A luz da varanda


Sempre achei a ideia de mudar um tanto bizarra. Pessoas criam raízes e fazem coisas estranhas e nojentas em suas casas. As paredes de qualquer lugar já viram coisas do arco da velha, que deve lançar flechas élficas +20.

Morei na mesma casa de antes de nascer aos 19 anos. Fui para Belo Horizonte e, desde então, mudar tem sido não só uma constante mas, aparentemente, uma obsessão na minha vida. Em agosto passado fui para o sexto endereço em menos de 10 anos e, mais estranho que ir para paredes que já viram muita coisa de muita gente, é imaginar que outras pessoas estão entres as paredes que já viram tanto da minha vida.

Transas boas e ruins, broxadas e performances memoráveis. Vômitos e vergonhas, choros e risos. Na cama de solteiro no bairro Santo Antônio eu li pela primeira vez o livro que viria a mudar minha vida. Foi no apartamento do Belvedere que eu disse o primeiro “eu te amo” para minha esposa. Em outro lugar tive as piores brigas com meu irmão. No último chorei mais que sorri, e contei segredos que nenhuma outra parede ouviu.

Revendo os lugares que morei, os que eu fui mais feliz tinham ou alpendre — a casa da minha mãe — ou uma varanda. Estranho pensar que fui extremamente infeliz no apartamento que tinha duas varandas. Acho que meu espírito não consegue se aquietar com uma vida tão extravagante assim. Mesmo que varandas tenham perdido o sentido na minha vida depois de ter largado o cigarro, eu ainda gosto de ter uma. Apenas uma.

A nova varanda é grande, bonita na minha opinião e perfeita para meus sonhos decorativos. Sobram ideias mas falta dinheiro nesse sentido. Mas gosto de ir lá pela manhã e ver a rua. Menos do que planejar o que eu vou fazer quando tiver móveis de varanda e tirar aquelas fotos de decoração que todo mundo ama no Pinterest.

Porém, há um problema com essa varanda. Mais precisamente com a luz da varanda. Eu sou uma completa desgraça quando se trata de interruptores e suas respectivas lâmpadas. Dois interruptores já são um inferno, imagine o que eu passo, todos os dias, com seis, bem no meio da minha sala de estar. O lugar da casa com o nome mais interessante, de longe. Que beleza, um lugar só para ‘estar’. Eu só preciso ir até lá e existir. Ser um ser-humano. Já terei conquistado algo naquele dia, apenas estando.

Todos os dias, quando me levanto no meio da noite para tomar um copo d’água, eu coloco a mão naquele painel de nave espacial, e 100% das vezes acendo a luz da varanda.

Automaticamente, desde a primeira noite, um pensamento surge como um raio na minha cabeça.

“Ih rapaz, o Homem vai ver.”

Apago a luz da varanda o mais rápido possível, com a sensação horrível de que, assim que o “homem” vir a luz acendendo ele vai até a minha casa com intenções ruins. Sigo para a cozinha, meio ansioso, tomo a água e volto para o quarto já com a ideia indo para aquele lugar da mente onde ficam os nomes das pessoas que estudaram com a gente na quinta série e se sentavam lá na frente.

Quando contei para um amigo essa particularidade, ele me perguntou:

“Deixa eu ver se entendi, você acha que toda noite, tem um cara lá embaixo, fumando, olhando na direção do seu prédio, de sobre-tudo e chapéu só esperando uma luz acender, para vir no seu apartamento e te roubar?”

“É. Exatamente isso”, eu respondi.

O fato de ser muito mais difícil roubar uma casa com pessoas dentro desaparece da minha lógica toda vez que a luz acende. E ela continua acendendo, todos os dias, na minha procissão eterna de levantar e beber água.

“Ih rapaz, o Homem vai ver.”

Outro dia fiquei pensando que será que esse homem tá fazendo lá, essa hora da noite. Qual a história dele? Tem filhos? É casado? Quantas vezes se apaixonou? Se tem enxaqueca e o que ele acha do meio campo do Galo esse ano. Será que ficar fumando a noite toda não deixa ele com sede também, por volta daquela hora?

Um dia eu tomo coragem e convido ele prum copo d’água.

1. Uma das crônicas que começa meio esquisita e vai melhorando no fim. Depois de um ano e pouco, ainda continuo pensando no “Homem” quando acendo, sem querer, a luz da varanda.

2. Gostou dessa crônica? Reuni várias do tipo em um livro, há alguns anos. Você pode comprar um na Amazon.

3. Essa é uma das crônicas que está aqui blog e também está no livro. ;D

Pedro Turambar

Já fui de um tudo nesta vida, mas há uma coisa que nunca deixei de ser: escritor. Escrevo para viver e manter minha sanidade em um mundo tão louco. Sou uma mistura de palavras, lágrimas e reclamações.

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Gosto de escrever, reclamar e não tenho controle sobre chorar. Escrevo há 10 anos sobre a loucura de viver em sociedade, futebol e falo bem e mal das coisas que leio, vejo e ouço.

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