Contos do Ôns #8 – Eu podia estar vendendo balas…


Everaldo era um homem à moda antiga, mas não no sentido retrógrado da coisa, no sentido respeitador, educado, quase polido. Aprendera tudo com o avô. “Respeite as pessoas, não importa se você está numa posição acima ou abaixo delas, todo mundo merece ser tratado com respeito. Principalmente as mulheres.” Seu Enrico, um dos maiores Don Juans da baixada fluminense. Mesmo hoje com 92 anos, mantem-se ativo, viril.

Seu Enrico nunca conquistou gerações de mulheres por onde passou pela beleza física, muito menos pela conta bancária. “Que homem educado,” diziam algumas, outras proferiam “Seu Enrico sabe tratar uma mulher de verdade.” Ele dizia que o segredo, na verdade, era cheirar bem e saber os movimentos. As pessoas diziam que eram os movimentos da dança de salão, lugar onde Seu Enrico reinava. A boca pequena, no entanto, dizia que eram os movimentos do quadril, entre quadro paredes.

Everaldo não era tão bom quanto o avô. Ninguém era. Mas ele se esforçava. Acordava cedo, se arrumava com a melhor roupa que seu pouco dinheiro podia pagar. Pegava sua caixa e ia para a labuta. Ele era mais um, entre milhares que entram nos ônibus todos os dias, que não pegam a condução para se locomover, mas para o seu ganha pão.

Everaldo, pode-se dizer, fazia do ônibus seu escritório. E toda vez que um trocador, gente fina, o deixava entrar, o discurso — ensaiado a esmo com Seu Eurico por anos a fio — vinha naturalmente…

— Bom dia! — começava ele — Meu nome é Everaldo e eu estou aqui hoje, novamente, com toda simplicidade e humildade, tentando ganhar a vida. Peço aos senhores e senhoras desculpas pelo incômodo, sou apenas mais um trabalhador honesto e sofrido nesse nosso Brasil… Eu podia estar vendendo balas, chicletes, chocolates ou fumando craque, mas eu aprendi a assaltar desde novinho, então peço encarecidamente aos senhores, senhorinhas, jovens e crianças que não se exaltem, não façam movimentos bruscos e nem gritem. Eu faço isso com toda fé em Deus, ciente das mazelas do mundo. Vou passar com a sacolinha, e já peço as todos que já separem jóias, bijuterias, celulares e carteiras por favor, para acelerar o processo. Não quero atrapalhar ninguém.

ôns

Everaldo puxou sua sacolinha preta de camurça e disse para uma moça em pé no lugar dos cadeirantes:

— Bom dia menina, tudo bem? Por favor…

A garota, em choque, sem conseguir proferir uma palavra se quer, colocou os pertences na bolsa.

— ‘Tô brigado viu? Um bom dia pra senhorita.

— … de… nada. — disse a menina, com um sorriso sem graça.

Todos, sentadinhos em silêncio, esperavam Everaldo passar recolhendo. Se alguém descia do ônibus antes da vez, iam até ele e despejavam na sacola. Davam tchau e agradeciam. “Que homem educado,” pensavam. Ao chegar numa mãe com o filho, o menino extasiado com a situação, perguntou, apontando para a arma no cinto de Everaldo:

— Funciona?

— Funciona filho, era do meu pai e do pai dele disso. Todo dia desmonto, dou uma azeitada nela, e monto de novo. Brilha feito nova. Quer segurar?

— Minha mãe não deixa…

— Então não vamos contradizer sua mãe — e olhando para ela — seu filho é muito educado e inteligente, meus parabéns senhora.

Everaldo então continuou até o final do ônibus e antes de descer, tranquilizou a todos, dizendo que documentos, cartões, e outros pertences sem valor estariam disponíveis na sua banca de retirada na Entrada do Elevado, ali, entre o bar do Betão Armado, e a cabine da polícia.

Agradeceu a compreensão de todos, desejou-lhes um bom dia e desceu no centro.

Veja os outros Contos do Ôns aqui.

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Pedro Turambar

Pedro Turambar

Gosto de escrever, reclamar e não tenho controle sobre chorar. Escrevo há 10 anos sobre a loucura de viver em sociedade, futebol e falo bem e mal das coisas que leio, vejo e ouço.

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