Contos do Ôns #6 . Edição Rodoviária


Se existe uma provação máxima de paciência na vida, é o ato de comprar passagem em rodoviária. As companhias de viagem, na sanha de promover uma tortura mental em massa na população, contrata as pessoas mais lentas e sem motivação do mundo. O destino, o universo ou Deus colocam nas filas — sempre à nossa frente — as pessoas mais DE SACANAGEM da existência.

Não importa a quantidade de pessoas numa fila de rodoviária, 3 ou 300, você terá os piores estereótipos de viajantes ali, e você terá de ter uma mente preparada para não perder a noção da realidade e pedir pela camisa de força. Outra coisa que não muda, com 3 ou 300 pessoas na fila é a quantidade de pessoas vendendo passagens. São sempre dois — como os Sith — além do desgraçado que fica entrando e saindo dos ‘fundos’.

fila rodoviária

Tem sempre um filho da puta que está duas ou três pessoas na frente que vai para frente do caixa e, por motivos desconhecidos pelo cosmos, simplesmente fica lá. Você não consegue entender, já que o processo de comprar uma passagem, para você, dura no máximo 5 minutos. Mas não, as pessoas entram na fila sem ter ideia do que estão fazendo. Elas ficam na fila, vão até um dos vendedores, e pedem informação, ficam pensando, conversam, contam da vida, chamam um outro filho da puta e mais outro… de repente tem 5 pessoas conversando na frente do caixa e já se passaram 23 minutos.

Se nós usássemos armas, como no Texas, os níveis de assassinatos em filas de rodoviária seriam alarmantes neste país.

Você tem ainda os small talkers, as moças bicho grilo indo para outro acampamento, estudantes, namorados, senhoras desconfiadas, famílias inteiras que entram inteiras na fila, e as pessoas que sofrem úlceras com essa maluquice toda. Nós somos tão fáceis de identificar quanto esses outros aí. Estamos com aquele olhar de incredulidade, constantemente olhando para o relógio, geralmente com fones de ouvido, para que nenhum outro ser humano venha falar com a gente. Somos aquele pobre coitado que parece sofrer de disenteria. Mas não a física que faz você se cagar todo, é a mental. Muito, muito pior para a alma.

Deve existiu algum dispositivo em rodoviárias que deixa as pessoas mais burras que o normal. E nós, seres humanos, que já somos atacados pela doença, que um dia irá nos deixar todos loucos, chamada ‘Repetir o Óbvio’, caímos na viagem de elevá-la à décima potência. Por exemplo: Em todos os guichês das companhias, estão escritos os destinos para os quais aquela companhia — ou aquelas cabines em particular — estão vendendo passagem. Aí o maldito fica olhando as palavras e fica repetindo, certamente na esperança de receber algum auxílio divino, “Será que passa em Curvelo? Olha, eu acho que passa em Curvelo… não tá escrito, mas deve passar em Curvelo. Será que passa em Curvelo?” Tá escrito Curvelo na placa? Então NÃO PORRA. Até nas lanchonetes acontece isso. Tem escrito de todo tamanho na placa “EMPADAS R$3,50”. “Quanto é a empada moça?”

Eu sei que fazemos isso regularmente. Temos em nosso DNA verde e amarelo o medo de estar sendo passado para trás, culpa da Lei de Gérson. Culpa dos 500 anos sendo enrabados de tudo que é lado, por tudo que é pica. Só que aqui em Minas, o povo mineiro leva isso a outro patamar. Dentro de rodoviária é algo que chega a fazer você chorar sangue. E não ache que isso tem a ver com pobreza não. A burrice não tem preconceitos de classe, cor, credo e orientação sexual.

E muito mais que a zoeira, a burrice humana não tem limites.

Pedro Turambar

Já fui de um tudo nesta vida, mas há uma coisa que nunca deixei de ser: escritor. Escrevo para viver e manter minha sanidade em um mundo tão louco. Sou uma mistura de palavras, lágrimas e reclamações.

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2 Comentários

  • Sharon Domingues
    21/03/2014 at 20:42

    Oie.
    Ô Deus, tu não poderia ter escrito nada mais certo. Se tem uma coisa que meu pai sempre me ensinou foi a ler as coisas. “Leia, leia o que está escrito !”, essa é a frase mais conhecida do meu pai pra mim e não posso deixar de lembrar toda vez que faço qualquer coisa. É tão fácil !
    E não, com certeza não é coisa de gente pobre.

    Espalhe sua palavra, meu guri.
    Bjooos
    azul-calcinha.blogspot.com

    • Pedro Américo
      26/03/2014 at 20:25

      Ahahahahahhahahaha seu pai é um homem muito, muito sábio.

      É o que tô tentando. Beijos e volte sempre.

      😉

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Pedro Turambar

Pedro Turambar

Gosto de escrever, reclamar e não tenho controle sobre chorar. Escrevo há 10 anos sobre a loucura de viver em sociedade, futebol e falo bem e mal das coisas que leio, vejo e ouço.

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