O Homem que não sabia trepar


Três amigos estavam em uma mesa de bar no momento da noite em que a cerveja já não tem gosto, as bitucas de cigarro já transbordam pelos cinzeiros e já rasgaram em pedacinhos mínimos todos os guardanapos e palitos de dente. É aquele momento em que não chegaram a conclusão alguma durante nenhuma discussão em nenhum assunto. Carlos já não suportava mais ficar ali com os amigos, mas também não tinha nenhum motivo para ir embora. Então pedia mais uma e falava “Ééé… tá foda…” em intervalos regulares.

o homem que não sabia trepar

Depois do que pareceram horas sem que eles pudessem exaurir qualquer outro assunto, Augusto levantou a cabeça que estava apoiada no seu braço e diz:

– Ei Fred, por quê você não conta uma daquelas suas histórias?

– Ahn?

– Boa! Fred, vai lá cara… conta alguma coisa aí pra gente, o Augusto já conseguiu deixar chato todo e qualquer assunto do mundo. Eu não tô nem um pouco afim de ir pra casa às… duas e meia.

– Eu fiz o qu…

– Deixa o Fred contar a história!

– Gente… de novo? Não sei mais de história nenhuma.

– Ah sabe sim – disseram Carlos e Augusto em uníssono.

– Porra, toda vez é assim, vocês ficam falando merda a noite inteira e pedem uma história para irem dormir. Eu sou pai de vocês agora pra botar na cama e contar historinha?

Os dois não queriam nem saber. Pediram mais uma cerveja e uma porção de pastelzinho que só Barnabé sabia fazer, para ouvir mais uma das história que só o Fred sabia contar. Eles frequentemente diziam para outras pessoas que eles nem eram tão amigos assim, mas que se encontravam toda semana só por causa do pastelzinho do Barnabé. A verdade, óbvio, é que eles encontravam para ouvir o Fred. Inclusive o Fred.

– Tá, pode ser que tenha uma história que eu ouvi esses dias… – Fred gostava de começar as histórias assim, como se fossem verdadeiras, como se ele de fato as tivesse ouvido por aí.

“Essa é a história do ‘Homem Que Não Sabia Trepar’. A história de um homem aterrorizado por não saber fazer aquilo que em teoria ele mais amava. Não é uma história feliz meus amigos. Não mesmo.”

Carlos e Augusto pegaram um pastelzinho cada um e tomaram um gole, essa seria uma daquelas. Até o Barnabé ficou ali para ouvir o início.

“Marcos era um cara normal, como a gente assim, boa praça, simpático, inteligente. As garotas curtiam aquele cabelo meio rebelde, a barba por fazer e o sorriso. Marcos tinha um belo sorriso. Daqueles que deixam a gente com inveja e abrem pares e pares de pernas pela noite a fora. Tinha um bom emprego, ganhava muito bem. Saúde boa, pais e irmãos também felizes e bem de vida. Uma vida perfeita, não fosse Deus um cara tão irônico.

Só tinha uma coisa que as pessoas achavam estranha sobre ele, o fato dele ter vinte e poucos anos e nunca ter tido uma namorada. Alguns dos amigos tinham certeza que ele era virgem. Os boatos começaram. Talvez seria gay, ou talvez tivesse o pau tão pequeno que teria vergonha. Ou o pau era gigantesco – vai saber! – diziam elas. Especulavam de tudo, até que ele seria eunuco.

Nenhum deles estava certo. O que eles não sabiam, era que Marcos na verdade não sabia trepar. Na realidade ele sabia. Sabia tudo sobre sexo. Era viciado em sexo, em quase toda e qualquer forma. Era um especialista. Amava sexo. Só não sabia fazer. Ou melhor, detestava fazer.”

“E como é que o cara podia não gostar de sexo Fred? – perguntou Augusto”

“Ele gostava de sexo como um todo, mas odiava ‘fazer’ sexo, entende?”

“Não.”

“Deixa eu continuar”

“Marcos estava dando uns beijos na Marcinha – a garota mais absurdamente linda de todo o colégio -, quando a coisa esquentou um pouco ela foi levando a mão dele para lhe fazer um carinho mais íntimo aconteceu algo horrível…”

“O quê?!”

“Posso tomar um gole de cerveja senhor? – perguntou Fred enquanto pegava um pedaço de pastel da mão do Augusto e bebia um gole. – Traz mais uma porção pra gente Barnabé?”

“Trago depois que você contar o que aconteceu quando o rapazinho foi abrir o botão da rosa…”

“Então… coitado do Marcos. Quando ele colocou a mão lá e sentiu aquele toque húmido de pura vitória e felicidade para qualquer garoto, ele sentiu um nojo tão grande que vomitou. (Putamerda! – soltou o Barnabé indo fazer mais uma porção de pastel.) Isso mesmo, vomitou enquanto estava beijando ela. Ela obviamente vomitou nele de volta. Foi uma merda. A situação foi tão traumática e horrível, que Marcinha se entregou para um convento acreditando piamente que o diabo quase a possuiu. Já Marcos ficou horrorizado por meses, pensando e tentando descobrir o que havia de errado com ele.”

“Já sei! Marcos era gay gente, é lógico que era! Aonde já se viu ter nojo de boceta?”

“Deixa de ser idiota pô, não tem nada a ver, quer prestar atenção na história? Calma que você vai entender.”

“Só de pensar naquele toque Marcos ficava enojado e o vomito logo aparecia. O primeiro pensamento é de que era gay. Antes fosse, pensou ele depois. Sentia atração por mulheres, disso tinha certeza. Mas começou a perceber que não suportava a troca de fluidos com ninguém, homem ou mulher. Ele realmente não gostava tanto de beijos assim. E isso começou a aterrorizá-lo. Como ele poderia amar alguém? Como poderia se casar? Porra, como teria filhos!?”

“Depois de um tempo, Marcos aprendeu a conviver com seu problema. Se tornou um viciado em sexo, contando que nada nem ninguém encostasse nele. Se tornou um voyeur dos mais especialistas em sexo, dava dicas para os casais que ele pagava para ver, mostrava como devia ser feito e se deliciava. Uma vez, uma das mulheres cismou que ia chupá-lo de qualquer forma. A crise nervosa foi tão grande que ele desmaiou. Tirando esse ou outro ‘acidente’, Marcos ia levando a vida o mais normal possível.”

“Até o dia em que se apaixonou.”

“Alá, sabia que ia dar merda. Certeza que ia dar merda.”

“Você pode ter suas próprias maluquices, mas sempre tem uma mulher pra ferrar com sua vida.”

“Machista. Me dá mais um pastel aí e escuta..”

“Carla era uma mulher mais ou menos. Mais ou menos linda, mais ou menos foda pra caralho, mais ou menos sensacional. Aquela mulher tão cheia de mais e menos que todos praticamente todos os homens que ela conheceu durante a vida se apaixonaram por ela. Eram tantos pequenos defeitinhos e imperfeições que a tornavam perfeita. Uma mulher irresistível. Incrível. Que Marcos teve o azar de conhecer um dia quando foi no dentista. Ela estava lá para um clareamento, ele para fazer um canal. Ainda hoje dizem que nunca se deve cair em um relacionamento com uma garota que você conheceu quando foi fazer canal. Todas as vezes que isso aconteceu, ao redor do planeta, acabou em tragédia.”

“A Míriam! A Míriam! Eu conheci ela quando fui fazer canal! PUTAMERDA!”

“Shhhhh tá bom Augusto, a gente sabe.”

“Não Carlos, você não ouviu o Fred? Conhecer uma mulher quando tá fazendo canal é tragédia. Putamerda eu sou parte de uma estatística. Estou chocado. Meu mundo caiu..”

“Tá bom Augusto, chega. Deixa eu terminar.”

“Putz… vai lá.”

“Eles se apaixonaram, é claro. Marcos a amava tanto que não sentia nada além de tesão e carinho por ela e pelo toque dela. Ele estava em puro êxtase, conseguira uma cura. O seu caminho para a felicidade perdida após Marcinha e o vômito. Ele era o cara mais feliz do mundo… até o dia em que eles foram fazer amor pela primeira vez….

“Ele cagou nela?”

O bar inteiro caiu na risada. Nesse momento, todo mundo já tinha parado tudo o que estava fazendo para ouvir a história.

“Hahaha, não Carlos, não.”

“Então conta porra!”

“Se você deixar…”

“Marcos não conseguiu. Não teve crise, nem vomitou nem nada, conseguia iniciar os trabalhos mas parava logo. Ele simplesmente não conseguia. Devia ser o cara que mais sabia comer uma mulher no planeta, mas simplesmente não conseguia fazer isso. Ele então abriu o jogo e chorando contou sobre seu problema. Carla ouviu tudo e disse que o amor que ela sentia por ele era maior que tudo isso. Que eles iriam resolver juntos.”

“E eles tentaram de tudo. Benzedeira, Preto Véio, Umbanda, missa, culto, exorcismo, até psicólogo. E nada. Nada no mundo fazia com que Marcos conseguisse trepar. Cansado de ver o amor da sua vida ‘perder seu tempo’ com ele, decidiu que deveria deixá-la. Ela obviamente não aceitou. Ele então propôs o absurdo. Que ela transasse com o tanto de gente que ela quisesse, contando que ele sempre estivesse junto para vê-la. Era o único jeito deles sentirem prazer juntos, disse Marcos para Carla. Ela de início achou um horror. Depois foi pensando mais na ideia e cedendo à vontade de Marcos.”

“Mas já devia tá beliscando azulejo a menina também né?”

“Beliscando o quê?”

“Azulejo. Fica quieto.”

“Cala a boca que tá acabando”

“No fim das contas, Marcos acabou convencendo ela. Começaram com michês escolhidos a dedo, depois foram pegando homens e mulheres em barzinhos, boates e festas. Eram de longe, em qualquer lugar que iam, o casal mais bonito e mais feliz. Marcos e Carla eram muito satisfeitos juntos, sexual e espiritualmente. Ela se tornou insaciável, aproveitava seus parceiros para satisfazer o seu amor. Se descobriu uma devassa. E Marcos um voyeur que não podia reclamar da vida. Sua mulher satisfazia todas suas fantasias e ele não podia pedir mais nada da vida.”

“Nos primeiros anos foi uma maravilha mesmo. Foram muito felizes. Depois de um tempo, as coisas foram ficando um pouco estranhas. Marcos já captava uns olhares diferentes, Carla parecia gostar, mais do que costumava, da situação. Ela já não pedia mais opinião para ele na hora de escolher os parceiros. Ficava irritada quando ele falava algo ou fazia algum pedido para o ‘casal’. E Marcos, por incrível que pareça, passou a ter ciúmes. Ciúmes mortais de sua esposa. Tudo que ela fazia era motivo para brigas. Ele passou a seguir todos os seus passos. Abandonou o emprego, ficou obcecado. Até o dia em que descobriu tudo. Ela estava namorando um dos rapazes que aparecia com muita frequência nos últimos meses. Ele a viu entrando no apartamento deles com o cara. Ele então esperou alguns minutos e entrou.”

sadkeany

Não se ouvia um pio no BARnabé. Ninguém piscava.

“Quando Marcos entrou no quarto sua esposa estava como ele nunca a havia visto. Ela estava… livre! Eu pensei que ela fosse feliz – pensou Marcos com amargura – mas ela nunc’a foi tão feliz assim. Ela fez o que fez por amor. Mas o amor não resistiu. Ela só queria se sentir normal… e eu pensei em matá-la por isso. Eu sou um monstro!’”.

– Então meus amigos… após essa epifania, nosso Marcos foi em direção à varanda do seu apartamento no vigésimo quinto andar, e pulou. – e com um sorriso no rosto, Fred completou: – Fim.

Pedro Turambar

Já fui de um tudo nesta vida, mas há uma coisa que nunca deixei de ser: escritor. Escrevo para viver e manter minha sanidade em um mundo tão louco. Sou uma mistura de palavras, lágrimas e reclamações.

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9 Comentários

  • Arthur Linhares
    13/05/2013 at 17:48

    Boa Pedrão!

    Cara segundo meus conhecimentos a respeito de gírias, adquiridos em grande parte na Old School of Kennedy, “Beliscar o Azulejo” é o mesmo que morder a fronha.

    E uma má notícia pra você meu amigo, fui ao Barnabé há um tempo atrás (era cliente assíduo na volta da faculdade, comprava um pastel e ia embora) e fui espancado pela notícia de que não estavam mais fazendo o sensacional Pastel De Provolone. Parece que a vigilância sanitária bateu lá e confiscou o fogão. Triste, muito triste.

    • Pedro Américo
      06/12/2013 at 02:28

      A pior notícia que poderíamos ter em tempos de comidas pobres em botecos.

  • Thais Waack
    15/04/2013 at 21:56

    Adorei o conto! 😀 E tão intrigante quanto o problema do Marcos seria o significado da expressão “beliscar azulejo”. hahhaha

    • Pedro Turambar
      Pedro Américo
      18/04/2013 at 15:56

      @Thais Waack, Thais ahahahahaha outro dia eu fiquei louco quando ouvi isso, fiz até um post no facebook falando sobre o assunto.

      pelo visto que está querendo “beliscar o azulejo” está querendo sexo. Agora, qual a relação entre essas coisas eu não faço ideia.

  • Fernanda
    03/04/2013 at 11:42

    consegui me sentir na mesa de bar escutando o Fred falar! muito bom!

  • Ruan
    02/04/2013 at 22:31

    Foda! Muito bom, fiquei me imaginando junto no bar, sem piscar ouvindo a história 😀

    • Pedro Turambar
      Pedro Américo
      03/04/2013 at 11:22

      @Ruan, eu fiquei foi com saudades do pastelzinho de queijo do Barnabé. Que existe de verdade aqui em BH.

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Pedro Turambar

Pedro Turambar

Gosto de escrever, reclamar e não tenho controle sobre chorar. Escrevo há 10 anos sobre a loucura de viver em sociedade, futebol e falo bem e mal das coisas que leio, vejo e ouço.

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