Contos do Ôns #10: A Maldição do 4106


Eu acredito, veementemente, que fui amaldiçoado. Algo bem Stephen King, algo que vai me perseguir por toda a vida e que tenho que aprender a conviver. Eu acredito, nem tão veementemente assim, que foi feito um ritual, um pacto e uma oferta para algum general do inferno que trata dos assuntos de ônibus. A maldição, feita provavelmente no pátio da empresa de transportes, com pentagramas, suco de caju azedo e cebola frita na graxa, teve um só objetivo:

“Que o amaldiçoado seja, eternamente, assombrado pelos números quatro, um, zero, meia.”

MEIA! MEIA! — deviam ter gritado os outros em uníssono, enquanto o líder recitava a maldição.

“Pedro Américo quarenta e um zero meia, que seja tão dolorido quanto dedo no cu com areia”

MEIA! MEIA!

“Pedro Américo quarenta e um zero meia, que seja tão asqueroso quanto pequi com aveia”

MEIA! MEIA!

“Pedro Américo quarenta e um zero meia, que essa praga grude tanto quanto uma mosca numa teia”

MEIA! MEIA!

Após as palavras mágicas, todos os ônibus da linha 4106, piscaram as luzes seis vezes e todos foram embora para suas casas.

E depois disso, eu passei a ser assombrado por esse ônibus. Acontece até hoje e, se você quiser tirar a prova, é só andar comigo por alguns minutos em qualquer rua que seja caminho da linha.

Não importa onde eu esteja, não importa o horário ou situação. O 4106 sempre, 100% das vezes irá aparecer pra mim. Você pode indagar, dizendo que é só aqueles casos que você só vê uma coisa porque está sempre esperando ver. Tipo aquelas coincidências de números, sabe? Por exemplo, meu número favorito/número da sorte é o 19. Isso quer dizer que todas as vezes que algo aconteça envolvendo esse número eu vou perceber, mas isso nem quer dizer que seja o número que “apareça” mais para mim. É só uma questão de que eu sempre estarei atento quando for o número 19.

Porém não é o que acontece em relação a esse maldito ônibus.

É quase uma força invisível que atrai o meu olhar. E ele sabe que eu estou olhando. Eu sinto isso. Os números até brilham mais forte. Ele sabe. Eu sei. Todas as vezes. Sabe como eu sei? Porque toda vez que eu precisei desse ônibus e ele demorou, Deus como ele demorou, ele não aparecia. Eu sonhava, desejava, pedia, para que ele aparecesse.

Aí eu me mudei.

Aí eu comemorei.

Aí eu me danei.

Foi só não precisar mais dele que passei a vê-lo em todo lugar. Atualmente, quando estou no ponto esperando para ir embora, ele passa e sorri para mim, me desafiando.

Eu acredito, veementemente de novo, que o 4106 é mais que uma linha que liga os bairros Santo Antônio e São Cristóvão em Belo Horizonte. O 4106 é uma entidade, que se alimenta da dor e do sofrimento do brasileiro que depende dele para ir e vir. Quando a pessoa se livra das suas garras, ele faz com que seu acólitos o amaldiçoe com essa praga safada.

Eu acredito. Eu sou um sobrevivente. Até agora.

Ainda morro de pavor de morrer atropelado por ele. Se acontecer, será, sem dúvida, num dia 19.

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1 – Você encontra as outras crônicas do ôns aqui.

2 – Algo parecido já aconteceu com você?

3 – Quais perrengues você já passou num busão?

Pedro Turambar

Já fui de um tudo nesta vida, mas há uma coisa que nunca deixei de ser: escritor. Escrevo para viver e manter minha sanidade em um mundo tão louco. Sou uma mistura de palavras, lágrimas e reclamações.

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Gosto de escrever, reclamar e não tenho controle sobre chorar. Escrevo há 10 anos sobre a loucura de viver em sociedade, futebol e falo bem e mal das coisas que leio, vejo e ouço.

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