Contos do Ôns #2 . O Gordo


Entre tantas outras coisas, o gordo não nasceu para andar de ônibus. Dentro de um ônibus o gordo está errado do momento em que entra até a hora em que coloca o seu pé na rua. Entre tantas outras coisas, ônibus não foi feito pensando em gordos. O que é uma tristeza. Por ver e viver essa constante agonia que acomete aos homens e mulheres (muito) acima do peso dentro da condução que eu resolvi mostrar a você magro e nem-tão-gordo o horror que temos que passar.

Quando o gordo médio (no sentido de maioria, não quantidade de gordice) está fora de seu habitat natural, o sofá, pensa o tempo todo no julgamento das pessoas em relação ao que ele está fazendo. Quantas vezes você já viu um gordinho dando desculpa quando está comendo ou comprando comida? “Nossa, tô sem comer nada o dia todo.”

Na cabeça dele não importa se está sem comer há três dias, ninguém nunca vai perdoá-lo por estar comendo. Eu por exemplo não perdoo.

Entrando no ônibus

Tendo isso em mente, o gordo já começa a sofrer subindo os degraus. Mas a tortura mesmo é na hora da roleta. Que coisa mais filha da puta é na vida do gordo do que uma roleta? É tipo um chefão de fase num videogame. Não é o último chefão, porque o último chefão do gordo é a poltrona do avião. Mas que é filha da puta é.

o gordo

Teve uma gordinha uma vez que eu tinha certeza que ela não passava na roleta. E eu pensei “se ela tentar vai dar merda, certeza.” Eu disse que os adiposamente favorecidos (eu tenho que tentar usar outras defições) ficam constantemente preocupados com o julgamento das pessoas, isso porque é fato que pelo menos 1/3 de quem está no ônibus está julgando o gordinho. A solução da moça em questão seria enfrentar outro horror.

O Banco gigantesco criado para abrigar os que estão acima do peso. Aquilo é outra sacanagem sem tamanho. O gordo vai preferir uma hérnia a sentar naquele banco. Se ele passa pela porta do ônibus, ele não merece aquele banco amarelo enorme.

Sentando no ônibus

Se o gordo fica em pé no ônibus ele está errado. Se ele senta ele está mais.

Após passar a roleta, nos defrontamos com aquela horrível escolha se correr o bicho pega, se ficar o bicho come. Se encontrarmos a benção de um lugar vazio, temos que enfrentar TODAS as pessoas pensando “nem fodendo” ao passar do seu lado. Todo gordo já experimentou pelo menos uma vez estar sentado sozinho no ônibus com todos os outros lugares ocupados e gente em pé. Quem senta do seu lado perde pelo menos 1/3 do assento e uns 3 metros de desconforto. Pro gordo claro, que tenta se encolher feito uma larva barriguda. Falhando miseravelmente é claro.

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Uma vez uma moça sentou do meu lado mesmo com outros lugares vazios. Achei ela super simpática. Meio burra, mas simpática.

Outra situação é ter que sentar do lado de alguém. Quando o gordo passa na roleta o primeiro pensamento de todo mundo que está sentado imediatamente é “aqui não pelo amor de Deus.” Eu nem arrisco, fico em pé. Diz que ficar em pé emagrece. Outra situação filha da puta, é quando o ser humano miserável senta no corredor e quando você quer sentar na janela ele só vira de ladinho assim, como se estivesse presa pelo rabo na cadeira e só rodasse pro lado.

A você, pessoa que faz isso ao invés de se levantar e deixar que o pobre coitado vá para o lugar vazio com alguma dignidade, eu desejo apenas que morra empalada pela piroca de uma baleia Jubarte.

Saindo do ônibus

A seguinte situação está instaurada: o gordo está em seu mini assento, se esguelando encolhido para tentar diminuir o espaço que ocupa. Tem mais ou menos 179 pessoas em um espaço que a física diz que deveriam caber apenas 48. O nosso querido ser lipídico precisa descer no próximo ponto. Imagine o quão miserável ele deve se sentir. Sendo que com certeza ele está sentado ao lado de uma daquelas pessoas que só viram de ladinho.

Ao se levantar, ele ganha poderes de Mel Gibson em Do Que As Mulheres Gostam e consegue ouvir o pensamento de todos – inclusive o dele – “puuuuuuuta queo pariu”. Me contaram uma vez que um gordo ficou com tanta vergonha que resolveu ficar sentado e ver o ponto dele passar. Desceu 15 paradas depois. Mentira. Gordo tem mais preguiça que vergonha.

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Depois de se arrastar, trepar e fazer malabarismos que nem ele sabia que conseguia, finalmente a porta. E os malditos degraus, que se não forem muito bem calculados fazem o gordo despencar feito uma jaca doida.

Tudo isso para ele poder se culpar um pouco mais na padaria comendo um sonho porque ele “merece” depois desse estresse todo.

***

Nota do Editor: Caso não tenha notado, este é um texto de humor, escrito por um gordo, mostrando de forma exagerada o que se passa na cabeça de um gordo. Se você se sentiu ofendido (a), é porque além de gordo é mal-humorado. O que é uma péssima combinação.

Nota do Editor: A série Contos do Ôns já tem dois capítulos:

Contos do Ôns #1

Contos do Ôns #3

Ps.: Não faço a menor ideia de o porquê do capítulo 3 ter vindo antes do 2. 

Pedro Turambar

Já fui de um tudo nesta vida, mas há uma coisa que nunca deixei de ser: escritor. Escrevo para viver e manter minha sanidade em um mundo tão louco. Sou uma mistura de palavras, lágrimas e reclamações.

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Gosto de escrever, reclamar e não tenho controle sobre chorar. Escrevo há 10 anos sobre a loucura de viver em sociedade, futebol e falo bem e mal das coisas que leio, vejo e ouço.

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