O joelho, a ironia, a bicicleta e o aprendizado


Eu aprendi a andar de bicicleta bem velho. Tinha 11 anos. Quase um ancião, para os padrões infantis, em relação à abandonar as rodinhas. Meus irmãos tiveram um ao outro — um nasceu apenas um ano depois do outro –, eu só tive a mim mesmo. Quem tem 16 e 17 anos tá pouco se lixando pro irmão mais novo (e eu era bem pirralho) e meu pai já não tinha saco para ensinar mais ninguém a andar de bicicleta. Não os culpo, não. Eu faria o mesmo.

Um dia eu cismei que ia conseguir. Arranquei as rodinhas, subi na bicicleta e… fui. Saí gritando e batendo campainha em tudo que é casa no bairro, para mostrar que eu agora sabia andar de bicicleta. Ter esse veículo de locomoção como opção viável para ir de um lugar a outro era uma liberdade que eu nunca imaginara. Imagina só, ir pra casa de Brunín em 30 segundos ao invés de dois minutos. Chegar no Areião em três minutos ao invés de cinco. Era simplesmente fantástico para mim economizar esses segundos, sem ter que dar um passo sequer.

aprendizado

Numa dessas andanças de bicicleta, que não eram poucas nessa época pós-aprendizado, eu e o inseparável Brunín, vimos ela subindo pela rua. Por ‘ela’, entende-se a garota mais linda do bairo, da cidade, do estado, da porra do universo inteiro. Ela era a garota dos sonhos de Deus e o Mundo. O clichê de menina mais desejada era tão grande, que mal víamos ela fora de casa. Avistá-la andando assim, de blusinha preta, saia jeans e chinelo havaiana numa tarde de quarta-feira era a mesma coisa que ganhar na loteria. Ou ganhar a Seleção de 70 de futebol de botão.

Eu, do alto de toda minha arrogância infanto-juvenil, da coragem recém adquirida pela nova habilidade ciclística, e do machismo aflorado de ‘pequeno varão’, decidi que precisava passar uma cantada naquele pedaço de mal caminho. Afinal de contas, para um menino de 11 anos ‘conquistar’ a menina mais linda do bairro — bem mais velha que ele — basta gritar um “Ô GOSTOSA!”. Hoje em dia eu não sei o que eu esperava. Aliás, não sei o que qualquer homem espera numa situação dessas. Será mesmo que passa pela nossa cabeça que a mulher vai virar e mandar um “HUMMM delííícia, vamo lá pra casa, AGORA!”.

Eu me lembro de após gritar esse galanteio, com todo garbo e elegância, vi o rosto dela se contorcer em uma careta de incredulidade. E como o destino é, além de irônico, um bom professor, eu — ainda inflado por toda aquela confiança, afinal, eu tinha um carango legal, e tinha dado uma chamada numa gata — fui tentar pular uma rampa de garagem. Porém meu amigo, ainda olhando para a garota e gritando mais alguma coisa, também teve a mesma ideia. Tomamos um dos maiores tombos da história do ciclismo pré adolescente. Me fodi todo. Ralei joelho, cortei a perna, machuquei as palmas das mãos e sentia o cotovelo direito dobrando de tamanho.

Foi sentado na garagem de Brunín, tratando os machucados com soro fisiológico e álcool, que eu percebi o quão mal educado e idiota eu tinha sido. Fiquei horrorizado com o que eu tinha acabado de fazer. Eu não era assim, não tratava as pessoas dessa maneira. Poxa, o irmão dela me levava no quadro para tudo que é lado quando era mais novo, eu não sabia andar de bicicleta, mas ele sempre se dispunha. Conhecia os pais dela, e até ela mesma, que sempre fora simpática comigo. E mesmo que fosse uma desconhecida. Não fazia o menor sentido. 

Naquele mesmo momento disse para meu amigo: “Nunca deve ter existido um homem, no mundo todo, que conseguiu uma mulher chamando ela de gostosa na rua. Eu vou até lá agora pedir desculpas.”

Ele ficou com ainda mais vergonha e não foi. Mas me levantei, subi na bicicleta e fui em direção a casa dela. Reuni toda a coragem e o caráter que ainda me sobravam e sem pensar duas vezes bati a campainha.

— Oi Dona Auxiliadora*, a Jasmine* tá aí? – *nomes inventados por motivos de sou péssimo com nomes.

— Oi Pedro, tá sim. Pera aí que eu vou chamar. Ô JASMIIINE! E sua mãe Pedro, tá jóia?

— Ótima, obrigado.

— Ela tá vindo, tchau Pedro!

— Tchau Dona Auxiliadora.

Ela descera até o portão. Quando se é menino, e uma menina mais velha, tão, mas tão bonita chega perto da gente, trememos tanto que é possível nos medir em Escala Richter. Mas ali, naquela situação eu falei como se fosse uma pessoa muito mais madura. E olhando nos olhos dela.

— Jasmine, me desculpa por aquilo que eu falei. Não sei o que me deu… eu não sou assim, não foi assim que minha mãe me ensinou a tratar as pessoas. Desculpa mesmo. Até me estabaquei no chão, acho que foi bem feito…

— É eu vi. Você tá bem?

— Tô.

— Tá desculpado Pedrinho, eu não entendi nada. Você sempre foi tão educado, que bom que você veio pedir desculpa.

— Ah, que bom.. então er.. tchau tá. — Agora que eu já tinha feito o que tinha vindo para fazer, e ela estava lá sorrindo, a tremedeira começou violentamente.

— Tchau. — E foi subindo a escada.

Fui para casa, naquele dia, com alguns aprendizados que eu vim entender quase 15 anos depois. O primeiro deles: você pode escolher não ser um babaca, só porque todo mundo o é. Segundo: o destino pode ser implacável e muito, muito rápido. E por fim, quando se está errado, peça desculpas, por mais difícil e doloroso que isso possa ser. Eu aprendi também a nunca sentir vergonha quando se está fazendo a coisa certa.

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Pedro Turambar

Pedro Turambar

Gosto de escrever, reclamar e não tenho controle sobre chorar. Escrevo há 10 anos sobre a loucura de viver em sociedade, futebol e falo bem e mal das coisas que leio, vejo e ouço.

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