amor de adolescentes, os beijos e afagos de jovens, os planos que fazíamos, a entrega e o fim sem motivo e sem dizer adeus. Você simplesmente sumiu, senhorita.
    É de vossa competência fazer o que quer de sua vida, senhorita. Assim o fez. Mas é da minha absoluta competência não fazer da minha vida algo que não lhe caiba mais em pensamento. É uma questão de não querer te esquecer, senhorita.
    Veja bem senhorita, caminhei por estradas de frutos doces feito mel, de generosas sombras para repousar, de amores a fazer esquecer qualquer amor. Mas somente quis seguir em frente saciado com tua lembrança. Não me arrependo, senhorita. Nesse instante me alimento do teu sorriso.
    Ontem escrevi teu nome em poesia, hoje simplesmente escrevo. Um dia quis inventar outra palavra que não fosse amor e veio o teu nome. Não adianta. É uma pena que esses meus versos de amor sejam tristes, rimem com solidão e dor. Preciso mudar meu verso, senhorita, para falar somente de amor.
    Dirão que enlouqueci, senhorita. Onde mora o amor nesse mundo, onde estão as pessoas que amam? Ninguém diz que ama para não ser visto como insano. É por isso que o amor se esconde nas pessoas. Sou simplesmente louco e pronto. Amo e não nego. Há lucidez maior do que expressar a verdade?
    Não, você não sabe, mas alguém me falou sobre você, que sabe onde e como está, sua feição sublime, seu jeito meigo de ser. Não quis saber mais do que isso, senhorita. É esta a mulher que amo. Bem que eu poderia me aproximar, te olhar ao longe, abracá-la na distância. Prefiro não fazer isso, senhorita. Vives no meu pensamento e sei como estais onde estou. Nesse momento sorrio teu sorriso.
    Me perdoe, senhorita, mas imploro que guarde consigo estas palavras: O verdadeiro amor não se constrói somente com a presença de pessoas que se dizem amar, mas também na ausência de quem é amado.
    Ouvi tua palavra agora…

    Rangel Alves da Costa
    Advogado e poeta
    e-mail: rangel_adv1@hotmail.com

  • Rangel Alves da Costa
    06/06/2010 at 21:25

    INSÍGNIAS, BRASÕES E VAIDADES

    Rangel Alves da Costa*

    Não sou pessoa como você, que só tem um nome e sobrenome e que não será nenhum grão na poeira dos tempos, porque não tem linhagem, estirpe, sangue dos fortes, reconhecimento na ilustre casa da história.
    Quando muito, talvez você só tenha RG, CPF, CTPS, uma foto 3X4, xerox da Certidão de Nascimento, um endereço e nem sequer uma recomendação de alguém que lhe conheça. É triste, mas você não passa de um número nas estatísticas que indicam o subdesenvolvimento. Talvez você só exista porque está vivo, mas com certeza não tem amigos e muito menos proteção de alguém no poder. Ah!, se você for eleitor terá sua importância reconhecida num breve instante.
    Enquanto você pensa que é alguém, eu fico aqui na torre do meu castelo imaginando que existem pessoas como você, e esta imagem abjeta me faz sorrir. Não sei bem se é castelo, fortaleza, fortificação ou residência senhorial, mas tenho certeza de que somente a torre onde gosto de ficar para apreciar as paisagens verdes e azuis, os vinhedos e os trigais, as fontes e os lagos, é infinitamente maior do que o casebre onde se esconde e ainda diz que é casa. Em casa moram os meus serviçais, com muitas dependências, quartos, lareiras e solares, e não isso que você chama de endereço.
    Dessa torre onde estou, ínfima dependência dessa moradia construída na pedra da mais alta nobreza, e que foi herança de um povo de grandes feitos, posso ver adiante terras e mais terras que, após deixarem de servir aos propósitos para produzir riquezas, certamente servirão para você plantar um pé de feijão ou de milho, levantar sobre um seu pedaço uma casinha de barro, colocar quatro estacas ao redor e dizer que é feliz. Eu, que deveria jurar que tenho de tudo, juro que ainda não tenho nada e não terei até subjugar e colocar aos meus pés o próprio horizonte. E não se apresse em dizer que esse quadrado de terra é seu, pois logo logo só terá sete palmos e algum punhado de areia por cima.
    Não sei nem quero saber se você tem família, pais, parentes, conhecidos com esse mesmo sangue de vermelho aguado que tanto se arvoram de ter. É costume de vocês falarem dos familiares que já se foram afirmando que alguém era um grande lavrador, um reconhecido servente, um peão exemplar. Reles serviços de uma vidinha, apenas isto, e certamente incomparável com o baronato, com o ducado, com o principado, com a realeza que distinguem os meus. Almirante de esquadra e norte, grão-mestre da grande loja, sumo sacerdote, senhores do comércio de todas os portos e todos os mares, eis de onde venho e enobrece ainda mais o meu sangue verdadeiramente azul.
    Você deve ser um desses João, Pedro ou José que dizem tanto ter por aí, num mundo que felizmente não conheço e nem quero colocar os meus pés macios. Minha carruagem se sujaria naquelas ruas imundas; aquelas mãos nojentas não serviriam para carregar minha liteira. O meu nome, que prefiro que você não pronuncie, é composto e possui mais de mil letras, em muitos sobrenomes que confirmam a minha linhagem, a minha estirpe, a minha honra e o meu sangue. Não é genética nem hereditariedade, é nobreza, realeza, tudo na maior pureza, a própria perfeição do ser humano sobre a terra.
    Ouvi falar que deram a você um certificado de conclusão de curso de alfabetização. Não sei o que é isso nem quero saber. Nesse momento estou pensando em mandar construir uma nova ala no castelo somente para colocar meus troféus, minhas insígnias, meus símbolos de realeza, meus pergaminhos e minhas armas e brasões. Para você que não sabe, insígnias são minhas coroas, meus colares, meus selos e distintivos, todos simbolizando a minha importância nesse mundo fútil. Brasões são os símbolos contendo o cetro, o ramo de oliveira e o canhão, como característicos de uma família que venceu todas as lutas e batalhas. Há mais de vinte anos os historiadores trabalham na heráldica familiar e ainda não conseguiram enumerar nem a metade dos nossos símbolos de força e poder.
    E agora pergunto: quem é você, quem você pensa que é? Não vou sair dessa torre enquanto não descobrir quem você é, como age, como vive nas dificuldades, como realmente é. Duvido que seja feliz, pois a nenhum pobre é dado o direito de ter felicidade, mas se o for, se assim mesmo consegue dormir tranquilo e amar, consegue viver normalmente e sorrir, consegue tirar da tristeza toda a alegria da vida, preciso urgentemente saber que você é, para te procurar e fazer um acordo: Dou-te minha riqueza, minhas insígnias e brasões para ter a tua felicidade. Só não dou meu sangue porque sangue azul não existe e não vale nada.

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  • Rangel Alves da Costa
    06/06/2010 at 21:24

    LAUDO SOBRE A MORTE DO AMOR

    Rangel Alves da Costa*

    Diferentemente do que as pessoas especulavam e toda a imprensa noticiava, o amor não morreu de infarto, de complicações orgânicas, de falência múltipla dos órgãos, de morte matada, de overdose, por suicídio ou acidente, mas sim de causa indeterminada. Ao menos é isto que consta do laudo.
    Na verdade, o exame de necropsia da morte do amor, cujos dados constam no laudo, em linhas gerais informam que “o sentimento profundo de um coração apaixonado” não suportou “as reiteradas desilusões que eram constantemente perpetradas contra seu profundo e inocente desejo de ser correspondido”, com a conseqüente “paralisia das esperanças e dos sonhos” e uma terminal “infecção na confiança traiçoeira do outro”, cujos elementos em seu conjunto “redundaram na passagem para o além desse ser incompreendido que só queria amar”, “sem qualquer aparente dano físico, apenas com um trauma profundo no coração”. Consta ainda que morreu sozinho, enquanto pensava em alguém, na flor da idade e na rua das flores esquecidas, sem número, no conjunto da saudade.
    Indaga-se, então: Por que o exame é tão conclusivo e fizeram constar do laudo que o amor morreu de causa indeterminada? Não seria morte natural? Simplesmente porque acharam que seria muito poético afirmar que o amor morreu de amor. Tal confirmação, contudo, geraria outro problema de interpretação, pois alguém poderia dizer que se o amor morreu de amor cometeu suicídio, pois aquele que se arrisca a demonstrar que ama demais, que deseja demais, que possui paixão verdadeira, outra coisa não faz senão estar desgostando da própria vida e preparando-se para dar morte a si mesmo.
    Mas o amor não teria motivo algum para cometer suicídio, alguém poderia dizer. E certamente acrescentaria que não tinha motivos para tal porque ainda amava e esse amor, mesmo que transformado em martírio e sofrimento, seria o instrumento maior para a superação, para dar a volta por cima e encontrar outro amor verdadeiro. É que aprendendo com os próprios erros, mais cedo ou mais tarde o amor passa a conhecer seus limites e não ultrapassará a voz da razão nem deixará se enganar com as falsas promessas, com as exigências além do que pode doar e muito menos com o outro amor que ama somente da boca pra fora.
    Ora, considerando-se que todo amor é forte e expressivo demais para morrer de morte indeterminada, e nem que tenha cometido suicídio, o problema que causou a sua desgraça só pode ter sido o desgosto, concluiu um estagiário de medicina. Desgosto porque quando as pessoas de repente morrem e sempre põem a culpa no infarto ou ataque cardíaco, outra causa não foi senão a tristeza crônica, a solidão eternizada, a rejeição injustificada e o constante sentimento de abandono, tudo isso causando um profundo desgosto na vida, que é um passo certeiro para a morte. E em todos esses casos citados a causa geralmente foi determinada pelo amor desamado. Assim, o desgosto no amor foi a causa mortis do amor.
    Ao ler sobre tantas discussões e pontos de vista contraditórios, uma jovem humilde, que há algum tempo vinha tendo sérios problemas com a síndrome do amor não correspondido e que estava fazendo tratamento para desamar, sintetizou bem a questão em sua desgastado “meu querido diário” e talvez tenha sido muito mais coerente do que os legistas e outros profissionais da medicina:
    “Puro engano desses que querem encontrar causas para a morte do amor, pois aquele sentimento que viram estendido sem vida era uma paixão mal resolvida que não suporta qualquer dor de saudade e desfalece. Pois o amor verdadeiro, por ser imune às epidemias da banalidade e aos surtos das relações passageiras, nunca morre, eterniza-se enquanto durarem sobre a terra as pessoas de sentimentos verdadeiros. Ademais, mesmo que queiram chorar sua partida e enterrar seus restos em qualquer vão escurecido e solitário, o amor é espírita e reaparece, retorna para cumprir seu papel; o amor é fênix e renasce das cinzas ainda mais forte; o amor é amor e basta-se em si mesmo para ser imortal”.
    De qualquer modo, no velório daquilo que se tinha por amor, morto por morte indeterminada, estava presente somente o amor que não havia morrido. Chorou e por vezes quis estar naquela feição de ausência, mas pensou e pensou e concluiu que era muito melhor continuar cumprindo sua sina dentro daqueles corações que procuram ser felizes em seu nome.

    Advogado e poeta
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  • Rangel Alves da Costa
    06/06/2010 at 21:23

    ESPELHO MEU, ESPELHO TEU

    Rangel Alves da Costa*

    Mentira, pois há muito tempo que o espelho da nossa vivência não reflete mais nada. Aquilo que vê ali na moldura e pendurado na parede não é um vidro espelhado, mas somos nós turvamente estáticos e adormecidos, feito fotografia que o tempo achou por bem esconder o olhar e o sorriso. Por isso é mentira, porque quando nos deixamos de refletir um no outro, também o espelho deixou de espelhar.
    Talvez você tenha esquecido, mas éramos espelho brilhante, reluzente, fulgurante. E éramos espelho vivo, desses que refletiam bem a face alegre que tínhamos, o sorriso verdadeiro que sorríamos, a alegria partilhada e compartilhada que vivíamos. E éramos espelho de límpidos reflexos e nítidas imagens porque sabíamos enxergar e compreender o que e quem estaria do outro lado. Era sempre a imagem de um visto pelo outro, era sempre o reflexo de um no outro, e era sempre a mesma face vista, vez que éramos dois num só.
    Ninguém encobriu o espelho, ninguém propositalmente o deixou encoberto de poeira; ninguém jogou uma pedra num instante de raiva e quebrou o espelho; ninguém o tirou do lugar e colocou onde refletisse apenas o que quisesse; ninguém deixou a parede fragilizada para o espelho tremer e estilhaçar; ninguém o escondeu por medo dos raios e das tempestades. Não, ninguém, mas alguém sabia que o espelho estava com os seus dias contados. E se não o procuramos mais para enxergar nossas alegrias é porque nós dois sabíamos.
    Há quanto tempo o espelho não é a nossa voz, a nossa angústia, a nossa tristeza, o nosso sentimento, o nosso amor? Há quanto tempo não lemos ou vemos no espelho “eu te amo”, “volto num instante”, “te quero demais”, “não esqueça tua flor meu jardineiro”, “me olhei e te enxerguei”, “estou do outro lado te olhando e desejando”. Cadê o batom que beijava o espelho?, cadê o batom que riscava o espelho?, cadê o batom que era a nossa voz? cadê o espelho?
    Primeiro você você, depois quase você, mais tarde um resto de você e depois você sumiu. Primeiro eu não percebi, depois não quis sentir, mais tarde não te encontrei e depois nada entendi. Nenhuma palavra mais no espelho, nenhum reflexo bom no espelho, nenhuma alegria no espelho, nenhuma imagem. De repente, simplesmente o espelho sumiu ao olhar que queria enxergar e compreender. Era somente algo na parede e nós sem tentarmos, ao menos, desembaçar o espelho. E para que, se estávamos também embaçados?
    Lembra daquele poema que diz

    Refletem
    sóis, arrebóis, girassóis,
    fatos, retratos, teus atos,
    histórias, memórias, inglórias.
    Reflete tudo no espelho
    que deixei embaçado ao lado.

    Espelham
    tardes, verdades, saudades,
    tristezas, incertezas, fraquezas,
    esperanças, andanças, mudanças.
    Reflete tudo no espelho
    que estava ao lado e foi quebrado.

    Retratam
    caminhos, moinhos, espinhos,
    dores, desamores, rancores,
    momentos, lamentos, tormentos.
    Refletia tudo no espelho
    que foi quebrado comigo espelhado

    parece que reflete esse instante, esse momento onde buscamos compreender porque deixamos quebrar o espelho com nossa vidas espelhadas.
    Mas não há mistério algum para que esse espelho não exista mais. Quando quisemos enxergar e ver refletido somente nós mesmos é porque não havia mais sentido num espelho que só sabia refletir nós dois. Se o espelho deixa de ser luz é porque acabou o amor. Esse amor que preciso que seja novamente iluminado.
    Trago na memória da saudade um espelho e ele está chorando, sei porque também estou sentido.

    Advogado e poeta
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  • Rangel Alves da Costa
    06/06/2010 at 21:23

    DOIDO DE PEDRA

    Rangel Alves da Costa*

    Conheço um rapaz – e considero até meu amigo – que é doido de pedra, desses que está calmo, falando coerentemente num instante e no outro desanda o juízo que é um deus nos acuda. Ninguém, nem mesmo os familiares, sabe explicar os motivos de o jovem ter ficado assim nesse jeito diferente de ser louco.
    Digo diferente porque a loucura, mais ou menos acentuada, é geralmente perene, permanente, vivendo instalada na cabeça do indivíduo, cujas mínimas ações já demonstram não ser uma pessoa normal. Mas esse meu amigo não, é doido ocasional, o que o torna ainda mais perigoso, pois nunca se sabe qual vai ser a sua reação seguinte.
    Verdade é que passa dias e dias na mais pura normalidade, no convívio alegre e amigueiro com todos, e depois, sem que ninguém entenda nada porque isso ocorre, cospe na cara ou começa a esculhambar com quem está ao seu lado. Quando não faz coisa pior.
    Um dia saiu gritando pelas ruas que todos os políticos são ladrões, que filho de governante tinha que estudar em escola pública para ver o que é bom pra tosse, que os pais são covardes por deixarem os filhos fazerem o que bem entendem. Não deu outra. Disseram que aquilo era doidice demais e que tinha de ir pra camisa-de-força com urgência.
    Os pais desse rapaz já fizeram tudo que tiveram ao alcance para saber por que o jovem fica assim, às vezes bonzinho e outras vezes doidinho. Já consultaram psiquiatras, analistas, terapeutas, psicólogos e nada. Quando muito afirmam que é um problema congênito, uma disfunção cabeçal, uma anomalia no lobo loucal ou coisa parecida. Mas nunca deram jeito.
    Já procuraram pai-de-santo, mãe-de-santo, macumbeiro, catimbozeiro, tudo, mas nada de dar jeito. Quando muito dizem que fizeram trabalho ruim pra ele, que colocaram seu nome à meia noite numa encruzilhada ou que o caboclo não-sei-quem tomou conta do seu corpo, principalmente da cabeça. Vela preta, galinha preta e uma grana preta foram as soluções prescritas, e nada.
    A mãe pensa que o rapaz ficou assim porque deu à luz em plena lua cheia, período que dizem afetar o juízo das pessoas. O pai já é da opinião que ele ficou assim por causa do mau olhado de uma mulher que nunca conseguia engravidar. A vizinha do lado tinha certeza que era tudinho safadeza dele, pois quem já se viu um doido de pedra ser inteligente daquele jeito, discutir coisas de política, de religião, de filosofia e o escambau. Já a vizinha do outro lado, que já havia tido uns encontros muito doidos com ele, afirmava que aquilo tudo não era outra coisa senão falta de mulher.
    Certa vez Padre Pedro, passando pela rua da casa dos pais do rapaz, resolveu fazer uma visita. Assim que chegou na porta deu de cara com ele sentado e lendo um livro muito grosso, parecendo sobre um assunto muito importante. E começaram a conversar discutindo sobre a bíblia, sobre os apóstolos, sobre os quatro evangelhos, acerca dos salmos mais bonitos e da beleza que é o livro de Eclesiastes. Passaram mais de uma hora assim nesse diálogo interessantíssimo e profundo.
    O rapaz pediu que sua mãe esquentasse um cafezinho e trouxesse um lanche e uma água para o sacerdote. A conversa estava tão boa e instigante que resolveu ir até a estante do quarto pegar outra bíblia para discutirem as mudanças existentes de uma tradução para outra. Entrou casa adentro e quando o padre menos espera levou um bolada no pé do ouvido que a xícara caiu para um lado e o bolo para o outro. Já ia levar uma paulada na cabeça quando a mãe chegou gritando que pelo amor de Deus não matasse o homem. Dizem que na carreira que deu o sacerdote errou o caminho da igreja e foi se esconder embaixo da cama da amante, com o marido desta em casa e tudo mais.
    E assim, dando bolada nos outros, jogando pedra em quem passasse perto de sua casa, esculhambando as mocinhas disso e daquilo, xingando as velhas beatas e as senhoras recatadas, se comportava o rapaz quando o problema surgia. Pensaram em interná-lo de vez, mas voltaram atrás quando souberam que nenhuma instituição psiquiátrica estava aceitando doido inteligente, só doido maluco mesmo.
    Isto porque certa vez internaram um doido que provou por “a” mais “b” que os loucos dali não eram os pacientes, mas sim aqueles que os tinham como loucos. E mandou que alguém provasse o contrário. Como não conseguiram, o diretor da clínica resolveu se internar por conta própria, e até hoje vive na coleira e latindo. Só atende quem lhe chama de “meu au au”.
    Assim que o surto passava, o rapaz se transformava completamente. Bonito e simpático que só ele, as mocinhas disputavam com ferocidade as belas flores que gostava de distribuir. Sentava na praça todo faceiro, cheirando a perfume da moda e não demorava muito para chegar os recadinhos.
    Fulana disse que quer encontrar você para ensinar a ela como se escreve um poema de solidão; sicrana mandou perguntar se é feio uma mocinha mandar dizer a um homem que está apaixonada; beltrana disse que vá tomar um chazinho com ela para ensinar algumas palavras que rimam com amor, pois até agora ela só conseguiu rimar amor com dor.
    Contudo, assim que foi na casa da mocinha que só rima amor com dor, surtou logo que ia subindo na calçada. E a mocinha coitada, que vinha toda sorridente e cheirosa, recebeu foi uma pancada com um guarda-chuva fechado na cabeça. Dessa pancada nunca mais ficou com o juízo normal. Assim como ele, de tempos em tempos também fica doida de pedra. Mas dizem que são muitos felizes nessa loucura que também é o amor.

    Advogado e poeta
    e-mail: rangel_adv1@hotmail.com
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  • Rangel Alves da Costa
    06/06/2010 at 21:22

    DÊ-ME TUAS MÃOS!

    Rangel Alves da Costa*

    As mãos de Whitman acariciaram as folhas de relva; as mãos de Baudelaire plantaram as flores do mal; Jorge Amado fez espalhar nas paisagens sangrentas as folhas do cacau; Graciliano mostrou que no Nordeste não haviam folhas a serem colhidas pelas mãos ossudas; as mãos de Machado mancharam a honra de Capitu; Goethe manchou de sangue as mãos do jovem Werther; Eça de Queirós tirava das mãos de Luísa a aliança que simbolizava a honra; Cervantes fez com que Dom Quixote enfrentasse os moinhos-gigantes com a mão empunhando uma lança; José Mauro de Vasconcelos enxugou com as mãos as lágrimas de Zezé quando cortaram seu pé de laranja lima; Fernando Pessoa com uma mão segurava o charuto e com a outra escrevia que o rio mais bonito é o rio que passa pela sua aldeia; Pedro Bloch deu uma fortuna quando Eurídice estendeu sua mão; Drummond apontou com a mão onde José deveria ir, mas este não foi, e agora José?
    As mãos de Da Vinci não são mãos, são os olhos da Monalisa; Alfredo Volpi encheu minha rua triste com bandeirinhas coloridas à mão; Munch colocou a mão na boca na hora do grito na ponte; Tarsila insistia naquelas mãos enormes e pés desproporcionais; Picasso queria que todos colocassem as mãos nos olhos para não ver as atrocidades de Guernica; Almeida Júnior mostrou o sertanejo segurando com a mão a faquinha para picar fumo; as baianas e escravas enchiam as mãos de Debret de doces e guloseimas; Michelangelo aproximou as mãos do homem e de Deus na Capela Sistina; a mulher triste de Portinari estava segurando o menino morto nas mãos; Claude Monet espalhava com as mãos tardes, folhas, flores e jardins nas suas paisagens; Edouard Manet penteou com as mãos os cabelos da jovem bonita no espelho; Rodolfo Amoedo deixou estendidas na praia as mãos mortas do último tamoio; que belas são as mãos das morenas de seios fartos de Di Cavalcanti; por que as mãos não apararam o bigode de Dali?
    Onde estão agora tuas mãos, Madre Teresa de Calcutá, Irmã Dulce e Zilda Arns? As mãos do bem não doam também além? A mão no chocalho ainda anuncia a fé ritual no terreiro de Mãe Meninha; as mãos de Maria Lenk espalharam as águas para a vitória; tuas mãos ainda acertariam bem no fundo da quadra Maria Ester Bueno; as mãos de Cecília Meireles ainda correm pelos canteiros; Maria Moura pega com as mãos as rédeas do destino e vai na direção de Rachel de Queiroz; por que mãos com tanto esmalte, anéis e alianças Viúva Porcina?; tal qual a cabana do Pai Tomás, tuas mãos também são sábias Harriet Beecher Stowe; quantas mãos alcançaram sucesso nos teus folhetins Janete Clair, Ivani Ribeiro e Glória Magadan?; o que tuas mãos assentaram ainda ressoam em movimento Chiara Lubich; por que não pegou a arma com a mão e atirou primeiro Maria Bonita?
    E essas mãos sertanejas, que carentes imploram aos céus, que crentes se apegam aos céus, que sonhadoras limpam a terra, plantam, colhem, tangem o gado, tiram o leite, pegam na enxada, movem o barro, fazem a telha e o tijolo, pregam ripas, portas e portais, tiram o couro, adormecem o couro na água, trabalham o couro, fazem a sandália, a alpercata, o alforje e o gibão, serram a ponta, trabalham a ponta, fazem o berrante, seguram o berrante e sopram chamando o destino, pegam no copo e tomam a pinga, enrolam a palha e fazem o cigarro, pegam a faca, o facão e o punhal e pegam o inimigo, pegam os tostões e fazem a feira, pegam o saco com dois quilos de nada, entregam à mulher que cozinha o que não existe, que fazem mamadeira de água e enganam o choro dos pequeninos, que levam a farinha à boca e depois se benzem agradecendo a Deus pelo muito no pouco que tem.
    E essas mãos que trabalham nas máquinas, apertam parafusos, acendem a fornalha, jogam a matéria, abrem a porta para o chefe passar, assinam o ponto, acendem e apagam a luz, tira o lenço do bolso e limpam o suor, recebem o salário do mês, fazem as compras, fazem os cálculos e batem na mesa com raiva; essas mãos que tocam o tambor, o cavaquinho o violão, o pandeiro e o zabumba, enchem o copo de cerveja, levantam a saia pra sambar; essas mãos que podam as árvores, varrem as calçadas, limpam o lixo, jogam os restos no caminhão, pintam as ruas, apitam para o carro parar ou passar, pegam na caneta para multar, pegam a propina escondido; essas mãos que engraxam sapatos, que pegam a cola e levam ao nariz, que furtam, que roubam, que pegam na arma, apontam, miram e atiram, que pedem esmolas, que limpam os vidros nos cruzamentos, que vendem jornais e não sabem ler a manchete escrita por outras mãos: “Fugiu com as mãos algemadas”.
    As mãos estão sempre unidas no instante da morte. No instante da vida as mãos sempre entristecem dizendo adeus. O que fazem tuas mãos agora? Dê-me tuas mãos!

    Advogado e poeta
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  • Rangel Alves da Costa
    06/06/2010 at 21:21

    BICHO-PAPÃO NA ESCURIDÃO

    Rangel Alves da Costa*

    Dois priminhos estavam brincando e de repente começaram a travar uma pequena discussão de criança. Tudo começou quando um disse ao outro que se não brincasse direito o bicho-papão vinha de noite pra lhe fazer medo. “Ah! seu bestinha, pensa que eu sou como você que ainda acredita em bicho-papão, é? Pois fique sabendo que bicho-papão não existe e nem nunca existiu, e o que existe de verdade e que vem pegar você é o papa-figo”, disse o outro. Era pra dizer papa-fígado, mas…
    “Ah! é, você quer que o papa-figo venha me pegar é? Então você vai ver se o bicho-papão não vem arrancar sua língua de noite”. Foi falando e já correndo pra cima do primo, e só não se embolaram pelo chão porque a mãe de um deles correu para evitar o pior e em seguida pediu à sua mãe, que estava numa cadeira de balanço fazendo tricô, que resolvesse o problema: “Mãe, por favor explique as esses dois danadinhos que não existe nem bicho-papão nem papa-figo. Dá pra senhora explicar direitinho?”. Porém, como se veria depois, esta não foi a melhor solução encontrada pela jovem mãe. Basta saber o que a velha senhora disse:
    – Venham cá vocês dois que eu vou contar a verdade, que é pra ver se vocês aprendem e param de brigar. Na verdade, papa-figo não existe, é tudo criação dos pais e adultos para amedrontar as crianças quando elas querem fazer ou fazem alguma besteira, mas bicho-papão existe de verdade, e digo isso porque uma vez um bicho-papão já quis me pegar…
    E a filha, sem acreditar no que estava ouvindo, falou: “Mas mãe, pelo amor de Deus, ao invés de a senhora ajudar quer complicar ainda mais com essa história, parece que está caducando. Por favor, fale a verdade às crianças”. E a senhora continuou, como se nem tivesse ouvido a filha.
    – Papa-figo não existe, mas bicho-papão existe e vou dizer porque, mas não tenham medo não, se não corre o risco dele querer pegar vocês – E os meninos ficaram quietinhos, tremendo de medo -. Quando eu era novinha e tinha um namorado escondido do meu pai, e ele de noite vinha conversar comigo na janela do quarto, quando meu pai ouvia qualquer barulho e vinha me perguntar o que tinha sido, aí eu dizia que só podia ter sido o bicho-papão, porque eu estava sozinha, como ele mesmo podia ver. Aí ele olhava dentro do guarda-roupa, atrás da cortina e embaixo da cama, e nada do bicho-papão aparecer. Mas um dia o bicho-papão me pegou de verdade…
    “Mas mãe, pelo amor de Deus, que conversas são essas, não está vendo que os seus netos estão ouvindo essas asneiras e podem acreditar nisso tudo? Ademais, veja lá onde a senhora chega com essa história de bicho-papão. Sei não…”, disse a mãe já preocupada.
    – Cale a boca senão eu conto como o bicho-papão pegou você. Ah!, sim, vamos continuar. Um dia, quando já era noitinha bem escura, fui lá no quintal de casa tirar uma roupa do varal porque parecia que ia chover. Assim que cheguei lá e já ia pegando a roupa senti um vulto se aproximando de repente, com um bafo quente e me segurou por trás…
    “Mas mãe, pelo amor de Deus…”, implorava a jovem senhora.
    – Cale a boca senão eu conto. Aí, quando ele me segurou por trás a luz do quintal foi acesa e ele correu e sumiu por trás das bananeiras…
    Foi quando um dos netinhos perguntou: “E aí vó, a senhora ainda voltou lá quando tava escuro, depois de quase ser comida pelo bicho-papão?”. “Aí já é outra história, mas eu vou contar”, disse a velha senhora.
    “Mas mãe, pare com isso agora mesmo, senão vai acabar falando o que não pode e não deve”, repetia a moça com ares de preocupação.
    – Voltei e um dia, de noite bem escura, mas com uma lua bem bonita no céu, o bicho-papão veio ainda mais ligeiro, me pegou e me comeu…
    “Pare agora mesmo com isso, mãe, não está vendo que são só crianças?”, agonizava a jovem. Mas sua mãe parecia que não estava nem um pouco preocupada.
    – Pois bem. O bicho-papão veio e me comeu todinha, de uma vez só. Sorte minha que eu tinha passado pimenta pelo meu corpo todinho, e aí ele, que ficou todo se ardendo com a pimenta, me cuspiu e aí eu voltei para o mundo e ainda hoje estou aqui.
    “E o bicho-papão vó, desapareceu de vez, sumiu com medo da pimenta?”, perguntou um dos netinhos, curioso que só.
    – Que nada meu filho, acabei casando com ele…
    “Mas mãe!!!…”.

    Advogado e poeta
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  • Rangel Alves da Costa
    06/06/2010 at 21:20

    ANJO DA GUARDA DO CORAÇÃO ATEU

    Rangel Alves da Costa*

    Sem qualquer tipo de dúvida, o que dá sustentação à vida e a recobre de significado é a fé, a crença ou a certeza de que o que se vive ou se busca não é em vão. As metas, os sonhos e os objetivos de nada valeriam se não fossem alicerçados por uma possibilidade de realização. E essa possibilidade ganha força e sentido quando se tem um Deus ou deuses no coração, quando se acredita em uma força superior que interceda positivamente para que as coisas se realizem.
    Pessoas existem que simplesmente negam a existência de Deus, de deuses ou de outras entidades divinas, superiores. Para elas, não existe religião, fé, força superior ou qualquer luz espiritual que indique que não estamos e não somos sozinhos. A descrença faz com que elas acreditem que os seres humanos simplesmente estão por aí por um acaso, que nada pode interferir no destino senão os próprios indivíduos, que o que foi e será feito só deve ser prestado contas a si mesmos. Presumem, enfim, realizados nos seus próprios poderes de grãos de areia sobre a terra.
    Contudo, verdade é que muita gente confunde a descrença numa força superior com a ausência de Deus no coração. Aí se diz ateu simplesmente porque acha que Deus o abandonou, que o seu coração está vazio de fé porque implorou a Entidade e não foi atendido, porque rezou, fez promessa e acendeu todas as velas do mundo e mesmo assim o namorado não voltou. “Eli, Eli, lhama sabactani”, Deus, meu Deus, por que me abandonaste? E a partir daí já se diz ateu.
    Desse jeito era Maria, com seu passo triste, seu olhar chorão e seu coração despedaçado. Se achava a pessoa mais infortunada do mundo, a mais feia, a mais sem sorte, a mais rejeitada, a mais abandonada, a mais carente de amor. Nunca havia arrumado um namorado porque era isso tudo, dizia. Daí que começou a odiar todo mundo e tudo no mundo, a se isolar, a não crer mais em nada. Não passava mais na frente da igreja, deu a sua bíblia, nem de longe queria ouvir falar em religião. E o que é pior, primeiro brigou com seu anjo da guarda e depois ficou de mal com Deus.
    Maria vivia assim, jogada, sem crença e sem fé mais em nada. Não sabia, porém, que o seu anjo da guarda acompanhava tudo de perto, estava sempre ao seu lado, protegendo, interferindo silenciosamente nas suas ações, iluminado seu caminho e dando o apoio espiritual que ela tanto necessitava. Mas ela não sabia disso, e se soubesse não aceitaria, pois tinha a certeza que nada mais na vida faria voltar a fé naquele coração ateu.
    O seu anjo da guarda, de nome Gabriel, aquele que é enviado por Deus, resolveu interferir mais fortemente na sua vida. Sabia que ela não era atéia e muito menos o seu coração se predispunha a ser ateu. Então, numa dessas circunstâncias do destino arranjou um namorado pra Maria. E que sorte a dela, pois o grande amor surgido do nada se dizia também ateu. Dois ateus juntos seria a perfeita conclusão de que as pessoas se encontram simplesmente porque andam por aí e não porque são predestinadas ao encontro.
    Verdade é que Maria começou a ficar mais animada, tendo mais prazer nas coisas, fazendo planos para o futuro e mostrando cada vez mais felicidade. Por outro lado, o seu namorado ateu outra coisa não fazia senão falar mal de tudo, pensar negativamente em tudo, discordar de tudo que existia na vida. E ela foi ficando desgostosa com aquela situação, não suportando mais o jeito dele e até chegou um dia que disse: Deixe de ser assim e procure ter Deus no coração. Logicamente ele, como não acreditava em nada, também não acreditou no que estava ouvindo. E sumiu por dois dias.
    Quando teve saudade e voltou encontrou Maria mais feliz que nunca. E a primeira coisa que ela disse foi que havia sonhado com o anjo da guarda dele. “Mas isso não existe Maria”, retrucou ele. “Existe sim, eu tenho certeza, e tem dois anjos neste momento perto de nós, nos guardando. E eles, como todos os outros anjos da guarda são enviados por Deus para nos proteger durante toda a nossa vida, são espíritos superiores que estão ao nosso lado para nos guiar e nos preservar do mal, são aqueles seres invisíveis que nos socorrem e nos ajudam, nos envolve de paz e serenidade e nos leva a fazer o bem, são os mensageiros da esperança que estão a serviço de Deus. Eles nos faz chegar bons conselhos através dos pensamentos, idéias estas que nos inspira nas realizações da vida, e quando não os aceitamos ainda assim eles nos deixam adquirir experiência por nossa própria conta. É por isso que o Livro do Êxodo diz: “Vou enviar um anjo adiante de ti para te proteger no caminho e para te conduzir ao lugar que te preparei”. Foram as palavras de Maria, a que há bem pouco tempo dizia não ter crença nem fé.
    Era inegável. Maria havia se convertido de vez novamente. Estava repleta de felicidade, de esperanças e valorizando a si própria como nunca. O seu namorado aos poucos também ia mudando, deixando de ser tão combativo aos poderes de Deus e a sua efetiva existência na terra a partir do coração dos homens. Simplesmente não defendia mais o ateísmo nem afirmava que o único responsável pelo homem é o próprio homem. E Maria quis saber o que vinha ocorrendo com ele.
    “Agora sei Maria que o anjo da guarda que existe em mim é o amor que sinto por ti, eis que o amor é o anjo da guarda do coração ateu”, disse.

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  • Rangel Alves da Costa
    06/06/2010 at 21:19

    ALMA MINHA, AMOR MEU…

    Rangel Alves da Costa*

    Segundo o espiritismo, as almas viventes de um dia eternizam-se para cumprir seus anseios e objetivos terrenos. E lembro bem que em todas as vidas que vivi, por não poder te encontrar nos meus outros instantes de vida, sempre me deram a certeza de que um dia te encontraria como já estava escrito, e te amaria como estava destinado a amar e assim retornaria feliz, até ser chamado novamente à vida para viver o mesmo imenso amor, nós dois em outras encarnações.
    Renasci novamente numa pessoa como sempre fui, triste e solitário, porém cumprindo na terra o destino das pessoas escolhidas para se entregarem de corpo e alma às ações dignificantes, de modo que no julgamento de sempre não fosse sentenciado pela pena da omissão, do semear discórdia e do pecado em si mesmo. Por isso renasci também com o coração dos humildes, dos doadores, dos crentes na bondade dos homens e dos amantes. Com o coração dos amantes sim, e porque tenho um destino de amor a ser cumprido ao lado de alguém que já deveria, há muito tempo, desde outras vidas, ter compartilhado a sorte dos que se entregam por um querer comum.
    O meu amor também renasceu para cumprir o doce e suave fadário de encontrar o seu verdadeiro amor. Em outras vidas, em outros e outros corpos, também experimentou amar, vivenciou o convívio amoroso, mas não amou como verdadeiramente deveria. E foi assim porque o seu amor verdadeiro era outro, separado que esteve daqueles momentos pelas circunstâncias impostas. E não poderia ser diferente, pois o ser com a expressão maior de querer, de sentir, de se entregar ao outro verdadeiro, sempre foi preservado para esse encontro de agora, para hoje em dia, para essa realidade em que vivemos. Fomos colocados, pois, no mesmo instante e na mesma idade da vida para que cumpríssemos o que secularmente nos foi destinado, que é a união como almas gêmeas que se amam. É este o nosso momento…
    Você passou e eu te olhei e eu te quis e te amei, não por um acaso; não porque as pessoas se encontram e um fica desejando o outro. Não. Esse olhar, esse querer e esse amar estava apenas sendo despertado da distância adormecida do tempo, porque eu já te conhecia, eu já me apaixonei por você um dia – mesmo sem a presença ideal – e jurei eternamente que um dia seria minha para sempre. Como vê agora, muitas vidas tivemos que viver para que se cumprisse o que secularmente já havia sido escrito nas estrelas: haverá uma vida em que essas duas vidas enfim se reencontrará para formar uma só vida!
    Não estamos fazendo nada de novo, meu amor. O amor é novo e é imenso porque foi se depurando com o tempo, para nos chegar com essa feição de descoberta mágica que temos agora. É novo porque nossas outras vidas repassaram para o instante em que vivemos somente aquilo que merece ser vivenciado no amor, que é aquela ideia que nos vem à mente e diz que parece que fomos feitos um para o outro. Mas já havíamos sido feitos assim, um para o outro, só que nunca conseguimos realmente nos encontrar para confirmar a certeza de que nossos espíritos estiveram sempre pairando sobre todas as forças para possibilitar esse instante na imensidão infinita da vida.
    Estamos na presença do nosso instante, estamos diante do momento em que, enfim, teremos que nos encontrar por um acaso e, a partir de um olhar em meio à multidão talvez, tenhamos a certeza e consciência de que nunca nos sentimos tão atraídos, desejados e carentes um do outro, porque não seremos nós que estaremos agindo e querendo, mas sim o destino desse imortal se confirmando, que é o amor. Por isso olhe para mim, minha alma amada de sempre, meu amor de eternamente agora…

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  • Rangel Alves da Costa
    06/06/2010 at 21:18

    A VOZ DA MONTANHA

    Rangel Alves da Costa*

    De repente, lá no alto da montanha, primeiro chegou uma ventania avassaladora, derrubando e desfolhando árvores, espalhando pelos ares e levando para bem longe galhos e folhas secas que já estavam impedindo o surgimento de novas espécies. Depois nuvens escurecidas apareceram por instantes, até se ouvir um forte barulho de trovões. Minutos após, tudo se acalmou novamente, na brisa, no azul e na paisagem encantadora lá em cima da montanha. Foi então que se ouviu uma voz, surgida bem no ponto mais alto e logo espalhada feito eco pelas proximidades e distâncias.
    Você ouviu aquela voz, parecendo ter vindo lá de cima da montanha? Alguém ouviu o que ouvi, algo parecido com uma voz que veio do topo daquela montanha? Que palavras estranhas foram estas que acabamos de ouvir, todos ouviram bem e sabem de onde foram pronunciadas? Que foram palavras não restam dúvidas, mas alguém pode repetir o que verdadeiramente ouviu? E um misto de certeza e dúvida se instalou entre todos.
    O padre veio correndo de dentro da igreja para o meio da praça, de olhos voltados para a montanha e se benzendo sem parar, dizia: São os sinais, são os sinais da profecia, pois a montanha um dia deveria falar e dizer que… Mas o que foi mesmo que ela disse? A beata num segundo já estava ao lado do sacerdote, também se benzendo e de rosário na mão, procurando reforçar as suas palavras: Louvado por Deus louvado, que o Santíssimo nos proteja, porque quando esta voz chegasse dizendo que… Dizendo o que mesmo seu padre? Também queria saber sua intrometida, respondeu o sacerdote, levando as duas mãos ao peito num gesto de oração.
    De norte a sul da cidade foram acorrendo pessoas para o centro da praça, formando uma pequena multidão onde já estavam em orações o padre e sua fiel discípula. Outra beata chegou carregando um crucifixo na mão e falando bem alto: Estava escrito que essa voz viria, que essa montanha falaria, que do seu cume se ouviria que… se ouviria que…, Mas se ouviria o que mesmo meu Deus? Mas deixa pra lá, porque estava escrito que essa voz viria… E Maria das Neves, uma prendada e afamada fofoqueira, aproveitando o momento propício para soltar das suas, foi logo dizendo: O padre acabou de dizer e a beata confirmou que aquela voz que se ouviu não foi bem uma voz, foi um grito e um grito de raiva vindo do alto da montanha, e esse grito bem alto era dizendo que… Era dizendo que chegou o apocalipse, o juízo final, e agora é que vamos ver quem tem pecado pra vender…
    Aí sim, ouviu-se um grito do padre: Você enlouqueceu mulher de pouca fé, traidora dos preceitos divinos, enxerida da vida alheia, fofoqueira, pois acreditem que não dissemos uma só palavra neste sentido. O que acho, e talvez a beata Pureza ache também, é que aquela voz, calma e doce, queria anunciar que… Que vocês todos vão pra suas casas procurar o que fazer, vão trabalhar, vão orar para pedir perdão a Deus pelos tantos pecados cometidos, pois somente assim poderão aliviar as suas dores se aquela voz disse o que realmente estou pensando…
    Está pensando o que seu padre? Diga, diga. E se fez o maior barulho no meio da praça. Como não arranjou outro jeito, o padre Santinho achou melhor convidar todos os presentes para discutir essa questão dentro da igreja. Até achou isso uma boa saída, pois somente assim poderia reunir os fiéis que há muito haviam desaparecido, o problema é que não sabia bem o que iria dizer, o que poderia explicar convincentemente sobre o que estava pensando. Nem ele mesmo sabia direito o que estava pensando.
    No momento em que todos rumavam para a igreja, eis que surge correndo um menino, já demonstrando cansaço e parecendo ter algo muito importante a dizer. Calma meu filho, de onde vem assim nessa correria toda, descanse um pouco e depois fale. O que tens a dizer com tanta pressa? É que seu padre, eu estava lá no alto da montanha caçando passarinhos e ouvi uma voz estranha, e essa voz disse…
    Diga, diga, gritava o povo. E o menino falou: Disse que o mundo precisa ficar mais em silêncio, fazer silenciar o barulho das guerras e das violências, e que os homens precisam ouvir mais antes de acharem que tiveram a certeza do que ouviram, pois somente assim poderão ouvir e entender a voz do Senhor.

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  • Rangel Alves da Costa
    06/06/2010 at 21:18

    A SAGA DA SOLIDÃO

    Rangel Alves da Costa*

    Dizem que a solidão saiu por aí numa tristeza danada, de dá dó mesmo. Segundo os seus amigos mais íntimos, que são o abandono, o isolamento, a angústia, a carência, a separação, a privação, o enclausuramento, o sofrimento, a ansiedade, o desamparo e a renúncia, ela não tinha nenhum motivo para ficar assim, para de repente transformar-se num inexplicável vazio, pois demonstrava estar alegre e feliz.
    Quando a solidão resolveu ficar assim, toda tristonha e distante do mundo que a rodeia, ela não fez isso sozinha, contrariando o que muita gente pensa. Parecendo ter uma força superior, um encantamento que silenciosamente envolve as pessoas, ela possui dezenas, centenas, inúmeros seguidores onde está e pelo mundo afora. Fecha-se sozinha no seu canto, sai por aí procurando refúgio às escondidas, mas sempre sendo seguida por corações e mentes que simplesmente querem se distanciar da vida e da intensidade do viver.
    Já fiz parte desse grupo de seguidores, e de vez em quando, principalmente ao anoitecer ou quando a chuva bate na vidraça, tenho recaídas que chegam como verdadeiras tempestades internas. Até gosto dessa sensação de solidão, porém quando ela é provocada, vez que proporciona momentos indispensáveis de autorreflexão e de releitura do que andei escrevendo pelos caminhos da vida. Mas quando ela chega por sugestão própria, sem pedir licença à alegria ou à multidão ao meu lado, pouco posso fazer senão buscar o melhor ambiente para vivê-la: o quarto fechado, um ambiente silencioso e reservado, qualquer lugar onde a angústia não seja incomodada.
    No percurso incansável que faz a solidão, tanto faz para ela estar numa rua movimentada da cidade grande, na arquibancada de estádio de futebol ou numa reunião animada, tanto faz porque assume a sua feição onde quer que esteja. Não se incomoda que os outros estejam gritando ao seu lado, provocando, instigando, fazendo com que forçosamente participe daquela situação. Não importa. O que importa para ela é simplesmente dizer que é solidão e pronto. Daí que pode surgir o sorriso, a alegria, a algazarra, o maior barulho do mundo que ela, participando disso tudo, vai se impondo de tal modo que de repente tudo aquilo ali ao redor não existe mais. E o pior: as pessoas tornam-se insuportáveis, não quer ouvir ninguém lhe falando, quer fugir para um lugar bem distante e nunca mais voltar.
    Nessa sua fuga da realidade, inevitavelmente que a solidão encontra consigo mesmo. Não vendo, ouvindo ou querendo os outros ao redor, contenta-se sofrivelmente com o enfrentamento com os seus próprios problemas. É nesse encontro da solidão com o seu íntimo que nasce o diálogo da lágrima, do grito, do terror, da angústia, da depressão, do suicídio. Muitas vezes uma solidão pede, exige, ordena, enquanto essa mesma solidão contemporiza, dá uma chance a si mesma, abre a porta e vai procurar viver.
    Quando a solidão encontra motivos para continuar sua caminhada solitária é muito difícil de rever a situação e procurar retorná-la. Ora, se ela vive buscando o instante certo para se mostrar presente com toda a sua força, quando o espírito está fragilizado pelo fim de uma relação, quando a pessoa está psicologicamente afetada pela perda e pela saudade ou quando simplesmente a mente começa a rejeitar os outros e pedir isolamento, não há como pedir ou implorar para que ela dê um tempo e venha depois. Como avalanche, vendaval ou tempestade, ela chega, faz seus estragos e ainda continua rondando a vida da pessoa já fragilizada.
    Um dia ela chegou sedenta e faminta perante uma jovem triste, se aproveitou da vulnerabilidade daquele coração apaixonado e da mente indecisa, entrou sem se anunciar, sem bater a porta, e foi logo fazendo a festa. Impôs que a mocinha se enclausurasse no seu quarto, não falasse com ninguém de sua casa, não recebesse visitas, pouco se alimentasse e ainda por cima, como forma de aumentar ainda mais aquele sofrimento insuportável, fazia com que a pequena desesperada ficasse olhando da janela o horizonte encantador, lesse e relesse os bilhetes de amor enviados por alguém, mirasse constantemente aquele rosto na fotografia. A solidão pouco a pouco foi se transformando em obsessão, e desta para a loucura. Até hoje a mocinha vive na janela esperando o príncipe chegar. Diz que enquanto não chega trai ele com o cobertor.
    Contudo, pessoas existem que são mais fortes do que a solidão e fazem dela o que bem entendem. Sabendo disso, a rainha da solidão resolveu que ela mesma iria testar para ver se realmente estavam menosprezando essa imposição psicológica de deixar as pessoas como se estivessem distantes do mundo. A primeira pessoa que encontrou foi um recém descasado que fazia de tudo para não sair da solidão que tanto merecia.
    Chegou próximo e foi logo invadindo o rapaz tranqüilo à beira mar. Lá dentro, zanzou de um lado para o outro, foi no coração, subiu ao cérebro, e nada do homem passar a ter o comportamento próprio dos que estão desesperadamente solitários. Pelo contrário, o indivíduo vivia calmo e paciente com a boa solidão que já tinha. E a rainha da solidão ficou desesperada, a ponto de enlouquecer.
    E só não enlouqueceu porque foi forçada a aprender que não há solidão tão intensa que o ser humano não possa viver feliz com ela.

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  • Rangel Alves da Costa
    06/06/2010 at 21:17

    A MENINA QUE CHOVIA

    Rangel Alves da Costa*

    De início, os pais não demonstravam nenhuma preocupação, afinal de contas é coisa de adolescente gostar de ficar trancada no quarto durante quase todo o tempo que está em casa. Ademais, são inúmeras as mocinhas que só saem do seus quartos porque é o jeito, só vão à escola porque não tem jeito, só não ficam dias e dias trancadas porque ainda não arrumaram um jeito.
    Os demais, familiares e outros adultos, esperam que deem satisfação à vida e acham que isto somente é possível convivendo próximas e eles, sempre alegres e “normais”, como dizem. Outros acham que lugar de adolescente é na rua, curtindo, se divertindo nas baladas. Desrespeitando a privacidade, o jeito próprio de ser e o instinto de cada uma, acham que deve ser assim para afastar de suas mentes pensamentos impróprios para a idade ou mesmo que a “síndrome da moça velha” não recaia sobre elas. Puro engano, pois é na liberdade de ser e de pensar que todo o sentido da existência vai sendo construído e reconstruído. E a liberdade de querer se trancar no seu quarto e repassar as páginas da vida é tão significante quanto a liberdade de ir e vir.
    Ora, a vida pede que cada um encontre momentos para a reflexão, para fazer um balanço das ações, para partilhar intimamente com o próprio íntimo. É que as pessoas que não conhecem a si mesmas não sabem compreender o outro, não sabem distinguir o que lhes possa fazer bem ou mal, não sabem sequer de suas necessidades. E não importa que desse auto-encontro venha a tristeza, a angústia, a saudade que dói, a lembrança que amarga. Pelo contrário, é sempre bom que as dores da vida digam que estão presentes para que cada um valorize mais suas ações e saiba fazer o mesmo de outro modo.
    Verdade é que muitos querem fazer dessa loucura cotidiana, desse corre-corre do dia a dia um motivo para deixar de lado a si mesmos. São conscientes de que precisam parar para refletir, mas insistem em deixar esse diálogo interno sempre para depois. De repente, uma situação não resolvida juntando-se a um erro banal transforma-se num problema muito maior, psicológico até e com graves conseqüências.
    Agora me digam que mal faz a alguém procurar no entardecer um cenário ideal para mirar o horizonte e pensar no que foi feito, nas pessoas que ama ou desama, nos problemas, nas alegrias e nos muitos sonhos que vem à mente? Me respondam se é feio recolhecer-se num ambiente propício e sorrir com o que faça sorrir, chorar com o que faça chorar, lembrar daquilo que dá saudade. Se for possível, porque não gritar, cantar, pular, erguer os braços, correr, fazer assim porque o instinto quer se manifestar desse jeito. Mas isto só é possível quando você dialoga com ele, com o seu interior. Ora, se você diz que tem tempo pra tudo, nada mais justo que tenha tempo também pra você mesmo.
    Certa feita, porque pessoas viviam somente para os outros, para olhar e falar da vida dos outros, uma bela mocinha foi acusada de ter enlouquecido, de ter perdido de vez suas faculdades mentais e necessitando de ser internada urgentemente. E por que tal acusação?
    Simplesmente porque esta mocinha era diferente das outras, gostava de ficar sozinha, passava grande parte do tempo trancada em seu quarto, ficava triste quando devia entristecer, alegrava-se quando seu coração sorria, conversava com o jardim e cochichava com as flores e os espinhos, dava adeus aos pássaros que passavam voando, gostava de ficar minutos a fio olhando o entardecer, a lua e as estrelas. Quiseram chamar o médico quando ela disse que naquele dia estava chovendo por dentro.
    Não se sabe como, mas arrumaram um jeito de espreitar a menina quando ela se trancava no seu quarto. Diziam que era pra ter certeza que o caso dela era de internamento mesmo. Sem saber, a bela mocinha, ali dentro e sozinha, comportava-se normalmente, do jeito que se comporta pessoas na sua idade, ora lendo uma carta ou um livro, escrevendo um bilhete, vendo uma fotografia, ouvindo música, deitando na cama e pensando e pensando, ora caminhando de um lado para o outro, angustiada ou debruçada em qualquer lugar triste e pensativa. E nessa tristeza a lágrima lentamente escorrendo pela bela face juvenil.
    Numa tarde, dessas de sol impiedoso, a menina estava trancada no seu quarto mais triste do que nunca. Andando de um lado para o outro, ao se aproximar da janela a chuva começou a molhar a vidraça; mas não chovia; os pingos caíam pelo quarto; mas não chovia. A menina estava triste de doer, de fazer chorar, mas quem estava chorando era quem observava aquela tristeza doce na menina que vivia apenas as dúvidas da sua idade. E quem visse a tristeza da menina dizia que ela também chovia.

    Advogado e poeta
    e-mail: rangel_adv1@hotmail.com
    blograngel-sertao.blogspot.com

  • Rangel Alves da Costa
    06/06/2010 at 21:16

    A MÃO QUE ENXUGAVA OLHOS

    Rangel Alves da Costa*

    A mão que enxugava as lágrimas dos que choravam não pertencia aos que estavam pranteando suas dores pela perda, pelo desespero, pela aflição. Não se sabe como, mas a mesma mão estava sempre em todos os lugares onde olhos umedecidos começassem a verter suas desesperanças.
    Ninguém jamais havia percebido isso até que um dia uma criancinha de uma família muito pobre perguntou à mãe, que estivera chorando instantes atrás: “Mamãe, por que as pessoas choram muito e de repente os olhos ficam apenas entristecidos e elas param de chorar, será que vem uma mão escondida e manda a tristeza ir embora e começa a enxugar as lágrimas?”.
    E a mãe, totalmente perplexa com a inesperada pergunta e com a certeza de que não saberia responder corretamente, apenas disse: “As pessoas tem lencinhos guardados bem dentro do coração, e quando precisam elas pedem que eles enxuguem os olhos. Deve ser isso, minha filha…”. “Pois eu já acho outra coisa”, disse a menina, saindo em seguida.
    Rio de Janeiro, abril de 2010. Chuvas intensas, fruto de tempestades de magnitude dificilmente vistas no lugar, deixou milhares de desabrigados, ruas completamente alagadas e moradias pobres completamente destruídas por deslizamentos em morros. Mais de duas centenas de pessoas perderam suas vidas, e as inúmeras outras que ficaram vivas foram vitimadas também pela dor da perda. Quantos olhos se viram também em tempestades e quantas lágrimas não foram derramadas como em outra enxurrada? Em todos os lugares uma única mão enxugou a nascente de todos aqueles olhos e fez aqueles sobreviventes enxergarem melhor a vida a ser reconstruída.
    Haiti, janeiro de 2010. Um forte terremoto devastou diversas regiões do país, derrubando casas e prédios públicos e soterrando nos escombros milhares de vítimas; os corpos dos mortos foram amontoados pelas ruas esburacadas e pessoas vagavam doentes, famintas e sedentas, pelos ermos sem saber o que fazer, apenas chorando unissonamente a dor de todos. Até hoje as lágrimas ainda não cessaram completamente, mas uma mão invisível cuidou em dar aos olhos de cada um a força que tanto precisavam para enxergar o futuro.
    Arapiraca, Alagoas, abril de 2010. Padres da Diocese afirmaram ter abusado de coroinhas durante muitos anos, com práticas também recentes e que envolviam verdadeiros festins, orgias, uso de bebidas e práticas sadomasoquistas. Um padre já idoso chegou a ser preso após depoimento à CPI da pedofilia, confessando tudo e pedindo perdão aos fieis pelos reiterados pecados cometidos. As vítimas e outras pessoas restaram indignadas e reclamaram justiça, porém ninguém chorou. Mas a Igreja sim, e os olhos derramaram as lágrimas envergonhadas daqueles que não podem chorar porque demonstraram não possuir nenhum senso de respeito próprio nem à igreja que os acolhia. A Igreja chorou, e uma mão que vive em seu interior procura agora enxugar as lágrimas do templo e as próprias lágrimas.
    Sertão nordestino, a vida inteira. Em épocas de prolongadas estiagens, quando a seca começa a traduzir e mostrar o lado mais cruel da miséria absoluta, da falta de qualquer perspectiva e da desesperança que toma conta dos mais novos aos mais velhos, as lágrimas ressequidas pelo sol escaldante e pelo acostumar no sofrer, são transferidas para outros olhos, pertencentes a todos aqueles que humanamente compreendem a situação e, ao lado da lágrima, ainda oferecem um pacote de fubá de milho. Tais lágrimas, enxugadas por mão amiga, dão lugar ao sorriso, que dá forças para ajudar muito mais e transmitir aos carentes e necessitados um pouco de esperança e fé por dias melhores.
    Assim que aquela meninha do começo da história retornou, sua mãe lhe chamou e perguntou: “Minha filha, o que você quis dizer mesmo quando afirmou que achava outra coisa, quando a gente falava sobre uma mão que sempre enxuga os nossos olhos e a gente nunca é capaz de enxergar ela?”.
    “Mamãe, se sempre estou com Deus me segurando com uma de suas mãos, a outra deve ser a que enxuga os nossos olhos”, falou a menina. E a mãe lacrimejou por um breve instante…

    Advogado e poeta
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  • Rangel Alves da Costa
    06/06/2010 at 21:15

    A LIÇÃO DA ANDORINHA

    Rangel Alves da Costa*

    O vento norte, com sua voragem, encontra ainda as coisas desfeitas depois do vendaval que passou. É hora de reconstruir a vida enquanto o tempo ainda permite, enquanto ainda temos forças para juntar pedaços. Enfim, é o sol, é o azul, é um horizonte que enxergo bem longe.
    A vida é assim mesmo, com esses mistérios que a natureza quer nos ensinar e insistimos não aprender. Verdade é que o vendaval que passou por aqui provocou perturbações marcantes no estado normal da realidade, derrubando árvores e arrancando plantas, causando enxurradas e alagamentos, destelhando casas e levando os sonhos de muitos. Inevitavelmente isto iria acontecer, mas nunca nos preparamos o suficiente para evitar os danos.
    Depois da natureza revoltosa, começa outro barulhar do tempo. É certo que o vento norte também é vadio; mas é a sua vez. É a vez do vento norte, soprando quente e intensamente, num murmúrio que é também um aviso: vem mais chuva por aí. Temos, talvez, somente mais uns dois ou três dias antes que a chuvarada lave novamente a terra e suas paisagens.
    Dois ou três dias é o tempo que temos para viver a tranqüilidade dos dias. É nesse curto espaço de tempo que limpamos a casa, arrumamos os móveis, lavamos e secamos a roupa no varal, tentamos dar uma normalidade à vida. Quanta coisa fazemos em segundos, minutos, basta um olhar, um toque, um aperto, um aceno. Temos ainda dois ou três dias, talvez, e é tempo demais para transformar a própria vida.
    Pensei no que poderia fazer nesse espaço de tempo e lembrei do que faz nesse mesmo período uma andorinha que fez moradia no meu quintal. Como se sabe, as andorinhas geralmente vivem em bandos, voando aos montes por aí, mas esta vivia sozinha no meu quintal, onde fez ninho e dedicava-se à sua solidão. Esta não era barulhenta, era religiosamente silenciosa.
    Dizem que vivem a maior parte do tempo no ar; só param de voar para beber água ou descansar nos fios de eletricidade e vão ao chão apenas para colher barro para os ninhos ou para caçar insetos para comer. Dizem ainda que desenham figuras no ar, chamam a primavera e louvam a chegada do sol. A andorinha que conheço, contudo, passa a maior parte do tempo em pequenos afazeres nas redondezas e no beiral do seu ninho, observando a vida. As andorinhas não cantam; a minha também não. O que faz é insistentemente construir e reconstruir sua vida e viver em paz.
    Naqueles dias de chuvas não vi a andorinha. Fui até próximo ao seu ninho e nem pude vê-lo. Ele estava coberto por um pedaço de plástico com uns gravetos por cima que eu nem sei como ela havia conseguido colocar ali. Ali ela não estava, presumi. E quando eu voltava para a porta de casa olhei ao redor e vi a andorinha alegre e satisfeita numa fresta acima da janela. Naquele lugar improvisado, estava enxuta, protegida e feliz, bem próximo à sua moradia, que estava também devidamente protegida.
    Tal fato jamais me saiu da memória. Antes do temporal a andorinha já estava com sua vida totalmente organizada, pronta para qualquer conseqüência. Havia arrumado tudo em menos de três dias, talvez. Soube ver e ouvir a natureza, sentiu a tempestade que se aproximava, protegeu seu ninho e procurou se proteger. Quando o sol brilhar e o vento norte soprar novamente anunciando mais chuva, nada afetará mais sua vida. Soube preparar-se pra tudo.
    E nós temos ainda uns dois ou três dias antes das chuvas chegarem e não sabemos sequer consertar uma minúscula goteira que surge no canto dos nossos olhos toda vez que chove e estamos sozinhos, desprotegidos.

    Advogado e poeta
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  • Rangel Alves da Costa
    06/06/2010 at 21:14

    A CADEIRA DE BALANÇO E A VELHA SENHORA

    Rangel Alves da Costa*

    Não sei bem o porquê, mas quando vejo uma cadeira de balanço me vem logo ao pensamento lembranças de tardes, de sombreado de árvores, de idosos rememorando tempos idos, de vento brisa soprando, de recordações distantes, de lembranças e saudades.
    Ao entardecer, quando o sol se cansa de fazer sua festa, é hora de colocar a cadeira de balanço na calçada, na varanda, arrastá-la pra debaixo da árvore frondosa, posicioná-la estrategicamente onde o vento avança, onde possa ver o que se passa adiante ou simplesmente onde a solidão do lugar e a paisagem sejam o cenário propício para o reviver da vida inteira.
    No sertão da minha meninice, a cadeira de balanço possuía – e creio que ainda possui – um significado especial, até mesmo sociológico. Ora, a vida não é somente trabalhar, comer, deitar numa cama e dormir. Ao entardecer, assim que o sol vai esmorecendo, as portas vão se abrindo e as cadeiras vão pontuando, uma aqui outra mais adiante, e de repente as pessoas começam a se balançar, tricoteando, lendo a velha bíblia, vendo o artista famoso na revista antiga, brigando com os netos que brincam ao lado, olhando se vai chover ou se vai ser mais um ano de seca, se abanando pelo calor ainda insuportável, dando boas tardes para os que passam, proseando com a vizinha que chega, cochilando. Êta vidinha besta, como diria Manuel Bandeira, que é essa encantadora vida na cidadezinha sertaneja, com suas tardes e cadeiras de balanço.
    Meninote sapeca, quando ia fazer sua ronda ao entardecer pra caçar passarinho, tomar banho de riacho ou roubar goiaba nos quintais das redondezas, Joãozinho sempre passava pelos quintais, grandes, com árvores frutíferas e galinhas ciscando perto do cercadinho das plantas medicinais. Quintal sertanejo é quase sempre assim. Seguindo seu itinerário, o garoto passava por um local que lhe despertava especial atenção.
    Diferentemente do que as outras pessoas geralmente faziam, que era sentar nas suas cadeiras na parte da frente da casa, uma velha senhora preferia ficar na cadeira de balanço de vime embaixo de um pé de umbu-cajá, deixada dia e noite ali no quintal. Toda vez que passava lá estava ela, se balançando levemente, com o seu pano amarrado na cabeça, a face enrugada tristonha e os olhos mirando o alto, o horizonte, e enxergando todo um passado. Joãozinho tinha certeza que muitas vezes ela chorava.
    Sempre investigativo, querendo saber de tudo, o molecote resolveu perguntar à sua mãe sobre a vida daquela velha senhora que via todas as tardes. A mãe foi logo dizendo que, pelo que sabia, aquilo era uma história longa e triste. Aquela senhora, conhecida como Dona Maroca, havia sido muito rica no passado. De família abastada e dona de muitas terras e rebanhos, estudou na capital, sabia como ninguém o latim e outras línguas e tocava piano como ninguém. Até que teve a desdita de se apaixonar por um moço humilde ali mesmo do sertão, com quem fugiu, vez que o pai havia ameaçado expulsá-la de casa se continuasse com aquela loucura. A mãe, como não podia fazer nada, o jeito que deu foi enviar às escondidas um bom dinheiro para que sua filha ao menos comprasse uma casa para viver com dignidade junto àquele que ela escolheu como companheiro. E assim comprou aquela casa, onde até hoje residia. Perdeu seu marido ainda cedo, encontrado morto em circunstâncias que até hoje não foram bem explicadas. E assim ela ficou sozinha, sem filhos, somente com o seu piano e o seu dia-a-dia de recordações e tristezas.
    No outro dia, Joãozinho tomou coragem e resolveu conversar com aquela senhora. Passando por ali, pediu licença para entrar no quintal e foi se aproximando da cadeira de balanço. Mesmo com ar tristonho, com uma leve marca de uma lágrima esquecida, ela foi agradável e acolhedora com o garoto. Disse que podia vê-lo todas as tardes quando passava por ali, perguntou se estava estudando, do que gostava, enfim, fez surgir um pequeno e agradável diálogo. Ele respondeu muito mais do que perguntou, porém fez uma pergunta interessante: “É verdade que a senhora tem um piano, como é um piano?”. E ela respondeu que há muito tempo não cuidava do seu piano e que o mesmo vivia coberto por lençóis, mas que no dia seguinte prometia que mostraria a ele como era um piano e até poderia tocar umas duas notas para ele ouvir. Isso iria lhe doer muito, mas jurou que faria.
    Ansioso para matar a curiosidade, ao entardecer do dia seguinte Joãozinho tomou apressadamente o rumo do quintal da velha senhora. Para surpresa sua, avistou somente a cadeira levemente se balançando, mas nada da senhora.Viu que a porta dos fundos da casa estava fechada e nenhum sinal da presença da velha pianista. Ficou rondando por ali mais de uma hora e nada. Voltou para casa e imediatamente contou o ocorrido à sua mãe. E ela, olhando firmemente e acariciando o cabelo do filho, disse: “Você não vai mais encontrar ela lá, pois hoje de manhã encontraram ela caída morta junto ao seu piano”.
    Joãozinho passou muitos dias entristecido, pela morte da senhora e porque não pôde conhecer como era um piano. Durante duas semanas mudou sua rota de caminhada, evitando passar pelo quintal. Um dia, porém, quando resolveu retomar seu caminho habitual, ao passar pelo quintal ouviu uma bela música vindo de dentro da casa. Era uma suave música tocada ao piano. Todos os dias ele passava para ouvir. E somente ele ouvia…

    Advogado e poeta
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    blograngel-sertao.blogspot.com

  • muzzler
    08/04/2009 at 04:36

    que coisa besta

  • Neto Macedo
    27/03/2009 at 04:46

    Opa. Obrigado Cássio e Carla. Obrigado mesmo. Estou com um engatilhado aqui. Aguardem e ainda esse final de semana eu posto outro. Abração. =)

  • Cássio Godinho
    26/03/2009 at 20:02

    Gostei muito tambem. E concordo com a Carla. Continue postando seus contos aqui! =D

  • Carla
    26/03/2009 at 15:59

    Incrivel!!!
    Adorei o post.
    Pra dizer a verdade quando comecei a ler seu texto, onde vc dizia que adora escrever contos por um momento me passou pela mente que seriam contos eróticos X ).. mas deixa pra lá.
    Vc foi muito criativo.
    Acho também que vc deve continuar a postar seus contos aqui… quem sabe vc é um Stephen King – brasileiro – romantico???
    rsrs… Parabéns!

  • Neto Macedo
    26/03/2009 at 14:04

    Oi Debbie! Obrigado. Bom ver que alguém gostou. =)

  • Debbie
    26/03/2009 at 13:40

    Teu conto é impressionante, a maneira como tu escreve… ual!

    Adorei!

    Parabéns…

    este é um ótimo conto… não li os outros pra julgá-lo o melhor, mas com certeza é muito bom!

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Quem?

Pedro Turambar

Pedro Turambar

Gosto de escrever, reclamar e não tenho controle sobre chorar. Escrevo há 10 anos sobre a loucura de viver em sociedade, futebol e falo bem e mal das coisas que leio, vejo e ouço.

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