O Viciado em Filas


Eduardo era um rapaz normal. Brincou quando era criança, estudou a vida toda, ajudou o pai na serraria da família. Mas foi exatamente nesta época que Eduardo deixou de ser normal. Como ia muito ao banco para o pai, Eduardo ficou viciado em filas.

Isso mesmo, viciado em filas! Vê se pode!

o viciado em filas

O rapaz não podia ver uma fila que, ‘zupt’, corria para o último lugar. E não pense que ele gostava de filas por que ele conhecia um monte de gente, não não, nada disso. Ele até preferia não conversar com ninguém, gostava só de ficar na fila, aquela espera ficar entre pessoas diferentes, querendo a mesma coisa. Chegar ao fim da fila.

Teve uma vez que ficou quatro dias em uma fila, era o show de um tal de Paul. Quanto mais o tempo passava mais feliz ficava Eduardo, “isso sim é uma fila” pensava ele. Isso atrapalhava um pouco a vida de Eduardo, é claro. Sempre se atrasava para algum compromisso, no Brasil você não passa muito tempo sem ver uma filazinha sequer. Não agüentava, nem se fosse uma fila formada por 3 pessoas. Passar em frente banco então, era festa! Eduardo fazia o seu caminho pensando nos bancos. Abundância em fila.

Uma vez viajou para o exterior. Não gostou. Não faziam filas como aqui. Aqui temos Filas com ‘f’ maiúsculo. Jogo da seleção. Eduardo amava, não o futebol é claro, que isso ele detestava. Mas as filas, homéricas. Quando alguma grande empresa anunciava vagas de emprego, ele quase que dava pulos de alegria. Mas como eu disse, isso começou a atrapalhar a vida dele. A família achava muito estranho os sumiços. O pai disse, ‘esse menino tá metido com droga’. A mãe era só pranto. Gritava ‘aonde foi que erramos?’. O pai cansou de suspense e chamou o filho para uma conversa:

– Nós sabemos – disse o pai.

– Sabem do quê? – retrucou Eduardo.

– Do seu vício.

Eduardo ficou surpreso, esperava tudo menos isso. Ninguém poderia descobrir. Viciado em filas! Isso iria acabar com a reputação da família.

– Como ficaram sabendo?

– Então é verdade? – perguntou o pai perdendo a força nas pernas – Meu Deus muleque! Mexer com droga, o que sua avó vai pensar? Seu tio Márcio então, aquele falastrão! Eu devia bater em você!

Uma saída! Então eles pensavam que eram drogas. Menos mal. Ele tinha que confirmar, melhor drogado que maluco. Maluco não. A família podia suportar um drogado, um maluco, jamais! Tinha até um primo de terceiro gral que fora internado uma vez. Ele ainda ia aos encontros da família. Era isso! Não podia deixar que soubessem…

– Desculpa pai! Não sei onde estava com a cabeça…

O pai ficou feliz. “Pelo menos o pivete confessou”.

Eduardo foi internado, disseram para a família que ele estava sob forte stress por causa do Vestibular. Mandaram ele de férias para uma fazenda.

O pessoal da fazenda gostava de Eduardo, menino educado, que fez escolhas erradas. Estavam feliz por ajudá-lo a se livrar das drogas. Só achavam muito estranho ele entrar atrás das vacas quando chegava a hora de colocá-las em ordem para tirar o leite.

Pedro Turambar

Já fui de um tudo nesta vida, mas há uma coisa que nunca deixei de ser: escritor. Escrevo para viver e manter minha sanidade em um mundo tão louco. Sou uma mistura de palavras, lágrimas e reclamações.

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5 Comentários

  • A r t h u r
    16/06/2008 at 14:47

    Bom texto Pedrão! Maaas onde estão os relatos do carnaval?

  • Rodrigo R.®
    16/06/2008 at 03:42

    Ele gostava de filas pra poder ficar observando os outros, pessoas malucas observam os outros por horas 9por vezes dias), você inclusive ja escreveu sobre isso que eu lembro.

    ate mais ai meu velho.

  • Caio" Abbath
    09/06/2008 at 14:33

    MAS QUE PORRA É ESSA?
    Na hora que começou a falar de filas pensei; Pedro está falando de sua infância e adolescência.

    capisce?

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Pedro Turambar

Pedro Turambar

Gosto de escrever, reclamar e não tenho controle sobre chorar. Escrevo há 10 anos sobre a loucura de viver em sociedade, futebol e falo bem e mal das coisas que leio, vejo e ouço.

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