Azul é a cor mais linda e mais chata


Acredito que nesta altura do campeonato você já tenha visto Azul é a Cor Mais Quente, se não viu vai poder ver, já que ele acaba de chegar ao Netflix Brasil. Você provavelmente conhece o filme por causa das famigeradas cenas de sexo entre Adèle Exarchopoulos e Léa Seydoux (<3 essas duas), sobre as brigas de declarações com o diretor esquentadinho com Léa, a treta com as distribuidoras de Blu-Ray aqui no Brasil que se recusaram a “lançar” o filme, e a expectativa que esse filme tão ~polêmico e aparentemente incrível estava gerando, das filmagens até agora.

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Azul é baseado em uma das melhores HQ’s que eu li nos últimos anos, de mesmo nome, escrita e desenhada pela linda da Julie Maroh (mais pro final falo mais sobre o gibi). Enquanto isso o filme é uma das maiores decepções que já tive em relação a adaptação de histórias em quadrinhos, e olha que a concorrência é grande. O filme tem falhas imperdoáveis, que pelo preconceito que eu criei em relação à chatice de Abdellatif Kechiche, o diretor, as atribuo totalmente a ele.

O filme conta a história de uma garota, chamada Adèle, que aos 16 anos começa a descobrir sua sexualidade — nada a ver com preferências sexuais –, e começa, como quase todo adolescente, a ter problemas com isso. Eis que ela se apaixona por uma mulher que passa por ela na rua, a paixão desperta ainda mais dúvidas e problemas em sua vida. Você vai vendo como ela vai lidando com isso e como as coisas irão se desenrolar para ela.

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O gibi beira o sensacional. O filme beira o tédio.

Meu primeiro problema com o filme são as passagens de tempo, que são muito, mas muito mal feitas. As inúmeras cenas desnecessárias da segunda metade do filme. O completo abandono daquilo que faz de “Azul” uma história originalmente foda, o sentido de se contar essa história. 

Apesar disso, atribuo a Kechiche também, as coisas incríveis, inacreditáveis e absurdamente inesquecíveis desse filme. As atuações, principalmente de Adéle. É tão real, mas tão real que chega a doer. A naturalidade com que ela faz as cenas é tão paupável que eu me pergunto se ela estava atuando ou apenas sendo ela mesma. Ela estava atuando (é só ver as entrevistas de Exarchopoulos para saber). E isso já faz dessa menina uma atriz que eu pagaria muito para ver novamente, mas também dou parabéns ao diretor por isso. Refazer a cena centenas de vezes dá nisso, uma atuação perfeita de praticamente todo o elenco.

Outro ponto que mostra a direção sensacional do filme. O completo abandono daquilo que faz de “Azul” uma história originalmente foda, o sentido de se contar essa história.

Sim, o maior problema é também o maior triunfo do filme. Eu sei que falar isso é um clichê enorme, mas é verdade.

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Kechiche contou uma história de amor. PONTO PONTO PONTO. Chega um momento, que não importa se são duas mulheres, dois cachorros, duas pombas, duas aranhas (heh). Nós somos seres humanos, e quando se trata de amor, paixão, tesão, traição, ciúmes e sexo nós somos iguais. IDÊNTICOS.

O diretor conseguiu banalizar uma relação homossexual a ponto de te mostrar em um filme tão real que “Hey, somos todos iguais, estamos todos no mesmo barco”. Isso é fantástico, e por isso merece todos e todos os prêmios, nesse sentido é um dos filmes mais verdadeiros que eu já vi sobre amor, ciúme, relacionamentos, etc.

Porque é de verdade. Você sente o cheiro, você quase consegue tocar, e a impressão que você tem, que essa história poderia ter acontecido – ou aconteceu – com aquela menina que estava na sua sala no colégio. 

O filme é longo, e (muito) chato em alguns momentos. Mas vale a pena cada segundo de Adèle em cena. Eu poderia escrever um livro falando apenas dessa menina nesse filme… Faça um bem a você mesmo e veja essa filme…

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…DEPOIS de ler o original. Ou vice-versa. Mas leia a HQ, por favor.

Na primeira metade, filme e quadrinho são praticamente iguais. Quando as duas “linhas temporais” se dividem, é que o filme fica um tédio. É gritante a ponto de mesmo quem não leu perceber que a partir ‘daquele ponto’ o filme meio que perde o ritmo. A partir desse tal momento, Kechiche abandonou completamente a história original. O que, como eu expliquei, é ótimo e ruim.

Ruim só pelo fato de que nem tanta gente vai ter acesso à história lindíssima criada por Julie Maroh.

Enquanto Kechiche contou mais uma história de amor, Maroh contou a história de como é difícil nos aceitar como realmente somos. É muito mais profundo. A revista traz reflexões e conflitos internos, a eterna indagação se a protagonista é realmente homossexual, ou seja, se ela teria uma relação com outra mulher que não fossa Emma (personagem de Seydoux no filme). Que o fato de Adèle – no filme, na HQ a protagonista se chama Clementine – nunca ter se aceitado completamente a impedia de se entregar completamente. E isso é sensacional. Coloca a discussão sobre homossexualidade como uma coisa muito mais complexa e real do que apenas “sou / não sou”, que as pessoas normalmente pensam que é. 

O melhor disso tudo, é que você tem duas histórias lindas. Uma pra ver (meio chata), outra pra ler (incrível). Ambas com alguns probleminhas técnicos, digamos. Mas que valem a pena demais, DEMAIS serem consumidas.

Ahh como elas são lindas…

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3 Comentários

  • Marina Laterza de Paiva
    18/08/2014 at 20:37

    Agora pense você! Consegui o quadrinho e ele chega amanhã! Quero morrer ou quero morrer? *__*

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Pedro Turambar

Pedro Turambar

Gosto de escrever, reclamar e não tenho controle sobre chorar. Escrevo há 10 anos sobre a loucura de viver em sociedade, futebol e falo bem e mal das coisas que leio, vejo e ouço.

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