Contos do Ôns #7 – A Peidorreira


Geise era uma mulher simples. Desde cedo aprendeu que a vida não lhe daria nada, que se quisesse alguma coisa, sem depender de ninguém, devia acordar cedo, trabalhar duro e ficar calada. Nem ela, nem a mãe, que lhe ensinara sobre a vida e tudo “desse mundo cão,” conheciam outra forma. Numa sociedade machista, racista, elitista e arnaldo batista, como a que vivemos, ou você dança corforme o brega da vez, ou você dança.

A faxineira de nome errado — ‘Geise’ foi batizada assim porque o pai cismou que a mãe, mulher prática, não pariu a menina, fêz-la jorar! Igual “aqueles gêize”. — não tinha muita noção de humor. Dona Marta fez questão de ensinar pra ela o básico da vida, e que uma boa mulher trabalhava pra poder rir sozinha, e não ter que ficar dependendo de homenzarrão nenhum. “Homem só serve nesse mundo pra atazaná a vida de mulher. Deus que num sabe, mas esse trem de hômi não deu certo não.”

Um dia, indo pro trabalho, balançando de sono dentro do ônibus, Geize sentiu uma pinçada na barriga. Ou ela tava morrendo ou era “apêndis”. O medo era tão grande que ela se levantou abruptamente, passou pelo gordo — de olho em seu lugar — em pé ao lado da porta, e torçou para que o moço parasse e abrisse a porta. O ponto chegou, o freio gritou e as portas se abriram.

No momento em que os pés começaram a descer os degraus, Geize jorrou para dentro do ôns, o que é conhecido até hoje na capital mineira, como o peido mais poderoso já assoprado em terras brasileiras desde D. João VI após um balde de asas de galinhas. Naqueles instantes seculares, do ato de Geize descer os degraus até a calçada, toda a flatulência saíra, e completamente contida com o ato automático do fechar de portas do gigante azul.

As reações foram completamente opostas. As pessoas dentro do ônibus, sentiram uma genuína vontade de morrer. Geize se sentiu… livre! Pela primeira vez na vida ela se sentiu feliz de verdade. Primeiro pelo alívio inacreditável de entender que não estava morrendo. A vida era ruim, mas era vida. Segundo, pelo fato de se sentir o gosto da vingança contra o mundo. Ahhh, como era bom, jogar na cara daquele povo todo a realidade do mundo. Geize se sentia renovada, feliz, e disposta a um objetivo: se sentir, para o resto da vida, feliz.

peidorreira

Ela era dona do próprio nariz, não devia nada a ninguém, e peidava ao sair do ônibus, para mostrar que a vida não é nenhum danoninho não, mas pode ser boa. Ela se sentia ainda mais satisfeita quando tinha um gordo em pé. Rico ou pobre, branco ou preto, católico ou evangélico, hétero ou gay. O gordo é sempre o peidorreiro.

Geize passou a ter mais um objetivo na vida. Os dois que a mãe havia ensinado: não depender de ninguém, fazer o que quisesse com o que fosse dela. E, claro, sair peidando em cada ônibus que ela entrasse. Dinheiro nenhum compra essa felicidade.

Veja os outros Contos do Ôns aqui.

.

Pedro Turambar

Já fui de um tudo nesta vida, mas há uma coisa que nunca deixei de ser: escritor. Escrevo para viver e manter minha sanidade em um mundo tão louco. Sou uma mistura de palavras, lágrimas e reclamações.

You may also like

4 Comentários

  • Helena Arruda
    27/08/2014 at 13:14

    “Ela era dona do próprio nariz, não devia nada a ninguém, e peidava ao sair do ônibus” Isso que é felicidade kkkk

    Muito bom o texto, parabéns!

    Adorei!

    Beijinhos e até!

    • Pedro Américo
      27/08/2014 at 18:34

      Geize, não era nome, era destino!

      Obrigado pela visita, volte sempre. 😀

  • Gabi Barbará
    27/08/2014 at 10:46

    ahhhhhh!!!! Adorei! Vou passar usar flatulencia como vingança maligna! MWahahaha! É bom que toda aquela raiva contida da modelinho invejosinha, do designer com complexo de diva, do hairstylist destruidor de cabelos.. sai tudo… sai tudo no pum. E dentro ó, só good vibes!!

    • Pedro Américo
      27/08/2014 at 18:33

      Aghahahahaha estou entre a felicidade de alguém ter gostado desse texto ou dele ser o primeiro que você leu aqui.

      Mas que a tufa mortal pode ser uma das maiores vinganças que o corpo humano pode produzir.

LEAVE A COMMENT

Quem?

Pedro Turambar

Pedro Turambar

Gosto de escrever, reclamar e não tenho controle sobre chorar. Escrevo há 10 anos sobre a loucura de viver em sociedade, futebol e falo bem e mal das coisas que leio, vejo e ouço.

Newsletter - ¡Desmotive-se!

Fanpage

Mais

Arquivos