Dend’água


Algumas expressões da minha infância foram muito importantes na formação do meu caráter. Várias delas, eram exemplos do que você não queria ser. Ninguém queria ser um ‘prego’ no bairro. “Deixa de ser prego sô!”, era uma frase usada em última instância, quando se queria algum favor, e o indivíduo estava resistente. Dizer que alguém poderia ser um ‘prego’ era o maior recurso de convencimento daquela época.

Mais tarde, na adolescência, aprendemos a não sair abrindo a boca por aí. Era importante não ser taxado como um ‘cagueta’. Se você caguetasse alguém, já era. Sua vida estaria marcada para sempre.

Dend'água

Porém, nenhum rótulo/expressão me aterrorizava tanto quanto ‘dend’água’. Eu tinha pavor de ser um Zé Dend’água. O medo vinha de duas formas, primeiro pelo desconhecido, “porque estar dentro da água fazia de você uma pessoa inferior?”, eu comecei a ficar com medo de piscinas. E se alguém da rua me visse lá? Nadando, me divertindo e… imagine só se me vissem mergulhando? 

“Robertinho é quem mesmo?”, “É aquele dend’água que mora do lado de Totó.”

Será que eu era um? E se fosse, como deixava de ser? Comecei a me policiar mais. Dar respostas rápidas e usar sacadinhas pré-ensaiadas. Jamais poderia ser um dend’água, tinha que zelar o nome da família, já que, nenhum dos meus irmãos haviam sido. E eu sabia, que mais de que um prego, mais que um cagueta, NADA consegue apagar a marca de um dend’água. Outro dia casou um que morou na rua de baixo. “Ou, você viu que aquele dend’água do Fabrício vai casar?”

Aqui não violão. Tirando os breves momentos da minha vida, em que eu efetivamente estava dentro da água, nunca fui um dend’água. Ou fui, e aqueles pregos nunca caguetaram. 

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Pedro Turambar

Já fui de um tudo nesta vida, mas há uma coisa que nunca deixei de ser: escritor. Escrevo para viver e manter minha sanidade em um mundo tão louco. Sou uma mistura de palavras, lágrimas e reclamações.

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2 Comentários

  • João Martins
    18/08/2014 at 18:36

    Ótima crônica, amigo. Leve, desprentesiosa, pra ler numa página de jornal no domingo. Parabéns.

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Pedro Turambar

Pedro Turambar

Gosto de escrever, reclamar e não tenho controle sobre chorar. Escrevo há 10 anos sobre a loucura de viver em sociedade, futebol e falo bem e mal das coisas que leio, vejo e ouço.

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