Contos do Ôns #3 – Dona Bitinha


Conheça o primeiro dos Contos do Ôns e qual é a ideia do projeto.

Dona Bitinha estava no ponto de ônibus da esquina da rua de seu apartamento no bairro Santo Antônio como sempre esteve às oito da manhã nos últimos 35 anos.

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Dona Bitinha ia todos os dias ao Parque Municipal em Belo Horizonte, ali pela manhã “pra tomar um ar” ela dizia. Ela era uma mulher e tanto. Casara-se duas vezes. Tivera cinco filhos que lhe davam trabalho até hoje. Um marido ela perdeu pro câncer, o outro ela perdeu pra Silvinha “aquela vagabunda” ela dizia. Levava consigo um livro, não muito grande porque “já carreguei peso demais nessa vida meu filho”. Gostava de ficar lendo no banco de frente para a entrada do Coreto. O da esquerda.

Dona Bitinha tinha algumas manias meio doidas. Tinha duas empregadas todos os dias limpando a casa. Casa que na opinião dela só estava limpa quando ela podia livremente lamber as quinas das paredes de forma despretensiosa, quase lúdica. Ela também tinha constantemente os dedinhos do pé roxos e inchados. É que ela fazia questão de andar pela casa para aumentar as chances de topar com o mindinho no pé dos móveis. Ela dizia que precisava de desculpa para “xingar palavrão” sem peso na consciência.

Dona Bitinha tinha outra mania, que deixava qualquer um que estivesse em um ônibus com ela puto da vida. Apesar da idade, ela fazia questão de se sentar no fundo do ônibus, o problema – para os outros – nem era esse. Um deles achou muito estranho o fato daquela senhora ir mancando do início do ônibus até o final, para se sentar por exatos três minutos e dezenove segundos para se levantar mancar novamente todo o caminho e se postar – de forma meio arrogante e afobada (na opinião do jovem que a observava) – colada na porta.

Dona Bitinha não confiava em motoristas de ônibus. “E alguém confia?” dizia ela. Então faltando oito paradas para o seu ponto, – apenas uns quatro depois de entrar no ônibus – ela fazia questão de se postar na porta para não perder o ponto. Ela odiava perder o ponto. “E quem não odeia?”.

Por que vai que o motorista tá de sacanagem e vai arrancar o ônibus dois segundos depois de abrir a porta não é mesmo?

ps.: Que fique claro que Dona Bitinha não confiava em motoristas de ônibus pelo fato de seu segundo marido, Roberto “aquele safado”, ter sido um deles. 

Pedro Turambar

Já fui de um tudo nesta vida, mas há uma coisa que nunca deixei de ser: escritor. Escrevo para viver e manter minha sanidade em um mundo tão louco. Sou uma mistura de palavras, lágrimas e reclamações.

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Gosto de escrever, reclamar e não tenho controle sobre chorar. Escrevo há 10 anos sobre a loucura de viver em sociedade, futebol e falo bem e mal das coisas que leio, vejo e ouço.

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