Meu primeiro protesto


Passei o dia de sexta-feira acompanhando pelo facebook toda a repercussão dos protestos em São Paulo. Durante o dia, foram surgindo coisas absurdas, como o resultado da violência da polícia, coisas que me fizeram querer morrer, como o comentário infeliz de um senhor mais infeliz ainda que atende pelo nome de Arnaldo Jabor. Coisas geniais como o post da Ana “Não é sobre 20 centavos, estúpido” e os nomes geniais “V de Vinagre” e “Revolta da Salada”. Além disso, um dos relatos mais sinceros e emocionantes que eu já li. Você consegue sentir os preconceitos e a cabeça do rapaz se abrindo em cada linha que ele escreve. É chocante.

gigante pela própria natureza

gigante pela própria natureza

Com tudo isso acontecendo, e mais tantos e tantos outros links, relatos, posts, imagens, foi surgindo em mim um sentimento diferente de tudo que eu já senti. Um sentimento muito forte de querer estar lá. De querer ir pra rua. De gritar, de me colocar e de dar a cara para bater. Eu quero fazer parte disso, era tudo que passava pela minha cabeça. Quando vi o convite para o primeiro manifesto em BH após o início da Revolta da Salada, eu não pensei duas vezes, pensei várias. Não se eu deveria ir. Eu sei que eu iria de qualquer forma. Meu primeiro protesto. Pensei sobre o que significava isso tudo.

E enquanto subia no ônibus em direção à Savassi, continuava pensando, será que seremos mesmo filhos da primavera árabe? Para o bem e para o mal? Eles conseguiram destronar seus déspotas. Agora vivem a sombra de uma democracia (demagogia?) que se nem nós entendemos, imagina eles. Será que conseguiremos mudar alguma coisa? Será que a juventude classe média vai “salvar” o país?

Não importa. Não é saber a resposta para essas perguntas que me colocou naquele ônibus em direção à minha primeira manifestação. Você só luta para vencer? Você desistiria de lutar se soubesse que não tem chances de vencer? Eu não. Há mais coisas envolvidas em lutar por aquilo que acredita do que a vitória. Eu estava indo me juntar a tantos outros porque acho que é o certo a fazer. Não porque eu tenho certeza de que o preço da passagem irá diminuir.

Munido desse pensamento, e com o coração tranquilo, saquei o meu celular para gravar a conversa de alguns “líderes” (muitas aspas aqui) e a Cel. da PMMG.

“O país está em estado de exceção desde o dia 13, por causa da Copa das Confederações” – Cel. Cláudia da Polícia Militar de Minas Gerais.

Comecei a gravar logo depois que ela disse isso, no início inclusive um rapaz está indignado tomar essa verdade assim, crua na cara. Como um tapa. Resumindo o vídeo, a coronel diz basicamente que a liminar proíbe que manifestantes fechem qualquer parte de qualquer avenida em BH. Pena: multa de R$500.000,00. Enquanto alguns tentavam conversar com ela, eu vi que alguns iam se dispersando e eu pensando “É isso? A galera desistiu assim mesmo?”.

Não. Como a própria Coronel disse “não sei o que vocês tão aqui discutindo comigo, seu movimento nem aqui está mais.” Bom, não estava mesmo. Eu pensando que minha primeira manifestação havia se resumido a um vídeo de 5 minutos, ouvi satisfeito que a concentração estava toda na Praça da Liberdade.

meu-primeiro-protesto-4

A favor do Brasil

Encontrei dois amigos, comprei uma água e vi lá em cima da Cristóvão Colombo que a rua estava fechada. Olhei pra polícia e nada, só olhando. Seria sem emoção então, pensamento que me deixou muito feliz. Entramos no bolo e começamos a cantar e cantar. Tinha gente pra caralho, muito mais do que eu esperava para um sábado com jogo da seleção. Cantávamos e chamávamos as pessoas para descer e encorpar a manifestação. O povo nos prédios tirando foto, dando força, rindo e cantando com a gente. Foi bem legal.

Falando em tirar foto, nunca vi tanta câmera profissional em cima de árvore, de muro, de qualquer coisa para tirar “aquela foto”. Não sei se curiosos ou tudo freela. Achei bacana, mas fiquei com um sentimento meio sinistro de que a maioria deles estava torcendo loucamente por dentro por um confronto ou massacre entre polícia x manifestantes. Parei de prestar atenção nisso para algo que me deixou meio puto.

“Ei Globo, vai tomar no cu!”

Sério isso?  Você tá ali, com outras tantas mil pessoas gritando contra a Globo? Isso me broxou todas as vezes que aconteceu. Uma por que todo mundo ali, sem exceção assiste a Globo. Todo mundo. A maioria inclusive adora novela. Outros tantos assistem seu futebol por ela. Menos hipocrisia por favor. Duas a Globo está longe de ser a inimiga aqui. A hora dela pode chegar, mas essa é outra luta. Se quiser gritar repúdio que seja em direção à Dona Abril e sua Veja. Que mandem o Arnaldo Jabor se foder. (Mandaram)

meu-primeiro-protesto-2

V de Vinagre

Outra coisa que me chamou atenção para o lado negativo foi a presença de bandeiras de dois partidos. PSTU e PSOL. Rapidamente repudiadas pela maioria que estava ali. Quando ouvi os gritos de uns cinco em volta de uma bandeira vermelha do PSTU “quem é governista fica parado!” enquanto pulavam, pensei em desistir, ir embora. Os gritos de 90% por cento de “Aqui não tem PARTIDO!” me trouxe de volta rapidamente. Mais tarde, em frente a prefeitura, um rapaz reclamou “Não aguento apartidário!”. Porra, se eu tivesse ali com uma bandeira do PSB (partido do prefeito Márcio Lacerda), eu seria bem recebido?

Não concordo com as bandeiras para não deixar nem por um segundo alguém pensar que aquela manifestação era do PSTU, do PSOL, da PQP que fosse. Aquilo ali era muito maior que isso. É uma manifestação da indignação e do basta de uma nação inteira. O uprising que está acontecendo no Brasil é a favor da nação. Não é vermelho, não é tucano, não é laranja. É verde, amarelo, azul e branco.

[UPTADE] Mudei completamente a minha opinião sobre as bandeiras. O movimento é de todos. Todos.

Chegamos na Affonso Pena, principal avenida da capital mineira e tudo corria tranquilamente bem. Todo mundo feliz nas janelas dos prédios, todo mundo feliz andando lado a lado. Pessoas que acreditam nas mesmas coisas, em coisas diferentes, pretos, brancos, gays, lésbicas, homens, mulheres, adultos, jovens, velhos, caras pintadas, mascarados, caras limpas, barbudos. Junto e misturado.

E está faminto

E está faminto

Nós não estávamos fechando só uma pista da Affonso Pena. Estávamos espalhados pelas duas. Paramos o trânsito. A polícia, que tinha uma liminar dizendo que era proibido fazer aquilo que fazíamos sob pena de multa, nada fazia a não ser observar. Tenho que elogiá-los. Foram exemplares. E os motoristas, de cara feia? Putos? Nada disso. Buzinavam, gritavam, cantavam junto com a gente. Riam e tiravam foto de tudo. Assim como os passageiros dos ônibus parados esperando a multidão passar.

Os motoristas dos ônibus riam diante da pergunta “Ô motorista, ô trocador o salário também aumentou?”

A manifestação parou em frente a prefeitura e cantou o hino nacional. A mensagem de que nós estamos começando a nos levantar e que queremos as rédeas do nosso país é clara. Chega de pão e circo. A hora é agora, os olhos do mundo estão no Brasil. Que já começava a passar vergonha por causa da péssima organização. A história só se repete. Depois disso a próxima parada era logo ali, no pirulito.

meu-primeiro-protesto-3

“Amanhã vai ser maior!”

A manifestação ficava maior. Nos juntamos ao pessoal que estava protestando contra o absurdo que é o Estatuto do Nascituro. Ali na direita o pessoal portando bandeiras do movimento LGBT. Mais gente! Não podia ficar melhor.

Fomos então em direção à festa da FIFA, montada na Praça da Estação. Chegamos lá no momento em que o Brasil fazia o primeiro gol. Sob vaias de todo mundo continuamos. Fomos até a porta. Protestar contra a FIFA que toma conta do país durante esse mês. E tomará de novo mais uma vez ano que vem.

Estava cansado, muito cansado. E muito feliz, por ter feito parte daquilo ali, por ter acabado de sair do meu primeiro protesto. Por talvez estar fazendo parte de algo grande. Muito grande mesmo. Se vai mudar o país, se vai cair o preço da passagem, se passaram a respeitar a mulher, os homossexuais, eu não sei. Mas faz um bem danado lutar por aquilo que acredita.

Faz um bem danado voltar para casa feliz por estar fazendo a sua parte. Mesmo que outros não o façam. Porque não querem ou não podem. Sem julgá-los. Eu estava ali por eles também.

E estarei de novo. Sempre.

Pedro Turambar

Já fui de um tudo nesta vida, mas há uma coisa que nunca deixei de ser: escritor. Escrevo para viver e manter minha sanidade em um mundo tão louco. Sou uma mistura de palavras, lágrimas e reclamações.

You may also like

6 Comentários

  • Carol A. Davenport
    01/07/2013 at 00:52

    Deixei meu filho com a minha mãe e peguei um ônibus em direção à manifestação sozinha. Na raça e na coragem, com meus cartazes em punho. No ônibus me aproximei de algumas meninas que se dirigiam pra lá. Eu sentia uma mistura de empolgação com medo, não queria encarar a multidão sozinha. Andamos muito. A Presidente Vargas lotada. Gente de todas as caras e com todos os manifestos possíveis. Tentei entrar em contato com amigos que estavam por lá, mas não consegui. As linhas telefônicas estavam cortadas. Fotografei e tentei postar fotos, não consegui também. Comunicação zero. Se você se desse mal ali, o que te restava era rezar. Além disso, as estações do metrô próximas estavam todas fechadas.

  • Grace Melton
    27/06/2013 at 00:52

    Segundo ela, quando o homem estacionou o veículo na altura do Cemitério do Cajú, todos os passageiros desceram. Eles procuraram policiais que estavam num posto próximo do local. Flora e outros dois passageiros foram para a 17ª DP (São Cristóvão) registrar a ocorrência. No entanto eles não foram ouvidos.

  • Larissa
    16/06/2013 at 18:01

    ”O uprising que está acontecendo no Brasil é a favor da nação. Não é vermelho, não é tucano, não é laranja. É verde, amarelo, azul e branco. ”

  • Sergio Rossini
    16/06/2013 at 14:33

    Cara, bem legal seu post. Vivi a mesma coisa.

    Agora olha aqui o porquê do lance contra a Globo: http://copadomundo.uol.com.br/noticias/redacao/2013/06/16/globo-nao-inclui-vaia-a-dilma-e-blatter-em-video-e-cerceia-direito-a-informacao.htm

    O movimento é muito maior do que a gente imagina, tá todo mundo na rua. Agora só falta a policia, todo mundo lá é brasileiro igual a gente. Eles estão cansados dos exemplos ruins que os políticos dão, tenho certeza.

  • Thais Marcolino
    16/06/2013 at 01:46

    Cara que texto! Que orgulho desse momento no meu país!O sentimento forte que vc descreve de “querer estar lá”, está me consumindo! Me juntarei à luta definitivamente!

LEAVE A COMMENT

Quem?

Pedro Turambar

Pedro Turambar

Gosto de escrever, reclamar e não tenho controle sobre chorar. Escrevo há 10 anos sobre a loucura de viver em sociedade, futebol e falo bem e mal das coisas que leio, vejo e ouço.

Newsletter - ¡Desmotive-se!

Fanpage

Mais

Arquivos