O Psicanalista


Se eu pudesse te comia toda, sem dó nem piedade. Aprendi a ser assim com o Balzac. Ele sempre dizia que a frase inicial de uma conversa com uma mulher devia ser sempre a mais impactante. Tem que ser direto, linguagem de bandido, é a bolsa ou a vida. Ela olhou como que pra ter certeza que eu falava com ela mesmo. É isso mesmo, te comia toda, tirava foto, te chupava até os ossos do cotovelo e te vestia com seu salto alto, pra depois te comer de novo. Agora definitivamente ela sabia que eu falava com ela. Tirou um papel da bolsa, escreveu um telefone me entregou e foi embora. Guardei o papel.

Andei um pouco e me sentei num bar-padaria-loja-de-conveniência e esperei até a garçonete resolver me atender. Atendeu. Enfiei um papel-bilhete que tinha preparado dobrado no bolso dela. Ela tirou e abriu uma aba. Abriu outra. Mais outra. Mais uma aba. Abriu o guardanapo até ele ficar todo aberto. Tinha um palito de dente no meio e a frase “precisa de um pau? Escolha o meu porque é mais grosso que esse na sua mão. O lenço a gente usa mais tarde”. Ela riu pra mim e saiu. Resolvi tirar do bolso o papel que a mulher que eu comeria toda tinha me dado e realmente tinha um telefone, mas o nome escrito era um nome de homem. José da Silva, Psicanalista. Não sou louco. Liguei. Alô Dr. José, aliás, tira o doutor porque psicólogo não é doutor porra nenhuma. Você acha que eu sou louco José? Eu vou gozar José. Eu vou gozar Maria. Eu vou gozar a vida do jeito que eu quiser, e se eu fizer cagada eu sei limpar, tu não vem cagando regra que na regra que tu caga eu vou pisar. Aí eu parei de citar Gabriel. O Pensador, não o Marquez. Parei de rimar. Afinal, rima é coisa de veado, e mulher quando ouve rima quer casar, e eu quero é foder.

psicanalista

Saí e caminhei pela cidade até dar numa praça. Encontrei uma mulher sentada num banco e decidi que ia sentar também. Esperei um poco. Fui chegando perto do ouvido dela. Comecei a cantar bem baixinho aquela música do Fábio Júnior: “Senta aqui. Não tenha tanta pressa. Senta aqui! Porque toda essa angústia? Não fique aí tão quieta. Quebra o teu silêncio. Se abre comigo…”. Ela se abriu comigo quer dizer ela abriu a bolsa e puxou uma faca e falou passa o dinheiro senão eu te furo. Enfiei as mãos nos bolsos e só tinha o telefone do psicanalista que imediatamente entreguei a ela. Ela leu aquilo e não sei o que se passou na cabeça da desgraçada mas ela largou a faca e começou a chorar.

Fui embora porque mulher chorando não precisa de foda. Precisa de psicanalista.

E eu precisava foder, precisava foder, foder, foder. Resolvi passar no bar do Balzac e conversar entrecopos e entrelinhas. Aquela ali tem cara de puta, não tem? Aquela? Aquela é uma santa. É até ministra na igreja. Mas o Balzac sempre foi irônico e, afinal, seu bar era um bordel. Sem falar que eu desconfio das santas, e pra mim ela parecia mais ministra do boquete, ministra do anal ou ministra do caralho a quatro. Caminhei até ela pra ver se ela não tinha pra me apresentar alguma assessora de imprensa de seu ministério, daquelas que te imprensam na parede mesmo. Oi princesa. Ela disse que era 300 paus e eu perguntei se ela parcelava. “No amor não existe parcela nem prazo meu bem, tem que ser a vista”. Como eu andava meio quebrado, perguntei se o Balzac não me ajeitava uma permuta, afinal, era renomado taxidermista, e podia empalhar qualquer bicho seco pra enfeitar o bar do homem. É engraçado como vocês sempre aparecem na minha vida Sr. José. Vocês psicanalistas sempre aparecem na minha vida por coicidência. O Balzac pediu que eu empalhasse um psicanalista e cá estou eu, no seu consultório, contando esta história. Não sei se ele fez o pedido de forma irônica, mas o Balzac nunca quebra uma promessa de permuta.

Hoje vou foder alguém.

***

1 – Crônica curta hoje. Espero que tenham gostado do final.

2 – Já viram o comercial que a gente aqui na Elefantte criou pra um evento contra o câncer? Ficou cuti-cuti. Clique aqui pra ver.

3 – Tô pensando em publicar um e-book com uma espécie de coletânea de crônicas minhas. O que vocês acham?

You may also like

11 Comentários

  • donalu
    01/10/2010 at 18:35

    Querido Neto,
    para prender o leitor é preciso ritmo. E você tem!
    Sou super-exigente para continuar uma leitura e seu ritmo me prendeu. Quis continuar a ler.
    Mas tem um porém: depois dos 300 paus acho que você viajou na maionese. Deu uma de Saramago e mandou o final para a merda.
    Essa coisa de inventar uma profissão estúpida para a personagem que ia indo tão bem funcionou como anti-clímax. Parece que você quis terminar logo com o texto e inventou qualquer bobagem.
    Esta é a primeira vez que escrevo para alguém em um blog.
    Pelo meu estilo você já vê que sou vovó pra caramba. E metida a ensinar produção de texto.
    Beijoca, querido, você é uma graça e me fez rir gostoso. É o que resta para as vovós.

  • Daniel
    17/06/2010 at 20:34

    E aí, Neto, quando sai o ebook?

    • Neto Macedo
      17/06/2010 at 21:43

      @Daniel, cara, não sei. Mas assim que sair aviso aqui, tranquilo? =)

  • murilo
    04/06/2010 at 17:18

    A idéia do e-book é legal, mas gostaria muito de ter os seus textos em formato físico.

    • Neto Macedo
      04/06/2010 at 17:32

      @murilo, mas para ler meus textos em formato físico, é necessário antes que alguma editora me publique. E isso é fácil, só fazermos uma campanha enviando emails em massa para alguma editora exigindo minha contratação.

      A única dificuldade é só arrumar a “massa” que vai enviar estes emails. Hehehe. =)

      Mesmo assim, agradeço por ter gostado, e mesmo tendo poucos leitores, gosto muito de escrever. A interação autor-texto-leitor é muito bacana, e é bom poder conversar de um-para-um assim como estamos fazendo agora. =)

  • Rafael P.
    03/06/2010 at 11:54

    POrra!! Muito bom o texto. A princípio pensei que você tivesse algum tipo de problema mental e não conhecesse o conceito de parágrafos, mas vendo o resto do blog vi que era algo para esse texto mesmo. Ficou muito bom! E os outros textos tbm!

    Publica o e-book sim!! Enfim, virei fã.

    Abraços!!

  • Cassio Godinho
    01/06/2010 at 15:54

    Caralho Neto.
    Muito boa! uahuahuah

  • Pedro Turambar
    01/06/2010 at 15:43

    putamerda…

    putamerda.. ahuahuauhhuauha

    muito bom!

LEAVE A COMMENT

Quem?

Pedro Turambar

Pedro Turambar

Gosto de escrever, reclamar e não tenho controle sobre chorar. Escrevo há 10 anos sobre a loucura de viver em sociedade, futebol e falo bem e mal das coisas que leio, vejo e ouço.

Newsletter - ¡Desmotive-se!

Fanpage

Mais

Arquivos