A Copa das Copas


A Copa das Copas na verdade mesmo foi a de 70. Foi porque lá desfilou, jogou e ganhou a Seleção das Seleções, aconteceu a Defesa das Defesas e claro, os Gols Perdidos dos Gols Perdidos do Jogador dos Jogadores. Além do mais, a final foi disputada no estádio mais incrível do mundo na minha opinão, o Azteca. A Copa de 70 está para as Copas o que Pelé está para todos os jogadores de futebol que vieram antes e depois dele. Um patamar fora da escala normal de realidade. Ela, por tanto, não entra na conta.

Dito isso, ao fim da terceira rodada — hoje, infelizmente #NaoVaiTerCopa –, já está cravado na história que a Copa de 2014, no Brasil é, contra absolutamente toda nossa expectativa, a Copa mais sensacional de todos os tempos. Se o mundo inteiro já acha isso, nós brasileiros, que temos uma relação tão particular com Copas do Mundo, e muito, muito especialmente essa, temos certeza.

copa das copas

Você sabe muito bem que, quando a expectativa é ruim (muito ruim), e essa expectativa e virada do avesso e elevada à potência, causa uma impressão muito mais positiva que se esperássemos, de fato, algo bom. É a versão bizarra do Monstro da Expectativa. Monstro que ataca quando você cria muita expectativa positiva sobre algo, e tudo sai horripilantemente ao avesso. Como Batman Dark Knight Rises, por exemplo.

Para nós, brasileiros, sermos o país do futebol, sermos reconhecidamente os melhores na história do esporte, termos tantas lendas e mitos que envolvem o futebol, crônicas, livros, etc, é uma realidade comum, trivial. Nós sabemos disso desde o nascimento, é algo cotidiano pra gente. A nossa preocupação, correta diga-se, sempre foi com as contas da Copa, os elefantes brancos, o tal legado que será praticamente nulo, os absurdos das desapropriações e mortes de operários. Além dos desvios de verbas, do atraso das obras e do não cumprimento de tantas promessas.

Nós, povo brasileiro como um todo, mostramos a nossa insatisfação. Como o humorista inglês John Oliver disse naquele vídeo, compartilhado por Deus e o mundo. Como é complicado por dentro amar e odiar a Copa do Mundo ao mesmo tempo. O pior de tudo é que em campo, o futebol está fantástico.

A Copa do Mundo está linda, arquibancadas cheias, veio gente de tudo que é canto — eu tenho certeza de que, tinham mais colombianos em Belo Horizonte que na própria Colômbia —, os jogos estão sensacionais, tirando uns Nigéria x Irã da vida, só tem jogaço, com gols, com emoção, com histórias, com heróis e vilões, erros de arbitragens, pênaltis inexistentes, e tudo aquilo que faz o futebol ser maravilhoso.

Sabe desde quando não tínhamos uma Copa assim, destruidora de recordes, números e falácias? Isso mesmo, desde nunca. Me perguntando aqui, vendo as reações incrédulas e surpresas de puro êxtase dos jogadores que fazem gols nessa Copa — principalmente de jogadores não muito acostumados a tanto —, vendo também as entrevistas, e os sacrifícios que alguns fizeram para jogar esse mundial, cheguei à conclusão que esse é sim um torneio diferente.

copa das copas

É o maior torneio, do maior esporte, sediado pelo maior representante desse esporte.

A questão, que nós não havíamos levado em conta, é o quão mágico isso é para qualquer outra pessoa no mundo que se importa com futebol. Os torcedores de fora do país, as seleções, os jogadores, a Copa do Mundo tem ainda mais valor, exatamente por ser no Brasil. Esse é o ingrediente que nunca existiu em uma Copa, em 50 não éramos o país do futebol. É isso que faz dessa, a Copa das Copas*. (E sim, o uso constante desse nome é completamente irônico, caso não tenha percebido. Essa Copa não é do governo, não é da Dilma, não é nem da FIFA. É de quem joga e de quem empurra).

Os Deuses do futebol, que um dia, certamente, o arrancará das garras podres da FIFA, são justos. Que na terra do futebol, se jogue futebol com tudo que ele tem de melhor (e de pior).\

Que lindo os hinos cantados à capella. Que lindo as seleções das américas conquistando resultados incríveis. Que lindo o garotinho costa riquenho chorando ao ver a improvável vitória contra o Uruguai. Que lindo o zagueiro do EUA, de 21 anos, chorando sem acreditar, porque fez um gol na Copa. Que lindo a festa da torcida colombiana no Mineirão. Que lindo o goleiro Ochoa, sem clube, fechando o gol contra o Brasil e entrando para a história. Que lindo os estádios cheios. Que lindo a união que o futebol traz. Que lindo Luisito Suárez, um mês após estar em uma cadeira de rodas, fazer os dois gols que dariam chances novamente ao Uruguai — para depois estragar tudo, é verdade, toda Copa tem um vilão. Que lindo a Costa Rica. Que lindo o mundo parando para ver a Copa do Brasil. Que lindo o gol de Van Persie. Que lindo o gol de Tim Cahill. Que linda a classificação da Argélia pela primeira vez. Que lindo os jogadores conversando com as crianças antes de entrar em campo. Que lindo os memes e as brincadeiras no twitter. Que lindo a homenagem da Colômbia ao mito Mondragón. Que lindo o garotinho chorando com Eto’o. Que lindo o futebol bem jogado. Que lindo a média de gols e de público. Que lindo o povo nas ruas, no mundo todo, juntos comemorando e festejando. Que lindo o futebol.

Copa das copas

É lindo mesmo. Só não é transcendental, porque o preço dessa Copa, infelizmente é alto demais como já disse… (desapropriações, mortes de operários, mega-ultra-super-duper-faturamentos das obras, etc). Para ser quase perfeita, só falta acontecer o que eu disse nesse texto aqui. Aí sim, essa poderá se equiparar à Copa de 70.

Lindo será mesmo, quando acontecer o que aconteceu na grande Copa das Copas. A de 70, quando o governo militar tentou limpar a sua imagem com toda aquela magia, e não deu certo. Não deu certo daquela vez, não dará de novo.

Não somos tão bobos assim. Quando a festa acabar, vamos cobrar a conta. Ah, vamos.

Pedro Turambar

Já fui de um tudo nesta vida, mas há uma coisa que nunca deixei de ser: escritor. Escrevo para viver e manter minha sanidade em um mundo tão louco. Sou uma mistura de palavras, lágrimas e reclamações.

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Gosto de escrever, reclamar e não tenho controle sobre chorar. Escrevo há 10 anos sobre a loucura de viver em sociedade, futebol e falo bem e mal das coisas que leio, vejo e ouço.

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