A Mulher do Próximo


“‘Não desejarás a mulher do próximo’.
E a mulher do próximo pode me desejar?
E se desejo o próximo ou se ele me deseja?
E se o próximo não deseja a mulher dele?
E se a mulher do próximo não deseja a ele?
E se os três nos desejamos?
E se ninguém deseja ninguém?
E se minha mulher deseja a mulher do próximo?
E por que não o próximo?
E se o próximo deseja minha mulher?
E se eu desejo a minha mulher e a do próximo?
E se ambas me desejam?
E se todos nos desejamos?
Sempre aparecerá alguém para dizer:
‘Vamos parar por ai, pára por ai
Não desejarás, não desejarás e ponto final’ ”.

(Sérgio Kohan)

mulher do próximo

Já parou pra pensar que o mandamento “não cobiçarás a mulher do teu próximo” (nem o jumento, o boi e aquela coisarada toda) está no mesmo patamar de “não matarás”?

Pois é. Eu, que sempre fui um bom cristão, nunca cogitei que isso fosse acontecer comigo. 

No alto dos meus quarenta e sete anos, vinte e seis deles dedicados à dramaturgia, não é mais tão fácil viver algo que faça meu coração batucar como bateria de escola de samba. E eu sinto uma puta falta disso, sabe, doutor? Perdi um pouco da minha capacidade de espanto.  

Pra começar, minha vida sexual de uns anos pra cá já não tava mais essas coisas. Trepada com a esposa só entre vírgulas e reticências, geralmente aos domingos, quando a Marcela e o Armandinho iam brincar na casa da avó. Só continuei casado por causa desse medo louco de ficar sozinho na velhice que assolou o último século. Antigamente ninguém vivia tanto tempo pra dar conta de preocupar com isso. No fim das contas a gente sempre pensa que amar está na ordem do dia. 

Mas no último semestre aconteceu uma coisa engraçada. Eu tava saindo da sinuca com o Beto quando encontrei com a Bia, mulher do Marcelo, num bistrô lá perto da Alameda. Ela tropeçou em mim, derrubando chá na minha camisa. Os respingos reverberaram na blusa dela. Depois das desculpas e daquele papinho de sempre, reparei que a danada não tirava os olhos de mim. 

Você sabe, né, doutor? Quando uma pessoa te olha fixo por mais de cinco segundos e fica meio sem graça, ou ela quer te matar ou quer te comer. 

Foi no carnaval de noventa e quatro que eu comecei a desconfiar que ela me olhava com aqueles olhos pornográficos de comer fotografia. Isso, igual naquela música do Chico. É, o “pornográficos” eu acrescentei. 

Enfim, era passar perto dela pro pau ficar duro. Cheguei a investir uma vez, num dia que ela tava usando um vestido amarelo meio transparente, mas ela saiu de perto de mim como que fugida, fingindo descontentamento. Mesmo assim não deixei de botar reparo num sorrisinho de canto de boca que ela lançou. E foi assim por mais uns oito ou nove encontros.

Mas nesse dia do chá ela tava diferente. Me chamou de “querido” duas vezes e reclamou da ausência do Marcelo.

Quer saber? Tava pouco me lixando pra minha vida de merda na altura das seis cervejas que acabara de tomar. Olhei bem pra cara dela sem conseguir pensar em mais nada e quando dei por mim estávamos naquela rua escura da Augusto de Almeida, com os peitos dela colados no meu. E que peitos, viu, doutor? Não é que minha mulher tava certa? Ela sempre teve ciúmes da Bia, parece que ela adivinhava que a guria abalava minhas convicções. 

Passei a madrugada trocando mensagens com ela, numa tribulação filha da puta, mas deixei bem claro que era só uma trepada, não queria confusão pro meu lado. Fiquei com vontade de mandar um telegrama pro meu psicanalista nessa hora, escrito bem assim: “fudeu PT comi a mulher do meu amigo PT.” 

Acabou que encontrei com ela mais umas sete vezes. Mas no dia 05 de setembro, quando eu tava saindo do trabalho tarde da noite, escutei um estrondo e senti os estilhaços do vidro do carro fincando minha pele. Eu tinha acabado de acender um cigarro, que caiu na minha braguilha e doeu pra caralho. Minha alma pulou pra fora do corpo nessa hora. Dois caras que nunca vi na vida chegaram me dando um murro no meio da fuça, depois me puxaram pela janela e me deram uma puta coça. Nunca me senti tão vivo. E tão indignado.  

Não cheguei a desmaiar, mas fiquei meio anestesiado. Procurei igual um louco parar de sentir o cheiro e o gosto amargo do sangue que escorria garganta abaixo. 

Quando consegui raciocinar direito, me dei conta: foi tudo a mando do Marcelo. Uma cegueira filha da putíssima tomou conta de mim e, andando do jeito que podia, liguei o carro e segui furioso pra casa dele. Cada vez que passava num quebra-molas tinha a sensação de que ia morrer. Depois descobri que quebrei quatro, quatro costelas! 

Encontrei com a Bia no jardim, que ficou estupefata com aquela sangueira louca na minha camisa. Tava um calor da porra, mas eu suava frio. Ela tentou em vão me segurar pelo braço. Entrei esmurrando a porta e gritando o nome do Marcelo, que, diante da minha imagem bizarra, lançou mão da faca que estava em cima da mesa. Me desviando da faca, o puxei pela camisa e soquei a cabeça do filho da puta na parede. Ele sabia muito bem porque tava apanhando.

Depois dos intermináveis socos que a gente trocou, a Bia entrou no meio da refrega, pegou a faca que o Marcelo deixou cair e enfiou minhas costas. Senti duas fincadas, depois não vi mais nada. Só não morri porque um vizinho chegou e separou a briga. Fiquei quase um mês no hospital e disso tudo a única coisa que ganhei foi essa cicatriz imensa aqui, ó. Minha mulher me largou, perdi meu olho e os meus filhos não conversam mais comigo. Outro dia o Beto veio me visitar, mas a cara dele era de poucos amigos. A falta de tato foi tanta que ele ficava apoiando o silêncio entre nós nos cigarros que acendia sem tréguas entre um e outro. 

Afinal, eu comi “a mulher do próximo”.  

Se me arrependo? Ah, arrependo sim. Mas porra, doutor, não tenho culpa se a Bia quis dar pra mim! 

Foi por isso que tô aqui hoje, nessa peregrinação jurídica, esperando essa audiência que vai decidir meu destino. Mas de uma coisa eu tenho certeza: aposto que o doutor ia comer também. 

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1 comentário

  • Rubens
    10/05/2014 at 11:16

    Genial ! Nelson Rodrigues leria e diria: “queria ter escutado essa conversa também”!

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Pedro Turambar

Pedro Turambar

Gosto de escrever, reclamar e não tenho controle sobre chorar. Escrevo há 10 anos sobre a loucura de viver em sociedade, futebol e falo bem e mal das coisas que leio, vejo e ouço.

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