O que é diferente pode não ser oposto, e não é necessariamente ruim. Uma reflexão sobre absolutos.


“(…)

— Anakin, minha aliança é com a república, com a democracia!

— Se você não está comigo, então está contra mim.

— Apenas um Sith lida em absolutos.

— Eu farei o que for preciso.

— Você irá tentar…”

Anakin Skywalker e Obi-Wan Kenobi em Star Wars III – A Vingança dos Sith

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Preto ou Branco.

8 ou 80.

Estamos perdendo, cada vez mais, a capacidade de enxergar os tons de cinza (muito mais que cinquenta) entre o preto e o branco e os números que separam oito de oitenta. A polaridade do discurso que temos em qualquer nível de discussão chega a ser assustadora. Se você pensa como eu, você é amigo, aliado e também argumento de afirmação — “Vê? Até Fulano concorda.” Se você discorda, você é o inimigo e deve ser subjugado ou obliterado, em toda e qualquer instância.

O temor ante ao que desafia o status quo é antigo, permanente e crônico. Se a raça humana ou, para ser mais justo, aqueles que se beneficiam do estado comum das coisas, não tivessem a compreensível teimosia egoísta de quererem para sempre o bem pessoal em detrimento do bem maior — incluindo o dele próprio — já estaríamos 10.000 anos à frente do nosso tempo. Esse aliás é o grande freio da humanidade, para mim. “Muitas pessoas podem estar ferradas, algumas podem estar bem, poucas podem estar muito bem, um ou outro podem estar ótimos. Mas só eu posso ser sensacional.”  Esse pensamento é o que suplanta a necessidade de se viver em sociedade a meu ver, onde o pensamento comum deveria ser “Todos devem estar ótimos.

Eu entendo que essa utopia jamais será alcançada. Mesmo que esse seja o ensinamento principal de um dos homens mais importantes da humanidade, um tal Jesus Cristo. Acho fascinante como os ditos seguidores e fiéis a Cristo fazem de tudo, menos seguir a fundação do que ele pregava. A contradição da humanidade é tão impressionante quanto a capacidade de se odiar.

diferente

Tentando retomar meu raciocínio inicial, sobre absolutos e a polaridade palpável dos discursos, dentro e fora da internet, eu diria que é quase impossível você identificar alguma discussão onde duas pessoas não parecem gritar para uma parede, cada vez mais enfurecidas pela sombra projetada por ele não tomar forma e concordar em ser sua duplicata. Não nos entendemos, não concordamos, e por consequência não nos suportamos.

Eu gosto de azul. Azul é muito mais legal que Vermelho. As pessoas que gostam de Vermelho, aliás, são imbecis por não ver o quanto o Azul é melhor. No encontro das Pessoas de Azul, masturbamos o quanto o Azul é fantástico, e claro desmerecemos o Vermelho. Isso porque na cabeça das Pessoas de Azul, não basta o Azul ser supremo. O Vermelho precisa ser exterminado. Ah, como seria o mundo se ele fosse inteiro Azul.

Além de um pensamento mesquinho e besta, não se leva em conta o Laranja, o Amarelo, o Grená, o Anil, o Púrpura e a escala Pantone inteira.

Erramos muito ao “nichificar” as coisas. A publicidade amou essa história de nicho. Fazer propaganda pra nicho é a melhor coisa do mundo, todo mundo entende a mensagem, todo mundo compra a mensagem e é muito mais fácil vender a ideia pro cliente. Coisa de gênio esse trem de nicho. Imagina uma programa de auditório feita de Pessoas Azuis para Pessoas Azuis falando do Azul? Putz, sucesso. Daí você faz um pro Vermelho, outro pro Laranja e assim vai. Sem preconceito, cada um na sua. Uma pena que isso deu errado. Ninguém faz parte de um só nicho, mesmo fazendo parte de algum nicho, você é uma anomalia lá dentro. Porque somos um lindo floquinho de neve único e especial? Não. Porque somos resultado de uma cadeia absurda de coincidências e probabilidades finitas.

Classificar pessoas, grupos, comportamentos é uma das maiores imbecilidades que nós criamos. Hoje meu comportamento é pautado pelo ano em que eu nasci. Se eu sou da Geração Y, esperam de mim ações dessa natureza e não daquela. Se eu nasci a partir de 95, esperam que eu seja um idiota e por aí vai. É uma cagação de regra de proporções universais e o pior as pessoas não só concordam com esse discursos, elas o replicam!

diferença

Colocamos as pessoas em caixinhas dentro de caixinhas, dentro de caixinhas, dentro de caixinhas com pessoas que pensam de forma idêntica, que eles resolvem parar de pensar de modo geral. Isso é assutador.

Enquanto não entendermos que o mundo tem muito mais que três dimensões, 256 cores, e dois lados, não vamos conseguir ir muito mais longe do lugar que estamos agora. O fato de uma pessoa ser diferente de você não a faz melhor ou pior que você, ela só é diferente. E pelos Deuses! Diferente é BOM! É assim que se constrói conhecimento, que se chega a algum lugar. Se todos são pasteurizadamente idênticos, isso quer dizer que a sociedade atingiu a massa crítica e não vai mais evoluir.

Enfie de uma vez por todas na sua cabeça:

Se eu não estou com você, eu posso não estar com ele, ou aquele. E mesmo que esteja. Podemos conviver normalmente discordando, sendo Azuis, Vermelhos ou Ultravioletas.

Não tente evangelizar todo mundo para a sua causa. A humanidade só evolui com a existêncita de ideias conflitantes.

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3 Comentários

  • Dias
    16/09/2014 at 00:51

    Que não vivamos nunca no mundo como o de Admirável Mundo Novo… se continuarmos dessa forma “nichista” a gnt ainda chega lá!!

    Belo texto Pedrão!!

  • sammy rothschild
    16/08/2014 at 21:58

    Que texto sensacional! Nunca tinha achado nada parecido por blogs e nossa, que alívio ler algo assim! Eu morei numa cidade de 25mil habitantes por 3 anos, e eu me senti muito o “vermelho” do seu texto. No começo era esquisito, no final eu já havia decidido que eu poderia ser a única vermelha, e que não importava o quanto o azul era um padrão por lá, eu gostava de ser vermelha. No fim das contas, fica claro mesmo que se eu me rendesse ao azul, como todo o resto, eu estaria descartando todas as chances de um bom debate, uma boa noitada, um bom desentendimento. As coisas na vida só mudam de dentro pra fora, e para mudar algo, é preciso nos incomodar. O padrão, o comum, não interfere em nada.

    La DiaboliqueFan Page

    • Pedro Américo
      17/08/2014 at 18:51

      Oi Sammy, fico feliz que tenha gostado do texto. Eu queria escrever algo assim há muito tempo. Na verdade até, escrevi algo no mesmo sentido, duvidando e colocando em xeque algumas atitudes que nós, enquanto sociedade, vemos tendo ultimamente.

      Espero que volte sempre. 🙂

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Pedro Turambar

Pedro Turambar

Gosto de escrever, reclamar e não tenho controle sobre chorar. Escrevo há 10 anos sobre a loucura de viver em sociedade, futebol e falo bem e mal das coisas que leio, vejo e ouço.

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