God of War, heróis caídos e redenções


poster do jogo gof of war lançado em 2018

God of War de 2018 traz o tipo de história que eu mais gosto: a do herói caído em busca de redenção. A diferença aqui, é que Kratos sabe que ele é e sempre será um monstro, mas que pode mudar o futuro do filho ensinando a ele como não ser… bem, como não ser Kratos.


O Deus Adolescente

No fim do ensino médio, todos os dias eu ia para casa de algum amigo cumprir a rotina básica de videogames e cigarros. Algo porém não estava de acordo com nossa rotina num desses dias. Ao invés de 22 ‘hominhos’ num campo verde, vi na tela um homem branco e careca balançando correntes pegando fogo, matando hordas de inimigos da forma mais violenta possível. Foi amor à primeira vista.

Quase todo mundo que se ligava em games na época lembra do choque inicial ao se deparar com a introdução de God of War. Não era só o MASSAVÉIO, era a qualidade de game design daquela introdução.

A introdução do primeiro God of War é um marco na história dessa indústria. É brilhante. Em meia hora, eles te mostram toda a capacidade do jogo, quem é aquele personagem (seu caráter, sua personalidade, etc) e te dão o gosto do que será aquele jogo até o final. Os puzzles, os diálogos, o posicionamento da câmera, as piadas e a luta épica contra um monstro gigante era tudo que uma alma adolescente poderia querer. Além da nudez.

Kratos era o retrato e o herói ideal para um adolescente. Estressado, com raiva de tudo e de todos, querendo resolver tudo na hora, vendo um mundo apenas com dois espectros: comigo ou contra mim. Sem contar a suas maiores características: a arrogância e a capacidade nula de assumir suas responsabilidades.

Kratos culpa Ares — o Deus da Guerra — pela morte da própria família. Ele só ignora o fato de que ele mesmo assassinou a família. Segundo o Fantasma de Esparta, o fez por estar cego pelas ordens e sanha de batalha de Ares.

O primeiro God of War tem uma história boa, apesar dessas incongruências. Já o segundo as coisas começam a escalar de forma meio tosca, e os clichês começam a chover. Kratos se descobre filho de Zeus, mata Atena, convoca os Titãs para uma nova guerra contra o Olimpo.

Sempre com o Fantasma de Esparta sendo o protagonista adolescente. Gritos, incapaz de ouvir qualquer conselho, passando longe de qualquer razão. Os jogos foram ficando cada vez mais MASSAVÉIO e cada vez piores. Como jogo, acho o 2 melhor. Já o 3, os de PSP e o Ascension eu nunca consegui terminar.

Me perguntava, por que eu não conseguia mais jogar os jogos de uma série que eu amo (ou amava) tanto? Bem, eu re-joguei os dois primeiros, que são de fato ótimos jogos. Mas a história se embanana tanto depois disso que eu perdi a vontade. Foi agora, que fui fazer um recap para o novo jogo que descobri porque.

Eu amadureci. Não sou mais um adolescente. Tenho responsabilidades reais. Sou casado, mantenho minha casa, trabalho, pago contas, pessoas contam comigo. Um careca gritando vingança, sendo que a culpa de tudo de ruim que aconteceu com ele é, em suma, dele mesmo, não me chamava mais atenção. Pelo contrário.

Meu amor pela franquia se explicava apenas pela nostalgia. Que nada mais é que um sentimento de amor cego por coisas que nos fizeram felizes no passado que às vezes é melhor nem revisitar.

Revivendo Kratos

Pois bem, um dia vazaram concept arts de um novo God of War… ambientado na mitologia nórdica! Teve a minha atenção imediatamente. As artes eram lindas e parecia algo com potencial imenso. Várias notícias pipocaram e ninguém negou de verdade que estavam fazendo um novo God of War. Achei uma ótima ideia, reviver a franquia com um novo protagonista, uma nova história, talvez mais madura. Ótimo!

Havia boatos de que a Sony mostraria o jogo na E3 de 2016. No vídeo da conferência, vemos um menino brincando e depois uma voz poderosa o chamando. Meu queixo foi no chão ao ver Kratos saindo das sombras. Assim como a introdução do primeiro jogo deve ser estudada para propósitos de game design, esse trailer deve ser estudado para propósitos de: como re-introduzir um personagem e mostrar que ele é completamente diferente do que já foi.

Quando Kratos começa a gritar, para, respira e fala com a voz mais calma, se controlando e falando para Atreus pensar antes de agir, meu coração quase parou.

“Será? Será mesmo?”

Bem. Eu comprei um Playstation 4 por causa desse vídeo. E esperei. Pacientemente.

God of War (2018) não é só um jogo delicioso de jogar, com um sistema de batalha ainda melhor que o que a franquia já havia apresentado. Não é só um jogo graficamente lindo, que mostra um mundo nórdico cheio de cuidado e fidelidade. Não é só uma continuação e evolução de uma das maiores franquias dos games.

God of War é uma história muito, mas muito bem construída e escrita. Que é potencializada justamente por quem Kratos foi e no que ele se tornou (ou está tentando se tornar). Kratos deixou de ser um adolescente ultra poderoso, para ser um herói caído. Ciente de seus erros, ciente do monstro que é, das atrocidades que cometeu e de como ele precisa ensinar e cuidar do seu filho para que ele não se torne a mesma coisa. Seu maior medo neste jogo é que Atreus seja o que ele foi.

Tudo que você quer ver, quando adulto, é que não importa o tamanho dos seus erros, você pode se redimir. Você pode corrigir isso, aprender e crescer com suas falhas. Assumir a culpa e a responsabilidade do que fizemos é um passo gigantesco para entender a vida. Ver isso através dos extremos de Kratos é, ao mesmo tempo, reconfortante e encorajador.

É o motivo pelo qual eu amei tanto o polêmico Last Jedi. Quando Yoda diz que Luke deve ensinar a Rey as falhas, os erros e as merdas que eles fizeram e que isso é tão importante quanto mostrar o caminho certo, o filme me conquistou.

Em God of War é a mesma coisa.

Além da história de redenção e aprendizado de Kratos, vemos em Atreus um outro arco narrativo brilhante. De criança frágil e amedrontada, para criança chata, para o filho de um deus caído, para um menino deus arrogante, para alguém poderoso, bondoso e com uma cabeça centrada. Muito mais que o pai durante a maior parte da vida. Atreus cresce como personagem e atinge o seu ápice na luta final e é de chorar de tão bonito.

É lindo ver até onde foi a relação de pai e filho. E como eles, durante essa jornada de aprendizado, conhecimento, cumplicidade e amor, os fez crescer juntos. Kratos não admitia contar para o menino nem sua identidade de deus, muito menos o que ele fez em seu passado. No fim, Atreus descobre tudo. Mas não se importa e isso o ajuda a entender quem é seu pai e entende por fim os ensinamentos de Kratos.

Eu não consigo descrever o quanto isso é brilhante. Ainda mais adaptado no game design. Por exemplo, Atreus sempre espera Kratos fazer o primeiro movimento. É você, o jogador que engaja na luta contra os inimigos, o garoto, seu ajudante no jogo apenas segue suas ordens. Quando Atreus está no ápice da arrogância por “ser um deus e poder fazer qualquer coisa que quiser” ele chama os inimigos, ataca sem estar pronto e quase te mata do coração.

E neste momento, após a batalha final, mais épica e dramática que qualquer coisa que a franquia já havia mostrado. Kratos se vê novamente vendo o ciclo interminável de filhos matando seus pais e ele decide fazer algo e o impressionante é que é difícil discordar da decisão que ele toma.

Essa cena. Meu deus.

Após a batalha final, o jogo te conduz para a resolução da história. Surpreendente e emocionante na minha opinião. O próprio Kratos é pego de surpresa, mas não tanto quanto você ao descobrir a verdadeira identidade de Atreus, além das possibilidades de futuro para a franquia que já são muito bem pavimentadas aqui.

Nunca vou esquecer a descida das escadas em Jotunheim. Créditos rolando e meu queixo lá no chão. God of War está de volta e mais vivo que nunca. Cory Balrog, produtor e um dos criadores da série disse que eles tem história para pelo menos mais 5 jogos.

E na boa, se forem minimamente na qualidade deste em jogabilidade e storytelling, eu estou dentro.

O jogo tem problemas? Tem. O sistema de loot, a parte do RPG, stats e skilltree é meio desnecessária e poderia ter sido mais bem feita. Tanto é que várias vezes tive que equipar tudo de novo devidas as constantes atualizações que acredito serem, principalmente, por causa do balanceamento.

Isso porém pouco importa.

Kratos é um monstro, um semideus que cometeu atrocidades, um herói caído, falho e que tenta se redimir através de Atreus porque para ele mesmo, não há volta. E olha, eu me vendo fácil por uma história assim.

Para quem não jogou, eu recomendo muito.

Para quem jogou, recomendo ouvir o DASH, podcast do Jogabilidade que fala sobre o jogo.

Pedro Turambar

Já fui de um tudo nesta vida, mas há uma coisa que nunca deixei de ser: escritor. Escrevo para viver e manter minha sanidade em um mundo tão louco. Sou uma mistura de palavras, lágrimas e reclamações.

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Gosto de escrever, reclamar e não tenho controle sobre chorar. Escrevo há 10 anos sobre a loucura de viver em sociedade, futebol e falo bem e mal das coisas que leio, vejo e ouço.

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