O Pé direito


24 de junho de 2007, Atlético x Cruzeiro pelo primeiro turno do Campeonato Brasileiro, Mineirão, mais de 40 mil pessoas. Cruzeiro abriu 2 a 0 no primeiro tempo, dois gols de Araújo. Início do segundo tempo, Lima marca o primeiro tento dos atleticanos e Éder Luís marca o empate. Alguns minutos depois, pênalti marcado para o Galo. Marcinho, craque do time vai para a bola. A torcida era um só organismo vivo, pulávamos e cantávamos em um só ritmo enquanto o lado azul se calava em vergonha pela virada improvável.

Marcinho corre para a bola, bate e erra.

Minutos depois entra em campo o carrasco do time alvinegro naquele Brasileirão, um jovem jogador que atende pelo nome de Guilherme. Primeiro toque da bola, gol. Um toquinho de pé direito. O Cruzeiro ainda faria mais um gol com Ramires, naquele que foi um dos maiores e mais emocionantes jogos da minha vida.

***

galo

10 e 11 de junho de 2013, Atlético x Newell’s Old Boys jogavam pela segunda perna da semifinal da Libertadores da América. Depois de 9 minutos de paralisação – devida a queda na luz de metade dos refletores de um dos lados da arquibancada do já mítico estádio Independência -, o técnico Cuca resolve fazer mais uma alteração ousada. Ele tirou duas estrelas do time – Bernard e Tardelli – para fazer entrar dois ex-cruzeirenses, Alecsandro e o renegado Guilherme.

Aquele mesmo Guilherme. Dos 4 a 2 que citei ali em cima, e da virada de 4 a 3 em setembro daquele mesmo ano de 2007. Guilherme que nunca justificou os seis milhões de euros, que nunca perdeu o estigma de ter sido um carrasco do galo.

Guilherme que ao entrar me fez desistir. Ali eu achei que estaria tudo perdido de vez. Eu imaginava que já estávamos no fim do jogo (se eu soubesse que estávamos a 4 minutos do apito final eu teria realmente me desesperado).

Quiseram os Deuses do Futebol, esses projetos de Loki que pregam as peças mais dolorosas e escrevem os roteiros mais emocionantes do mundo, que ele, Guilherme o Renegado, e seu precioso pé direito fizesse o tão sonhado segundo gol. 2 a 0, iríamos pros pênaltis. E eu que chorava sozinho, desesperado nas arquibancadas do Cemitério do Horto, só conseguia pensar que nada nem ninguém iria tirar meu time da sua primeira final de Libertadores.

guilherme

Esse gol é tão surreal que não ‘deveria’ ter acontecido. A bola estava morta, não tinha ninguém perto do experiente volante Matheo, era para a bola sobrar limpa e tranquila para Guzman. O que fez um jogador rodado, de 35 anos, espanar uma bola morta e colocá-la no pé do improvável Renegado, que acertaria um chute tão feliz como aquele do empate no 4 a 2 de 2007 jogando pelo Cruzeiro.

Chorei mais com o pé direito de Guilherme do que com o pé esquerdo de Victor.

Os três infartos ocorridos no estádio ontem, só não foram quatro porque a minha passageira juventude ainda me confere um bom coração. Que será testado mais uma vez com o gigantesco Olímpia do Paraguay. Que nós, atleticanos – torcedores e jogadores – não caiamos na mesma falácia da imprensa bairrista e ufanista e na mesma besteira do tricolor carioca ao menosprezar um adversário mais difícil que iremos enfrentar nesse torneio.

Eu respeito o jogo jogado nas quatro linhas. Mas respeito história, camisa e cancha tanto quanto as místicas que envolvem o futebol.

As duas próximas quartas-feiras prometem. Até dia 25, quando voltarei a escrever sobre o Galo.

Pedro Turambar

Já fui de um tudo nesta vida, mas há uma coisa que nunca deixei de ser: escritor. Escrevo para viver e manter minha sanidade em um mundo tão louco. Sou uma mistura de palavras, lágrimas e reclamações.

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4 Comentários

  • Janaina Oliveira
    11/07/2013 at 18:33

    Previ aqui. De manhã cedinho.

    https://twitter.com/JanainaOliveira/status/354916075785302017

    Sofrida, acordei comentando com alguém (não me lembro com que, sonho tem disso) que o NOB tinha perdido uma cobrança. E acordei. Sem saber, nos meus sonhos, se o Galo estava classificado ou não. Mas meu inconsciente já me preparava para o que estava por vir. No plano etéreo, que nada sabemos, mas muito desconfiamos, eu já havia previsto esse resultado. Já havia previsto esse sofrimento.
    Mas sofri muito. Doeu muito.
    E ali no final, antes desse gol salvador do Guilherme, eu comentava comigo mesma, resignada, que era injusto. Que merecíamos demais. E o meu subinconsciente rindo de mim. Já estava lá, com a plaquinha “Eu já sabia”, escancarado quando ele fez o gol.

    • Pedro Turambar
      Pedro Américo
      11/07/2013 at 19:25

      @Janaina Oliveira, MEUDEUS.. que demais isso!

      Chorei copiosamente e fiquei com medo de passar mal.. mas tudo acabou bem..

      E todo mundo falando “com o Galo tem que ser sofrido.. tem que ser assim”

      Não gente… não tem que ser… pode ser tranquilo também, eu não ligo não.

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Pedro Turambar

Gosto de escrever, reclamar e não tenho controle sobre chorar. Escrevo há 10 anos sobre a loucura de viver em sociedade, futebol e falo bem e mal das coisas que leio, vejo e ouço.

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