A maldição moderna do Bastantão Coisa-Muita


Um dos maiores problemas da cultura americana, que se espalhou para praticamente toda a cultura ocidental, é a percepção errônea que temos de que somos especiais. Se o sujeito é branco, homem, heterossexual e de classe média ou alta então, sai de perto porque você, em 99% dos casos, está ao lado de um Bastantão Coisa-Muita. A entidade máxima desse sentimento, o ser que acha que a vida, é um filme-biografia dele e que existe única e exclusivamente para o seu bel-prazer.

Outra característica do BC-M é que ele discorda, insistentemente, às vezes de forma agressiva, que a Terra gira em torno do Sol. Galileu, coitado, teria ainda mais problemas com um Bastantão do que teve com a igreja. Na cabeça desse tipo, a Terra, a Lua, Marte, Plutão, ou se você preferir, toda a Existência como um todo, giram ao redor do umbigo do Bastantão Coisa-Muita. As mulheres bonitas — no linguajar dessa turma “as tops” — foram criadas para satisfazê-lo. E ai delas se não cumprirem esse papel, aquelas vadias. 

bastantão coisa-muita

Os que não são “bróder” foram feitos para serví-lo, bajulá-lo ou claro, abaixar a cabeça quando ele falar. E ai “desses bostas” não fazerem como manda o script. Esse roteiro, do qual nosso BC-M é o protagonista, é como um Show de Truman da vida real. As pessoas estão vendo que quem o critica está contra ele. Tem inveja, por ele ser tão especial. Se algo não dá certo, nunca é por incompetência do Bastantão, é culpa de outro idiota, de um complô daqueles que não gostam dele. 

Bastantões Coisa-Muita tem mais inimigos que o Batman, compartilham fotos de gostosas que cairam na net em grupos de whatsapp.

Ele não entende como pode existir quem não goste dele. Ele só faz o bem. É contra cotas, bolsa-família, e o casamento gay. Mas faz doação pro Criança Esperança e tem vários amigos negros. Ele dá gorjeta e é educado com garçons, porteiros e manobristas. Quando esses não estão no caminho dele. Imagina se aquele ‘retardado’ traz o copo com gelo e esquece o limão. 

Bastantões sentem orgulho de serem heterossexuais, vão pra Vegas, fazem ‘facul’, dão um pulo em Nova York e se juntam para ver UFC.

Ele também gosta de moda. Principalmente camisas pólo com números bordados. O Bastantão Coisa-Muita adoooora um número bordado numa camisa pólo. Você raramente vai ver um deles sem óculos escuros, tem mãe que não vê os olhos do filho desde 97. BC-M’s tem apenas um gosto musical. É o estilo ‘Top’. Coldplay, por exemplo, é top. Se o Neymar gosta, é top. Se tocou no Caldeirão do Huck então, é “topppppp.”

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O Bastantão concorda com a Scheherazade, é fã de Porta dos Fundos, curte ‘Stand-up’ e retwitta o Danilo Gentilli. Seu modelo de vida — além dele mesmo — é o Luciano Huck.

Ele gosta de fumar um, de uma balinha e um doce. Mas acha que bandido tem que ‘tomar pipoco’. O BC-M tem carteirinha de estudante falsa, estaciona em local proibido e não suporta a corrupção do governo do PT. Não há mulher mais santa no mundo que a sua mãe, mulher que ele ama, mas acha que, qualquer mulher que dá pra alguém — inclusive ele mesmo — é vadia. E se tiver usando roupa chamativa, é porque ‘tá querendo’. Menos a irmã dele, que é especial, assim como ele.

Você conhece alguns. Diabos, você inclusive pode ser um. Todo mundo já teve seus momentos de Bastantão Coisa-Muita. 

Ainda bem que existe um antídoto. Afinal de contas, todo herói tem um nêmesis. A kryptonita desses caras, é o gelo. Se você ignorar completamente o Bastantão, ele perde totalmente seus poderes e passa a duvidar da sua importância. Ele entra em frenesi, estilo o Urso do Pica-Pau. Vai por mim, e faça uma boa ação para você e para o mundo, ignore os BC-M.

Dizem que ao lado da placa “Não alimente os trolls”, tem outra que diz “Cague litros para o Bastantão.”

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O uniforme do BC-M

Pedro Turambar

Já fui de um tudo nesta vida, mas há uma coisa que nunca deixei de ser: escritor. Escrevo para viver e manter minha sanidade em um mundo tão louco. Sou uma mistura de palavras, lágrimas e reclamações.

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Gosto de escrever, reclamar e não tenho controle sobre chorar. Escrevo há 10 anos sobre a loucura de viver em sociedade, futebol e falo bem e mal das coisas que leio, vejo e ouço.

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