Sociedade Alternativa // O Homem que não sabia trepar

Três amigos estavam em uma mesa de bar no momento da noite em que a cerveja já não tem gosto, as bitucas de cigarro já transbordam pelos cinzeiros e já rasgaram em pedacinhos mínimos todos os guardanapos e palitos de dente. É aquele momento em que não chegaram a conclusão alguma durante nenhuma discussão em nenhum assunto. Carlos já não suportava mais ficar ali com os amigos, mas também não tinha nenhum motivo para ir embora. Então pedia mais uma e falava “Ééé… tá foda…” em intervalos regulares.

o homem que não sabia trepar

Depois do que pareceram horas sem que eles pudessem exaurir qualquer outro assunto, Augusto levantou a cabeça que estava apoiada no seu braço e diz:

- Ei Fred, por quê você não conta uma daquelas suas histórias?

- Ahn?

- Boa! Fred, vai lá cara… conta alguma coisa aí pra gente, o Augusto já conseguiu deixar chato todo e qualquer assunto do mundo. Eu não tô nem um pouco afim de ir pra casa às… duas e meia.

- Eu fiz o qu…

- Deixa o Fred contar a história!

- Gente… de novo? Não sei mais de história nenhuma.

- Ah sabe sim – disseram Carlos e Augusto em uníssono.

- Porra, toda vez é assim, vocês ficam falando merda a noite inteira e pedem uma história para irem dormir. Eu sou pai de vocês agora pra botar na cama e contar historinha?

Os dois não queriam nem saber. Pediram mais uma cerveja e uma porção de pastelzinho que só Barnabé sabia fazer, para ouvir mais uma das história que só o Fred sabia contar. Eles frequentemente diziam para outras pessoas que eles nem eram tão amigos assim, mas que se encontravam toda semana só por causa do pastelzinho do Barnabé. A verdade, óbvio, é que eles encontravam para ouvir o Fred. Inclusive o Fred.

- Tá, pode ser que tenha uma história que eu ouvi esses dias… – Fred gostava de começar as histórias assim, como se fossem verdadeiras, como se ele de fato as tivesse ouvido por aí.

“Essa é a história do ‘Homem Que Não Sabia Trepar’. A história de um homem aterrorizado por não saber fazer aquilo que em teoria ele mais amava. Não é uma história feliz meus amigos. Não mesmo.”

Carlos e Augusto pegaram um pastelzinho cada um e tomaram um gole, essa seria uma daquelas. Até o Barnabé ficou ali para ouvir o início.

“Marcos era um cara normal, como a gente assim, boa praça, simpático, inteligente. As garotas curtiam aquele cabelo meio rebelde, a barba por fazer e o sorriso. Marcos tinha um belo sorriso. Daqueles que deixam a gente com inveja e abrem pares e pares de pernas pela noite a fora. Tinha um bom emprego, ganhava muito bem. Saúde boa, pais e irmãos também felizes e bem de vida. Uma vida perfeita, não fosse Deus um cara tão irônico.

Só tinha uma coisa que as pessoas achavam estranha sobre ele, o fato dele ter vinte e poucos anos e nunca ter tido uma namorada. Alguns dos amigos tinham certeza que ele era virgem. Os boatos começaram. Talvez seria gay, ou talvez tivesse o pau tão pequeno que teria vergonha. Ou o pau era gigantesco – vai saber! – diziam elas. Especulavam de tudo, até que ele seria eunuco.

Nenhum deles estava certo. O que eles não sabiam, era que Marcos na verdade não sabia trepar. Na realidade ele sabia. Sabia tudo sobre sexo. Era viciado em sexo, em quase toda e qualquer forma. Era um especialista. Amava sexo. Só não sabia fazer. Ou melhor, detestava fazer.”

“E como é que o cara podia não gostar de sexo Fred? – perguntou Augusto”

“Ele gostava de sexo como um todo, mas odiava ‘fazer’ sexo, entende?”

“Não.”

“Deixa eu continuar”

“Marcos estava dando uns beijos na Marcinha – a garota mais absurdamente linda de todo o colégio -, quando a coisa esquentou um pouco ela foi levando a mão dele para lhe fazer um carinho mais íntimo aconteceu algo horrível…”

“O quê?!”

“Posso tomar um gole de cerveja senhor? – perguntou Fred enquanto pegava um pedaço de pastel da mão do Augusto e bebia um gole. – Traz mais uma porção pra gente Barnabé?”

“Trago depois que você contar o que aconteceu quando o rapazinho foi abrir o botão da rosa…”

“Então… coitado do Marcos. Quando ele colocou a mão lá e sentiu aquele toque húmido de pura vitória e felicidade para qualquer garoto, ele sentiu um nojo tão grande que vomitou. (Putamerda! – soltou o Barnabé indo fazer mais uma porção de pastel.) Isso mesmo, vomitou enquanto estava beijando ela. Ela obviamente vomitou nele de volta. Foi uma merda. A situação foi tão traumática e horrível, que Marcinha se entregou para um convento acreditando piamente que o diabo quase a possuiu. Já Marcos ficou horrorizado por meses, pensando e tentando descobrir o que havia de errado com ele.”

“Já sei! Marcos era gay gente, é lógico que era! Aonde já se viu ter nojo de boceta?”

“Deixa de ser idiota pô, não tem nada a ver, quer prestar atenção na história? Calma que você vai entender.”

“Só de pensar naquele toque Marcos ficava enojado e o vomito logo aparecia. O primeiro pensamento é de que era gay. Antes fosse, pensou ele depois. Sentia atração por mulheres, disso tinha certeza. Mas começou a perceber que não suportava a troca de fluidos com ninguém, homem ou mulher. Ele realmente não gostava tanto de beijos assim. E isso começou a aterrorizá-lo. Como ele poderia amar alguém? Como poderia se casar? Porra, como teria filhos!?”

“Depois de um tempo, Marcos aprendeu a conviver com seu problema. Se tornou um viciado em sexo, contando que nada nem ninguém encostasse nele. Se tornou um voyeur dos mais especialistas em sexo, dava dicas para os casais que ele pagava para ver, mostrava como devia ser feito e se deliciava. Uma vez, uma das mulheres cismou que ia chupá-lo de qualquer forma. A crise nervosa foi tão grande que ele desmaiou. Tirando esse ou outro ‘acidente’, Marcos ia levando a vida o mais normal possível.”

“Até o dia em que se apaixonou.”

“Alá, sabia que ia dar merda. Certeza que ia dar merda.”

“Você pode ter suas próprias maluquices, mas sempre tem uma mulher pra ferrar com sua vida.”

“Machista. Me dá mais um pastel aí e escuta..”

“Carla era uma mulher mais ou menos. Mais ou menos linda, mais ou menos foda pra caralho, mais ou menos sensacional. Aquela mulher tão cheia de mais e menos que todos praticamente todos os homens que ela conheceu durante a vida se apaixonaram por ela. Eram tantos pequenos defeitinhos e imperfeições que a tornavam perfeita. Uma mulher irresistível. Incrível. Que Marcos teve o azar de conhecer um dia quando foi no dentista. Ela estava lá para um clareamento, ele para fazer um canal. Ainda hoje dizem que nunca se deve cair em um relacionamento com uma garota que você conheceu quando foi fazer canal. Todas as vezes que isso aconteceu, ao redor do planeta, acabou em tragédia.”

“A Míriam! A Míriam! Eu conheci ela quando fui fazer canal! PUTAMERDA!”

“Shhhhh tá bom Augusto, a gente sabe.”

“Não Carlos, você não ouviu o Fred? Conhecer uma mulher quando tá fazendo canal é tragédia. Putamerda eu sou parte de uma estatística. Estou chocado. Meu mundo caiu..”

“Tá bom Augusto, chega. Deixa eu terminar.”

“Putz… vai lá.”

“Eles se apaixonaram, é claro. Marcos a amava tanto que não sentia nada além de tesão e carinho por ela e pelo toque dela. Ele estava em puro êxtase, conseguira uma cura. O seu caminho para a felicidade perdida após Marcinha e o vômito. Ele era o cara mais feliz do mundo… até o dia em que eles foram fazer amor pela primeira vez….

“Ele cagou nela?”

O bar inteiro caiu na risada. Nesse momento, todo mundo já tinha parado tudo o que estava fazendo para ouvir a história.

“Hahaha, não Carlos, não.”

“Então conta porra!”

“Se você deixar…”

“Marcos não conseguiu. Não teve crise, nem vomitou nem nada, conseguia iniciar os trabalhos mas parava logo. Ele simplesmente não conseguia. Devia ser o cara que mais sabia comer uma mulher no planeta, mas simplesmente não conseguia fazer isso. Ele então abriu o jogo e chorando contou sobre seu problema. Carla ouviu tudo e disse que o amor que ela sentia por ele era maior que tudo isso. Que eles iriam resolver juntos.”

“E eles tentaram de tudo. Benzedeira, Preto Véio, Umbanda, missa, culto, exorcismo, até psicólogo. E nada. Nada no mundo fazia com que Marcos conseguisse trepar. Cansado de ver o amor da sua vida ‘perder seu tempo’ com ele, decidiu que deveria deixá-la. Ela obviamente não aceitou. Ele então propôs o absurdo. Que ela transasse com o tanto de gente que ela quisesse, contando que ele sempre estivesse junto para vê-la. Era o único jeito deles sentirem prazer juntos, disse Marcos para Carla. Ela de início achou um horror. Depois foi pensando mais na ideia e cedendo à vontade de Marcos.”

“Mas já devia tá beliscando azulejo a menina também né?”

“Beliscando o quê?”

“Azulejo. Fica quieto.”

“Cala a boca que tá acabando”

“No fim das contas, Marcos acabou convencendo ela. Começaram com michês escolhidos a dedo, depois foram pegando homens e mulheres em barzinhos, boates e festas. Eram de longe, em qualquer lugar que iam, o casal mais bonito e mais feliz. Marcos e Carla eram muito satisfeitos juntos, sexual e espiritualmente. Ela se tornou insaciável, aproveitava seus parceiros para satisfazer o seu amor. Se descobriu uma devassa. E Marcos um voyeur que não podia reclamar da vida. Sua mulher satisfazia todas suas fantasias e ele não podia pedir mais nada da vida.”

“Nos primeiros anos foi uma maravilha mesmo. Foram muito felizes. Depois de um tempo, as coisas foram ficando um pouco estranhas. Marcos já captava uns olhares diferentes, Carla parecia gostar, mais do que costumava, da situação. Ela já não pedia mais opinião para ele na hora de escolher os parceiros. Ficava irritada quando ele falava algo ou fazia algum pedido para o ‘casal’. E Marcos, por incrível que pareça, passou a ter ciúmes. Ciúmes mortais de sua esposa. Tudo que ela fazia era motivo para brigas. Ele passou a seguir todos os seus passos. Abandonou o emprego, ficou obcecado. Até o dia em que descobriu tudo. Ela estava namorando um dos rapazes que aparecia com muita frequência nos últimos meses. Ele a viu entrando no apartamento deles com o cara. Ele então esperou alguns minutos e entrou.”

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Não se ouvia um pio no BARnabé. Ninguém piscava.

“Quando Marcos entrou no quarto sua esposa estava como ele nunca a havia visto. Ela estava… livre! Eu pensei que ela fosse feliz – pensou Marcos com amargura – mas ela nunc’a foi tão feliz assim. Ela fez o que fez por amor. Mas o amor não resistiu. Ela só queria se sentir normal… e eu pensei em matá-la por isso. Eu sou um monstro!’”.

- Então meus amigos… após essa epifania, nosso Marcos foi em direção à varanda do seu apartamento no vigésimo quinto andar, e pulou. – e com um sorriso no rosto, Fred completou: – Fim.


Music is Very Porreta // Morreu um pedaço de uma geração – Chorão (1970-2013)

Morreu um pedaço da minha geração. Chorão.

chorao - ocrepusculo

Não me importa se ele era um babaca, não me importa as merdas que ele falou, não me importa o que os hipócritas que enchiam a boca para cantar que “fudeu, os caras do Charlie Brown invadiram a cidade!”. Isso não vai diminuir o que Chorão fez por uma geração.

Certo ou errado, Chorão foi a nossa voz e a nossa voz deu dimensão a suas poesias. Não acho que ele foi um gênio, ou que estou chocado pela morte dele. As escolhas que ele fez o levaram a isso, e o próprio Chorão fala disso em suas músicas. Ninguém ficou assim tão chocado. No mundo dele, morrer assim infelizmente é muito normal. A gente ainda lembra da Cássia Eller?

Não estou aqui para julgar as escolhas e muito menos o tipo de pessoa que ele era. Eu estou aqui para desejar que ele vá em paz, que ele descanse sua cabeça. E para agradecer por ter feito parte da minha adolescência, por fazer letras que me fizeram pensar e conhecer um pouco mais de mim mesmo e de como era o mundo que me esperava lá fora.

E por me fazer cantar, gritar e me revoltar.

Parte da minha adolescência, parte da minha vida.

“Eu odeio gente chique
Eu não uso sapato,
Mas que se foda.”


Sociedade Alternativa // Frescuras dos Homens, até quando?

A gente vive hoje numa sociedade impensável para a maioria dos avós dos nossos avós. Que diria então o pessoal da idade média, imagina eles vendo as frescuras dos homens hoje, cheios de creminho. Se hoje a adolescência vai até os 30 anos, naquela época você já era velho, mais alguns anos e você poderia vestir um saco de juta, segurar um cajado e pagar de mestre ancião da vila.

frescuras dos homens - o crepusculo

Homão!

Existem aquelas máximas que o pessoal gosta de cravar, tipo “O mundo está dividido entre aqueles que leram 50 Tons de Cinza e aqueles que gostam de literatura.” Ou aquelas que separam os “homens dos meninos”. Essa última inclusive expõe algumas verdades do nosso mundo. E me levou a pensar que a humanidade como um todo está meio fresca. A gente de fato vem “garoteando” mais a cada geração. Veja bem, isso não tem nada a ver com opção sexual. Absolutamente. “Garotear” vai além de sexualidade. Conheço homossexuais que colocariam no chinelo um bando de marmanjo aí em se tratando de hombridade.

Há alguns anos eu li uma crônica do Luís Fernando Veríssimo que é a síntese e a essência do Homem que é Homem. O que eu tento fazer abaixo é usar alguns exemplos mais modernos do que diferem os Homens dos garotos.

Cerveja quente é um exemplo. Tem muito garoto que se acha muito macho por tomar 10 long-necks daquela cerveja holandesa geladassa numa baladinha. Hoje em dia inclusive vendem “coolers” com visor digital para a colocar “cerva” na temperatura ideal. Homem que é Homem toma cerveja do jeito que tá. Bobear abre ela no dente e manda pra dentro na fila do mercado, porque quem compra cerveja em posto de conveniência é garoto. E visor digital é coisa de menino que passa tempo demais jogando videogame.

Videogame aliás é outra coisa que difere os Homens dos garotos. Homem joga Battletoads e acha que vida e continue infinito foi o que levou a hombridade a falência. Garotos de hoje não sabem lidar com a derrota. Homem sabe perder. Garotos reclamam com as mães, xingam no twitter e falam “feice”.

Outra grande diferença entre os homens e os garotos é em relação a machucados e ou enfermidades. Já viu aqueles aparatos moderníssimos que as pessoas usam quando quebram alguma coisa? Tudo coisa para criança. Homem abre o gesso no dente e marca a próxima pelada. Já percebeu que hoje em dia quase ninguém tem cicatriz? Crianças se divertem em casa ou no “play”. Homem que é homem pulava barranco quando era criança, voltava para casa arrebentado depois de cair de bicicleta e segurava o choro quando a mãe passava um litro de Mertiolate pelo corpo. O mundo “garoteou” tanto que até Mertiolate não arde mais.

Homem que é homem sabe que você não trata gripe com remédio, você só alivia os sintomas. Garotos tomam um paracetamol e ficam reclamando o dia todo. Homem só toma remédio se a febre tiver nos 40, e se ela for uma coroa bacana até pode rolar alguma coisa. Porque “ficada” é coisa de pré-adolescente. Aliás, esses aí devem ser os mesmos que acham que a mulher deve se depilar ‘assim’ ou ‘assado’.

Dizem que existe um teste para saber se você é Homem ou garoto, mas como Homens de verdade acham que teste na internet é coisa de garoto então eu não sei que teste é esse e você não deveria nem procurar saber. Se você tem dúvida se você é um Homem ou um garoto, você é garoto.

Os Homens, raros hoje num mundo povoado por garotos, assumem seus erros, sacodem a poeira, aguentam a porrada e seguem em frente sem reclamar demais. Porém, existe apenas uma situação em que o Homem tem total liberdade para chorar, espernear, deitar em posição fetal no meio da sala e clamar por sua mamãe. Quando lhe puxam o pelo da barba. Esqueçam o chute ou porrada nas partes sensíveis. Homem que é homem consegue manter a dignidade nessas situações.

Mas ninguém. Ninguém mesmo está preparado para o terror de ter a barba puxada. Eu sempre imaginei se alguém puxasse o bigode do Charles Bronson. Imagina ele ali, esperneando feito criança quando quer brinquedo segurando aquele 38. Aí que o mundo acabaria de vez.

Ps.: Não pense que esse cataclisma é privilégio masculino. Tem muuuuita mulher por aí que garoteia. E garoteia feio. Um dia quem sabe eu não faça – ou convide alguém pra fazer – um post sobre o que difere as Mulheres das meninas.


Vortex // O que aconteceu com o diário virtual?

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Quem lê esse blog (ou lia) sabe como é difícil ter post novo aqui. E como eu venho lutando comigo mesmo para tentar colocar isso aqui em dia, ou mesmo me motivar a escrever aqui. Como você sabe, eu estou escrevendo algumas bobagens para o Papo de Homem, e lá a motivação é ter um grande público e lá também ser uma vitrine para mim, inclusive me motivando a escrever mais aqui.

Outro dia o luke (eu sei que é com L maiúsculo cara) postou um texto falando sobre a vontade de continuar a postar, mesmo que esporadicamente. Falou sobre um tapa no visual também. Eu o luke e o Rafa também, temos um exemplo de blogs que ficaram fora de moda. Somos ainda da várzea virtual. Nunca ficamos pop, continuamos com nossos diários virtuais enquanto se proliferam por aí tradutores do 9gag. Seria muito mais fácil fazer qualquer quadrinho ou rage comic e postar 15 vezes ao dia. Mas nós não conseguimos fazer isso.

Textos ficaram ultrapassados (ficaram?), tivemos grandes representantes, o melhor deles – AOE – caiu levando com ele grande parte da originalidade da nossa internet. Tínhamos até o Felipe Neto, veja só. Ele foi esperto, transformou os textos raivosos do Controle Remoto em vídeo e ficou famoso.  Hoje o único que se mantém como um pilar de bom conteúdo, textos originais com grande quantidade de acessos é o próprio Papo de Homem.

Mas e nós do “diarinho” como ficamos? Será que ficamos mesmo démodé? Será que estamos lutando uma luta perdida? Será que não temos mais lugar?

Acho que a Juliana é uma prova de que ainda temos a nossa relevância. Além de nossos esforços, dependemos muito de você que lê nossos textos. Podemos fazer um post para chamar os paraquedistas virtuais, mas você não iria gostar. Poderíamos postar alguma lista legal pensando apenas num link de algum grande blog. Fazemos isso às vezes, mas as visitas não importam, porque não são nossos leitores de verdade. Eles não voltam.

Eu vou colocar ali na barra lateral uma seção chamada ‘De Várzea’, ali ficaram os blogs que eu mais gosto e sempre vou indicar no twitter e no facebook – meu e do blog. Faça o mesmo. Nós não nos importamos com visitas. Nos importamos com leitores. E sem eles nós não somos nada.


Sociedade Alternativa // Internet – A ferramenta sem limites

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Nesse fim de semana resolvi estender a revolução que me remete todo início de ano (jogar coisas fora e organizar tudo que tenho) para meus arquivos digitais. Que depois de 14 anos trocando decomputador, chegaram a um nível absurdo. Obviamente, quando se tem arquivos dessa idade, você encontra algumas pérolas inimagináveis. Como é o caso de um release de uma empresa que aparentemente ~mexe com internet~. Quero atentar para as pérolas contidas no texto, que me fizeram chorar de rir enquanto lia. Peço a você leitor, que me acompanhe. O texto começa assim:

Desde que foi implantada no Brasil, a Internet era vista como uma ferramenta sem limites e poucos sabiam como usá-la a seu favor.

Veja bem, a internet foi implantada no Brasil. A internet é tipo aquelas antenas gigantes maneiríssimas do filme Contato. Fico imaginando o político que trouxe a internet numa caixa dizendo “Isso, caros companheiros, é o futuro! Vamos implantar”.

Em 1999 a ****** surgiu com um novo propósito, visando torná-la uma ferramenta útil para o mercado.

Vamos lá. Pelo que eu entendi a internet era uma ferramenta sem limites, mas até a QualquerCoisa Consultoria e Desenvolvimento Web aparecer ela era completamente inútil para o mercado.

A Internet pela ******* não era apenas mais uma ferramenta tecnológica, mas um vasto meio de comunicação de abrangência universal com proporções inimagináveis.

Tá começando a complicar, mas vamos tentando. Agora a internet não era só inútil para o mercado, como era “apenas mais uma ferramenta tecnológica”. Ué, o que aconteceu com a ferramenta sem limites? E que fascínio é esse com a palavra “ferramenta”? Bom, além de transformar a internet em uma ferramenta ~útil~ para o mercado, a tal empresa a transformaria num “vasto meio de comunicação de abrangência universal com proporções inimagináveis”. WOW! Aí sim! Audaciosamente indo onde ninguém jamais esteve.

Continuando.

Os atributos da empresa vão desde o desenvolvimento de complexos sistemas até a sensível tarefa de desenvolver um website que transpareça a imagem de sua empresa.

Cara, essa empresa é demais. Eles conseguem fazer algo tão complexo e sensível como sistemas (Sistemas de quê?) e um website que transpareça a imagem de sua empresa. É praticamente a mesma dificuldade de conviver com um adolescente. Complexo e sensível.

Mesmo com toda versatilidade da Internet, a ******* se mantém firme em seu propósito e cada vez mais demarcando seu espaço no mercado virtual.

Taí. A internet é realmente versátil, finalmente algo que faz sentido no texto, afinal o que é mais versátil que uma “ferramenta” sem limites, inútil para o mercado, apenas mais uma ferramenta tecnológica e que pode se transformar em algo com abrangência universal de proporções inimagináveis. Nada é mais versátil que isso. É amigos, chega uma hora em que tudo que você quer é colocar sua cerquinha virtual uns megabytes mais para o norte. Mercado virtual é tipo um Submarino?

Preocupada em atender por excelência, a ****** cuida de todos os pontos importantes para que seus clientes tenham o melhor oferecido no mercado, por ser uma empresa sólida, se preocupa também com a interatividade de seus clientes ao oferecer o serviço de Intranet e Extranet.

Empresas sem solidez não se preocupam com a interatividade de seus clientes ao oferecer o serviço de Intranet e Extranet. E isso não faz o MENOR sentido.

Ao contratar a ****** o cliente não se preocupa mais com o mundo virtual, a empresa cuida de cada detalhe, desde o desenvolvimento do website até o arquivamento de seus dados, oferecendo hospedagem e domínio a preço justo e também o serviço de adwords, que promove o conteúdo de seu site através de palavras-chave, colocando-o em melhor posição nos buscadores, assim tendo mais visibilidade e acessos.

Ô pessoal, que frase grande em.

Ser cliente dessa empresa devia ser demais. Imagina só não me preocupar mais com o mundo virtual. Um mundo a menos para preocupar.

A ***** cuida do sucesso de seu website através do Google Analytics, sistema do gigante Google que registra a quantidade de acessos detalhadamente, palavras-chave buscadas que chegaram até seu site, informações sobre os internautas que o visitaram e gráficos que ajudam na melhoria de sua visibilidade na Internet.

“Do gigante Google”. Do Tarrask ninguém fala né?

Com muita seriedade e profissionalismo a ***** torna o site uma extensão do cliente.

Qual site? Do meu cliente, ou do cliente da empresa? Me perdi no final. E aquele papo todo sobre ferramentas inúteis sem limites com poderes universais inimagináveis? Eu em. O texto não só é absurdo pela forma como trata a internet como se fosse algo de outro mundo. É absurdo pela linguagem, igual a qualquer empresa de qualquer segmento por aí. Eu mesmo já escrevi incontáveis textos institucionais e ficava chocado com a quantidade de loucuras que eu era obrigado a colocar lá. Não tem nada mais masturbatório que texto institucional de empresa.

Comece a prestar atenção para você ver.


Sociedade Alternativa // Babá 50%OFF

Hoje estourou na internet um texto de uma “adevogada” dando dicas sobre levar babás em viagens com a família. O fato de alguém se propor a se dar dicas como isso já é um pouco estranho, normalmente se procura dicas para levar animais de estimação em viagens longas. Não entendo o porque da necessidade de fazer um texto explicando como tratar um outro ser humano, mesmo que ele tenha um vínculo empregatício com você. Mas ok, vamos deixar isso de lado, eu pensei.

Até ler o texto. (Que pelo visto foi apagado pela autora, mas graças ao bom Google, você pode ler aqui). O texto foi postado em um blog editado por duas irmãs aqui de Belo Horizonte, que pelo visto é para mostrar fotos de viagens com crianças e dar dicas de lugares para visitar. Não vou julgar nada disso. Elas tem dinheiro e tempo livre para fazer o que quiserem, os textos são um tanto mal escritos mas parece ser um blog com conteúdo bacana para o que se propõe.

Eu só dei uma passada de olho em outros textos, mas todos aparentemente tem o mesmo tom. Aquele “tom” que se encontra nas melhores famílias “perfeitas” da “aristocracia mineira”. Não precisamos nos ater aos outros textos, muito menos no conteúdo. Temos só que prestar atenção em como as coisas foram ditas no texto em questão, no tom das palavras usadas e no próprio “clima” do texto.

Muita gente está com raiva da forma como a autora trata a babá. Não vi nada errado nisso. Não há nada errado em estabelecer regras, explicar e mostrar como as coisas devem ser feitas por uma pessoa que você emprega e que está no seu convívio familiar. Não estou aqui para duvidar que a autora trata a babá de forma como qualquer outra pessoa trataria. Não é nem de longe como as pessoas estão tratando, como se a babá fosse uma escrava, andasse amarrada e tomasse chibatadas do capataz no fim do dia. As pessoas estão perdendo o foco aqui. Se tem alguma coisa errada desse tipo, a babá deveria ir a polícia e denunciar. O que – repito – não parece ser o caso. Tem gente muito pior, que desconta do salário de empregada o que ela come dentro de casa e etc. Casos assim não faltam. Repito novamente, esse não é o ponto aqui e não podemos julgar isso pelo texto.

Mas o que realmente importa, e o que realmente me chocou ao ler o texto, é como a autora se refere a sua babá e como se refere a babás de forma geral. E isso nós podemos julgar porque está mais do que claro na forma como a autora se coloca.

Qualquer semelhança com um texto onde um adestrador dá dicas sobre como ensinar truques para o seu cachorro não é mera coincidência. Qualquer semelhança com o que nós imaginamos ser a forma de um senhor de escravos dando dicas sobre como tratar seus “animais” para outro senhor de escravos também não é mera semelhança. E isso, me diz muito sobre como não só essa pessoa pensa, mas como toda uma classe, ou um estereótipo, ou melhor como um arquétipo comum em nossa sociedade pensa sobre pessoas que eles consideram inferiores.

Uma coisa é nós fazermos conjecturas sobre como esse tipo de pessoa age, outra é nós vermos isso escancarado em um texto. Eu imaginei a autora fazendo o relato numa roda de amigas do mesmo “status” que ela, em um iate, tomando Champagne. E sabe o que é pior? Na cena que eu imaginei todas as outras fizeram relatos da mesma forma. A forma de pensar dessa triste senhora que mal cria o próprio filho, é um lugar comum nessa parte mais podre e bizarra da nossa sociedade. É isso que está enojando tanta gente.

Não existe aquela famosa frase “você só conhece uma pessoa de verdade pela forma como ela trata pessoas “‘“””“inferiores”””” a ela.” Pois eu digo que essa frase está completamente errada. Preste atenção em como ela fala a seus iguais sobre pessoas “””””inferiores””””” a ela.
O mais bizarro de tudo, é que enquanto eu lia o texto, eu só lembrava de um texto que eu li enquanto pesquisava sobre a Deep Web. Se você tem estômago fraco, acho melhor não continuar ou não ler esse parágrafo, é um tanto pesado.

O texto que li supostamente fora postado por um homem que vendia escravos humanos, era como se fosse um anúncio. Eu prefiro acreditar que era um roteiro de filme B de terror perdido do que acreditar que realmente existe um cara que faz o que esse médico do leste europeu disse que fazia. Bem, não eram apenas escravos humanos. Eram garotas que tinham seus membros amputados, sofriam lavagem cerebral, e depois do “tratamento” se tornavam praticamente imunes a dor. Ah, o médico também as deixavam cegas, mudas e quase surdas. A audição que restava era o suficiente para a sua “escrava” entender suas ordens. O médico terminava o texto dizendo que eram produtos perfeitos que não dariam problema.

Eu disse que era pesado.

Lendo isso aí eu aprendi que não é muito saudável pesquisar sobre certas coisas. Mesmo que isso seja mentira é um texto de um horror inacreditável. E eu só estou colocando o básico do que existe nele por um motivo.

O tom do médico ao se referir à seus “produtos” é idêntico ao tom usado por essa mulher que escreveu sobre a babá.

E isso foi o suficiente para me aterrorizar de verdade lendo as “dicas para levar sua babá a viagens”.


Sociedade Alternativa // Liberdade Liberdade

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Era um sábado como outro qualquer. Acordei cedo, e fiz as coisas que faço no piloto automático e quando dei por mim já estava chegando no parque. Durante toda a semana fiquei fantasiando essa ida no parque, precisava de uma caminhada, só eu meus pensamentos e minhas músicas. Foi aí que me toquei que tinha deixado o celular em casa.

Não costumo tirar o celular do bolso no metrô ou no ônibus, nem ouvir música. Tenho medo de me roubarem. Foi só quando estava chegando ao parque que percebi que estava sem ele. Entrei em pânico. E se alguém me ligasse? E se fosse importante? Se alguém da família passar mal? E se tiver alguma emergência no trabalho? E se minha mãe achar que eu bati a cabeça e não estou atendendo porque estou desmaiado no chuveiro?

Outros questionamentos e situações hipotéticas absurdas se seguiram até que eu me acalmasse. Comprei uma água e tentei começar a caminhar. Que sensação esquisita aquela, caminhar observando as pessoas, o próprio parque, a beleza daquele dia. Normalmente passaria por tudo aquilo olhando, mas sem ver. Pela primeira vez nos últimos anos, não precisei me preocupar em fazer check-in no foursquare, nem twittar sobre estar caminhando no parque, muito menos tirar uma foto para o Instagram e compartilhar no Facebook.

Eu estava maravilhado.

Era um sentimento de liberdade que eu já tinha esquecido que havia sentido. Eram apenas eu e meus pensamentos. Com o meu celular seria “minhas redes sociais e meus pensamentos”, e cara, era muito diferente. Já li vários textos na internet falando sobre como estamos presos à necessidade de compartilhar e sempre achei tudo isso uma baboseira tremenda. Até esse dia no parque.

Depois da caminhada, fui até o mercado, fiz compras, conversei com um casal super simpático que me deu uma dica sensacional para o que fazer para um jantar especial. Voltei para casa com um genuíno sentimento de felicidade. Ao chegar, vi meu celular e… ignorei. E continuei ignorando o até o fim da tarde, quando liguei para minha namorada a convidando para um jantar aqui no meu apartamento. Vi algumas ligações perdidas, nada importante. Deixei os irritantes numerozinhos vermelhos de e-mails, mentions e mensagens no facebook para lá e fui cuidar do jantar.

Sem querer, saí da posição de refém do celular. Refém de ter que atender todas as ligações, refém de ter que saber de tudo o tempo todo, compartilhar tudo o tempo todo.

Percebi que grande parte das pessoas, incluindo eu mesmo, acaba vivendo e compartilhando uma vida que na verdade eles (nós) não aproveitam. Ficamos tão presos a certas coisas que nem nos perguntamos “tenho realmente que parar o que estou fazendo para atender aquele telefonema?” “Tenho mesmo que tirar uma foto desse prato?” “Por que eu preciso twittar o que estamos conversando, com quem estamos conversando e onde estamos conversando?”

Não. Não precisamos mesmo.


Crônicas do Cotidiano // A Bermudinha Azul

vergonha

Você tem algum momento particular da sua infância que ficou gravado na sua memória de tal forma que se lembra dos mínimos detalhes?

Eu tenho. Foi um dos momentos de maior vergonha da minha pequena vida até então. Foi quando eu estudei numa escolinha chamada AMEC, então eu estava no segundo período, ou no pré escolar. Tinha lá os meus incríveis 7 anos, na idade média eu seria quase um adolescente. Todo santo dia eu almoçava com a minha mãe e esperava o tio da Kombi, que infelizmente não consigo me lembrar o nome, nesse dia particular eu estava atrasado, algo aliás, que é uma constante na minha vida até hoje. Coloquei a “roupinha” entrei na Kombi do tio e fui feliz e fagueiro para a escolinha.

O que eu não sabia, é que meu short estava com um rasgo enorme na parte de trás.

Durante a ida para a escola, eu estava como sempre, falando, gritando, rindo, todo animado na Kombi. No meio do caminho percebi que as duas garotas mais velhas (uns 12 anos) estavam rindo desesperadamente de alguma coisa. Todo confiante achando que estavam rindo das minhas piadas, me senti encorajado. Sim, com 7 anos eu já queria “impressionar” com minha extrema inteligência, bom humor e simpatia. A gente usa as armas que tem não é mesmo?

Coitado.

Minha escolinha na época fazia com que todas as crianças subissem para o pátio antes da aula começar para cantarmos o hino nacional – as escolas ainda fazem isso? -. Foi por causa do hino e por causa do imenso rombo que tenho no braço que aprendi qual é o meu lado direito e qual é o esquerdo. O Rombo caso não saiba é fruto de uma operação que fiz com 6 anos, que foi meio louco, pois uns médicos diziam ser câncer, outros diziam que era câncer e que eu tinha só mais uns 2 anos de vida. De qualquer modo, era uma pinta chata que entre idas e vindas deixou um rombo no meu braço direito. E como eu me confundia feito louco – pra mim não fazia a menor diferença saber que lado era qual -, a “Tia” falou que na hora do hino eu devia levantar o braço da cicatriz. Nunca mais esqueci.

Antes de ir cantar o hino, a gente deixava nossas coisas nas nossas carteiras e corria lá pra cima. Foi aí que percebi que as risadas que me acompanharam durante todo o caminho até a escola, e depois até a minha carteira, não eram provenientes de um dia muito bem humorado de todos. Acho que foi a Rafaela que acabou ficando com dó e me contando que eu estava com a “bermudinha” rasgada. Era uma bermudinha azul, me lembro agora. A Rafaela era legal, filha de uma professora nossa, então ela meio que se sentia responsável e tal. Estudei com ela depois no fim da carreira escolar, namora com o Ítalo até hoje eu acho. Gente fina demais. Ajudou muito no início desse blog.

Estou me desviando de novo. Acho que é por que foi muito traumático, sabe aquelas coisas que os psicólogos falam? De bloqueio e tal.

A notícia caiu como uma bomba pra mim. Rapidamente coloquei a mão “lá atrás” e um dos maiores horrores que uma criança poderia ter tinha virado realidade quando constatei que havia um rasgo imenso na bermudinha azul.

Sentei.

E me lembro de ficar olhando para o vazio torcendo para o mundo acabar ali mesmo, naquela hora. Queria me enfiar num buraco e não sair nunca mais. Eu me recusei a levantar. Enquanto todos seguiam para o hino eu fiquei lá. A professora, o resto dos coleguinhas malditos que riam até as tripas, todo mundo tentou me convencer e eu só falava que não saia dali por nada no mundo.

Chamaram a coordenadora. Ou outra professora mais chata. Sei lá. Devia ser coordenadora mesmo, que pra mim sempre foram piores que as diretoras. Dona Ilca – que tem um nome que eu nunca vou esquecer na vida, pelo fato de parecer LTDA que até uns 14 anos foi um mistério inacreditável pra mim. LTDA que pra mim era Íltida. – era uma diretora bacana. Exceto pela vez que eu cortei o dedo do Marcelo de fora a fora com uma tesoura no pré, e quando me acharam no banheiro das meninas de cueca, acompanhado de mais três meninas de calcinha. Nessas vezes aí ela ficou possessa comigo. (Citando essas histórias agora, sinto que devia contá-las depois.)

A coordenadora chegou, puta da vida, gritando comigo me mandando levantar e perguntando porque diabos eu não estava lá em cima. Eu só lembro de responder calmamente “Não” e “Porque não”. Até que ela foi lá fora mais uma vez e aparentemente descobriu o problema. Não sei se seria possível, mas ela parece ter ficado mais brava ainda. Que era besteira, que não sei o que, e que era pra eu ir pro banheiro e que esperasse ela lá, que ela iria costurar minha bermudinha azul.

Peguei um caderno, fiquei segurando atrás e tampei o rasgo e fui até o banheiro. Ela chegou lá e mandou eu tirar a maldita bermuda. Tinha tato com crianças não? O tempo todo que ela ficou costurando a bermuda ela me xingou. E eu chorei. Pra caralho se me lembro bem.

Mulher filha da puta.

Como diabos eu deveria me comportar? Ninguém ensina isso pra gente quando se tem sete anos. A vergonha que eu senti foi gigantesca. E ficar ali de cueca, na frente da coordenadora costurando a peça de roupa sem vergonha que causou aquilo tudo, foi demais. Enquanto todos lá em cima cantavam o hino.

Ela me deu a maldita bermuda e saiu falando que era pra eu ir direto pra sala. Conferi a costura, iria dar. Vesti a bermudinha e fui pra sala. Antes da primeira aula terminar eu já estava fazendo minhas besteiras normalmente. Porque é assim que criança é.

Mas eu nunca esqueci.


Music is Very Porreta // 366 Motivos para gostar de música

Eu nunca aprendi a tocar mais que três notas num violão, nunca fui afinado – apesar de, pasmem, eu ter cantado no coral da escola quando era pequeno, e cantar em latim era irado -, nem nunca tive pretensões de ser. Inclusive fui recusado em aula de canto quando tinha uns 14 anos porque eu era sofrível. Não consegui fazer o UuUuUuuuUuUUuuuU que o cara pedia. Meu irmão Mateus, ao contrário de mim nasceu artista. Ele se formou na Belas Artes da UFMG, toca qualquer instrumento, canta, sapateia, etc.

Em proporção, existem um Mateus para cada sei lá, milhares de Pedros. Mas isso não quer dizer absolutamente nada. Eu consigo gostar, sentir e principalmente me emocionar com música tanto quanto meu irmão que toca, cria, compõe. Eu sempre digo, não é porque você não sabe uma coisa que você não pode gostar e principalmente criticar aquilo. É o famoso “eu não preciso ser bonito para achar alguém feio”.

Eu já tentei várias vezes colocar em palavras o que uma música, ou a Música, faz comigo. Acho que se juntarmos tudo que escrevi sobre o assunto e todos os adjetivos que já usei não conseguiria exemplificar 1% do que realmente a música mexe não só comigo, com todo mundo.

Ela é a sua companheira quando você está triste, quando terminou com a namorada. Ela te acompanhou durante todos os momentos felizes. Outro dia tracei um paralelo entre a nossa playlist e a nossa vida. O que estamos escutando condiz muito com o momento que estamos vivendo. E se você é nostálgico como eu, e quer reviver na memória alguma coisa que já viveu, é só ir lá na biblioteca do iTunes e dar o play naquela música. O iTunes para mim, na maior parte do tempo é como um grande repositório de memórias e experiências que tive na vida.

Um exemplo? Enquanto escrevia o parágrafo aí de cima, o shuffle me mandou para Infinita Highway do Engenheiros do Hawaii. Eu me lembro com detalhes assustadores do dia que comprei um ao vivo do Engenheiros com o nome dessa música. No dia que eu comprei o disco (era dia de gincana no colégio) eu estava junto com Aylsson, colega de sala. Comprei na mão do Nozinho, eu estava de calça jeans clara e uniforme do colégio. Eu devia ter uns 15 anos.

Quer ver mais um exemplo do que eu considero a música em sua essência mais pura e mágica, e que inspirou esse texto todo para defender um ponto. O nome desse exemplo é o Nick Ellis, um dos caras mais legais da “internet”. Conheci o Nick por causa do Digital Drops – site que me transformou em uma espécie de “guru” de gadgets para os amigos e parentes – e depois pelo Nerdcast. Eu que já tinha uma mega admiração por ele, e esse sentimento cresceu ainda mais com o Projeto 366 músicas.

É tudo bem simples. Desde o dia 1 de Janeiro de 2012, ele está tocando, gravando e upando para o Youtube uma música. Estamos na música 282. Além de atentar para o fato que falta 74 dias para o mundo acabar, quero que você entenda o porque de eu achar genial o projeto. Nick Ellis é um mega cantor, faz miséria no ukulele ou no violão, afinado e tal, que faz aqueles vídeos que ganham o mundo?

Não. E é exatamente aí que está toda a mágica do negócio. Não importa as habilidades dele como músico, essa nunca foi a intenção ou pretensão. O que o Nick está fazendo, é aquilo que todos nós “Pedros” fazemos quando estamos sozinhos, quando estamos com o fone de ouvido cantando fingindo estar em cima do palco. Estamos expressando a nossa paixão por uma música ou pela arte, estamos sentindo e colocando esse sentimento pra fora.

Não é qualquer um que tem a coragem de colocar isso para todo mundo ver, e muito menos a força de fazer isso 366 vezes. É simplesmente mais um apaixonado por músicas incríveis mostrando o amor que tem por elas. Para mim isso é o que faz da música uma arte. Explorada e sentida por todos nós.

Para você entender isso melhor, fiz algumas perguntas para o próprio Nick Ellis, que apesar de torcer para o Fluminense, é de fato um cara legal. E a primeira coisa que perguntei, foi da onde ele tirou a ideia de tocar, gravar e postar uma música para cada dia do ano. Ele disse que sempre quis tocar as músicas favoritas dele e colocar no Youtube, só para os amigos. Mas ele morria de vergonha, então nunca passou da vontade. Até surgir uma motivação para que a música o ajudasse a passar um momento difícil:

No final do ano passado eu me separei, e o 366 Músicas nasceu com o propósito de me ajudar a superar este momento conturbado, algo que ele conseguiu fazer com méritos. De certa forma, você poderia dizer que o 366 é uma forma de terapia para mim, a diferença é que ele é muito mais efetivo em me ajudar do que qualquer psicólogo.

Quando começamos um projeto, às vezes, não temos a noção do tamanho que ele pode ter. Então quis saber do Nick se ele tinha alguma ideia, da “loucura” que é gravar uma música todo dia. E também se ele chegou a pensar em desistir do projeto.

Não tinha idéia do trabalho que ia dar. Alguns dias eu fico mais de 2 horas ensaiando e tocando até conseguir cantar aquela música específica que eu escolhi. Pensei em desistir em setembro, quando enfrentei uma situação bem complicada na minha vida, mas o meu irmão não me deixou parar de gravar.

O 366 é um projeto que me faz muito bem, mesmo que eu esteja triste ou deprimido e que pareça ser impossível cantar uma música, ao terminar a gravação estou sempre me sentindo melhor do que antes.

Imagine fazer um Top 366? Eu não consigo. Toda vez que vou para a academia, tento fazer uma lista de 50 músicas, nunca fui com menos de 80. Sempre tem mais uma para colocar. Então quis saber também como ele escolhe as músicas do proejto.

Existe uma lista que preparei com várias sugestões, mas na maioria dos casos, escolho a música 5 minutos antes de começar a ensaiar. Algumas músicas são escolhidas pelas lembranças que elas me trazem, outras eu simplesmente escutei naquele dia e fiquei com vontade de cantar.

Toda a introdução desse texto e todo o objetivo final dele culmina na próxima pergunta, e obviamente na resposta. A arte, ou uma forma dela como a música, não pode se prender à certas amarras, pode e deve atingir todo mundo, de todas as formas possíveis. Seja você construindo ou agregando, seja recebendo ou assimilando. Perguntei então ao Nick se todo mundo entendia o que significava o 366.

Acho que a imensa maioria das pessoas não entende o 366, incluindo aí meus amigos mais próximos e parte da minha família. O projeto foi criado para fazer sentido para mim, para ser uma válvula de escape, sabe?

O 366 Músicas faz muito sentido para mim também. Conheci o projeto na Música 24, Father & Son. Eu já escrevi sobre o Cat Stevens aqui, e o tanto que essa música significa pra mim. E foi o grande motivo pelo qual me apaixonei pelo projeto.

Ele gravou a música, em homenagem ao pai, tocando ao lado dos filhos.

Entende agora?

Para terminar, perguntei ao grande Nick Ellis o que ele pretende fazer no fim do projeto. Se ele vai contar as experiências, a transformação que o 366 fez com ele. Para minha e a nossa alegria, ele respondeu assim:

Penso em escrever um livro sobre a minha experiência, mas antes disto, vou fazer uma segunda temporada no ano que vem, com mais pelo menos 365 músicas.

731 músicas. Veja os vídeos do Nick, cante junto com ele.

Comente aí também sua relação com a música, o que você gosta, cada um tem uma relação diferente. Quem sabe não rende mais um texto com seu depoimento?


Sociedade Alternativa // Descoberta no Brasil a Árvore que faz nascer dinheiro

Outro dia li, ou vi, uma reportagem falando sobre o preços e valores dos carros no Brasil em comparação com países do mundo todo. Todo mundo sabe que os preços aqui são absurdos, e que a “palavra” das montadoras/revendedoras é a do imposto e etc. Ok. Mas nessa tal reportagem o pessoal resolveu fazer as contas tirando os impostos, e não foi surpresa nenhuma quando constataram, que sem impostos os valores aqui no Brasil continuam absurdos.

Sabe por que?

Porque o povo paga. Sim, essas foram as palavras de um dos caras na entrevista. Ou seja, só cobram caro porque os otários aqui pagam. Parabéns para todos nós.

Hoje mais cedo, pipocou em todo lado gente falando do Chupameupallooza, aquele festival descoladaço da galerinha cool com as melhores bandas chatas que vai ter de novo aqui. Em um texto vindouro, explicarei porque acho esses festivais um pé no saco e um desserviço à música. O ponto central é que ninguém vai mais em festivais por causa da música. Nego vai é para falar que foi. Fazer check-in, tirar foto e colocar no instagram e falar que o pé ficou doendo. Mas esse é assunto para outro texto, porém o ponto central é valido para essa discussão também.

De qualquer forma, li hoje o texto do amigo e chará Pedro Zambarda. O ingresso para você se ferrar junto com milhões (abraço Sr.K) de outros idiotas, tava saindo por R$900,00. NOVE (pausa) CENTOS PAUS! Quanto custa ser cool hoje em dia? Não sei, mas sei que os ingressos se esgotaram em 16 horas segundo o texto do Pedro. Se em Brasília dez é nove, no mundo lilás, verde e laranja desbotado é um pouco menos.

Sabe por que?

Porque o povo paga.

Mesmo antes de eu começar a namorar a Ingrid, nós sempre quisemos ir juntos à Campus Party. Ficou sempre na promessa e a gente nunca foi. Ela foi uma vez, eu nunca. Sempre fui péssimo para comprar as coisas antecipadamente, e como hoje em dia, só é mais cool que a galera que vai a festivais são os “nerds”. Quanto mesmo custa ser cool? Custa bastante. A Campus Party, idealização do espanhol Paco Ragageles que deu alguns detalhes no Nerdcast sobre o evento, sempre foi um evento meio que de nicho. Porém nos últimos anos ficou popular e o público (juntamente com a arrecadação) aumentou exponencialmente.

Me estranha muito o valor do ingresso ter subido quase 200% desse ano para o ano que vem. Yep. De R$180,00 para R$450,00. Lei da oferta e da procura? Pode ser. Mas não sei se concordo muito com um evento que quer ser tão “aberto”, que quer tanto “compartilhar”, “agregar” e tantas outras palavras bacanas precisa cobrar esse preço, e de um ano para o outro. Isso porque não é só o público que aumentou. Já teve a Campus Party Recife esse ano, e eles tem intenção de fazer em mais cidades.

Não sei se você sabe, mas o valor do ingresso é o que menos é levado em conta na planilha de um evento desse tipo. Quem paga o evento são os patrocinadores, sempre. Um evento como a Campus Party já se paga sem que um indivíduo sequer compre um ingresso. Então porque esse aumento absurdo de um ano para o outro? Ué, faça as contas. E se pergunte novamente.

Sabe por que aumentou tanto assim?

É. Isso mesmo. Porque a gente paga.


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