Cumprimentar ou não?


Eu morei a minha vida inteira, quer dizer, até os 19, em uma casa. Lá em Monlevade. Em 2007 me mudei para Belo Horizonte, direto de uma casa com alpendre, para um apartamento. Foi meio doido no início, muito doido no final, mas sem traumas. Provavelmente eu deixei traumas nos vizinhos, mas essa é outra história.

Scumbag Pedro

Em outubro de 2009 me mudei junto com meu irmão para o apartamento que vivo até hoje, um prédio bacana, num bairro bom e tudo mais. Porém a mudança para cá trouxe um grande problema existencial na minha vida. A dinâmica do Porteiro. Eu devo cumprimentar o porteiro nas vezes que eu passo por ele? Se eu sair e voltar 30 vezes, eu tenho que cumprimentar as 30? Ou só a primeira e a última?

O grande problema é que eu cumprimentava logo de início. Para mostrar que eu sou um cara educado, que apesar de morar nesse bairro eu não sou um playboyzinho, muito menos um playboyzinho esnobe. Mas aí eu fiquei pensando o que eles achavam. Será que eles pensavam que eu só cumprimentava para mostrar que eu sou um cara legal, mas que na verdade não era? Tipo uma contra-retórica? Vez ou outra eles olhavam pra mim com uma cara de “Lá vem o gordinho do 503 cumprimentado quando, entra, quando sai, que mala”. Ou depois de um tempo “Nossa senhora, não aguento mais cumprimentar esse cara..”

Isso há quase 3 anos.

E toda vez que saio de casa penso as mesmíssimas coisas. Eu até experimentei parar. Só aguentei uns dois dias, não consegui superar a agonia de pensar que eles comentavam entre eles “O garoto gente boa do 503 nem cumprimenta mais, cê viu? Virou um babaca… ficou tempo demais com essa gente aqui.” Foi foda. Depois de algum tempo acabei ficando mais chegado de uns, mas agora entraram dois porteiros novos. E a minha loucura foi renovada mais uma vez.

O pior é que não é só o cumprimentar. E quando eu ficava na agência até de madrugada… chegava em casa já pensando “Tô aqui, chegando em casa 4:30 da matina, em plena terça-feira e o porteiro vai achar que eu tava na balada”. Porque quando você trabalha esse tanto, você chega meio doido. Não tem jeito.

O único que salva é o Tião. Gente fina. Responde “Falou Tião” com “Tá falado”, e “Valeu Tião” com “Tá valendo”. Esse sabe das coisas. Esse aí me entende. Coincidência ou não, é o único que me entrega as correspondências logo quando elas chegam. Os outros não tão nem aí.

Com certeza me acham um babaca.

Pedro Turambar

Já fui de um tudo nesta vida, mas há uma coisa que nunca deixei de ser: escritor. Escrevo para viver e manter minha sanidade em um mundo tão louco. Sou uma mistura de palavras, lágrimas e reclamações.

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11 Comentários

  • Yuri
    09/10/2012 at 22:11

    Rapaz eu era exatamente como você mas observando aqueles tios fodas agente tenta se igualar em certas ações. Eu sempre morei em casa mas ia a apartamentos frequentemente (primos) e vou me mudar esse ano para um prédio num bairro de play, então vou adotar o seguinte procedimento: o asceno de cabeça com uma cara séria. Sério, isso eleva sua moral com qualquer pessoa, te deixa com o ar de ocupado e responsável.

  • Rafael
    01/10/2012 at 14:42

    Mesmo caso de mudança de casa para apartamento, mas eu sigo a tática dos pinguins do Madagascar: “Sorriam e acenem”, acho que é a melhor prática

  • Ingrid
    17/09/2012 at 17:55

    Sabe eu trato com um leve sorriso e um aceno com a cabeça. Pronto, se quiser retribui, se não, fiz minha parte. Fui grossa?!

  • Evelin
    17/09/2012 at 15:01

    Meus porteiros só falam quando querem! Eu saio do elevador, olho pra eles, eles olham pra mim e voltam a olhar pra baixo ou pra TV!!! Simplesmente não cumprimentam!!! Eu sempre cumprimentava, mas cansei de ficar sem resposta. Às vezes eu falo, às vezes não. Se estiverem compenetrados em outra tarefa, fico na minha pra evitar a fadiga…

    • Pedro Turambar
      Pedro Américo
      17/09/2012 at 15:09

      @Evelin, MEUDEUS Até você comentou? ahahahahah

      Sabe o que é pior? Quando eu volto de madrugada e tenho que acordar eles pra abrir a porta. Aí que eu me sinto um merda de verdade. E tenho certeza que eles me odeiam por isso.

      • Evelin
        17/09/2012 at 16:08

        Eu sentia pena, mas dos porteiros do outro prédio… Os do prédio atual são tão indiferentes que nem parecem se importar! Coisas de Copacabana…

  • Fernanda Ferreira
    17/09/2012 at 14:58

    Eu tenho essa eterna dúvida, mas no prédio da agência, já que moro em casa. Fico sempre: “Devo cumprimentar toda vez que passar pela portaria?” Aqui são dois e só um deles responde o meu bom dia. Nem sei o nome dele, mas responde o meu bom dia com tanto entusiasmo que dá até alegria. Já outro, o Zé, fica sempre de cara fechada e sempre me deixa no vácuo. Pra ele, só dou bom dia quando estou de muito bom humor.

    • Pedro Turambar
      Pedro Américo
      17/09/2012 at 15:00

      @Fernanda Ferreira, Então… é loucura pura.

      Todos eles me cumprimentam de volta, levantando a mão, dando um jóia com a cabeça, mas eu fico sempre na impressão de que eles fazem isso para não contrariar.

      Vai que eu reclamo com o síndico.. sei lá.. é muito doido isso.

  • Fouquet
    17/09/2012 at 14:56

    CARA, quando eu mudei pra SP eu passei por dois problemas. Como morava em casa, não cruzava com vizinho no elevador, não cruzava com o ninguem na vdd….Agora eu vejo vizinho no elevador, na área comum, na entrada, no estacionamento, na piscina…não sei o q fazer. Nunca vi a pessoa, não sei pq deveria falar “oi”, mas também corro o risco de encontrá-la de novo e ficar aquele climão

    O porteiro, nem se fala…apesar q eu falava MUITO com eles quando mudei pro prédio novo – o prédio é novo, fui a primeira moradora e precisava demais da ajuda deles…mas nunca sei se devo falar oi sempre, mas eu falo. Entro e saio 20 vezes e são 20 oi pra cada saída e mais 20 para cada entrada….

    Tenso isso

    • Pedro Turambar
      Pedro Américo
      17/09/2012 at 14:58

      @Fouquet, Não é?

      Ninguém fala sobre isso. Ninguém ensinou a gente viver essas situações. Vizinho eu conheci o da porta, depois de um ano e meio morando aqui. Agora com os porteiros não dá… tenho loucura.. se não falo um “opa!” acho que to sendo babaca… se falo muitos também acho meio idiota…

      Aiaiai… não sei o que fazer.

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Pedro Turambar

Gosto de escrever, reclamar e não tenho controle sobre chorar. Escrevo há 10 anos sobre a loucura de viver em sociedade, futebol e falo bem e mal das coisas que leio, vejo e ouço.

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