Sou ratinho mas sou limpinho


Tommy, ou OE5380-3 (ele preferia Tommy), era um ratinho branco de olhos vermelhos muito curioso. Ele era um rato de laboratório, nele eram testados diversos medicamente e produtos criados por médicos e cientistas. O objetivo dos testes era obviamente para saber se as fórmulas atingiam seu objetivo final ou não. Tommy era um ratinho bem do orgulhoso do seu trabalho. Tommy ajudava, de certa forma a salvar vidas.

Mas Tommy, assim como seus colegas, não eram de todo bobos. Eles não iam entregando a saúde deles assim de bandeja. Haviam exigências, ora. Os animais – todos eles – deveriam ser tratados da melhor forma possível. Deveriam viver em ambiente climatizado, biologicamente controlado, com refeições e sendo tratados na maior educação. Afinal, estavam ali dando suas vidas em prol da humanidade. Nada mais justo que viverem sua vida da melhor forma possível.

Quando foi contratado, ainda jovem, foi dada a Tommy a escolha. Trabalharia em tempo integral no laboratório, ou iria para fora. Alguns escolhiam a liberdade – e ele não negava, sonhava com ela às vezes – mas ele temia um pouco a liberdade. Nascido para ser um rato de laboratório, ele cumpriria seu objetivo com dignidade. Nada era escondido dele, sabia dos riscos.

Tommy gostava da rotina do laboratório. Corria num labirinto aqui, fazia testes, e depois era liberado para ler um livro, ver um filme ou ouvir o papo dos funcionários – coisa que ele mais gostava de fazer no tempo livre. A principal história do momento eram os recentes protestos país afora, e também o papo de que um dos diretores estava se pegando com uma secretária. Diziam que ele ia largar a esposa e tudo. Às vezes eles davam umas coisas estranhas a Tommy. Ele vomitava, passava mal. Chegara a desmaiar uma vez. Ossos do ofício.

Nem sempre era uma bad trip porém. Tommy curtia as boas. Teve uma vez que ele viu um gnomo por 3 semanas. Ficaram amigos. Ele ainda se sente triste pela partida do amigo vestido de irlandês.

Às vezes Tommy se sentia sozinho e pensava na liberdade. Sentia o coração apertado pelos amigos grandes que os humanos chamavam de cachorros. Lindos, porém extremamente burros coitados. Criaturas que viviam guiadas pela emoção. Tinham olhos tão tristes e bonitos, pensava Tommy com tristeza. Eram tão apegados aos humanos. Faziam tudo por eles.

Eram até mais bem tratados que os ratos, tão mais inteligentes. Talvez por serem mais simpáticos e emotivos. Tommy entendia. Não sem sentir que o mundo no fim das contas era um pouco injusto.

Há alguns dias o pequeno ratinho sentiu um frio na espinha que só sentiu uma vez quando viu um gato de longe. Funcionários falavam em invasão, violência, estupidez. Temiam pelos bichinhos e pelas pesquisas. Tão trabalhosas. Tinham medo também porque sabiam que as pessoas normalmente não os entendiam, os viam como monstros. Podia ficar ruim a coisa.

Uma noite Tommy ouviu muito barulho, e muita gritaria. Humanos, humanos para todo lado, gritando! Tommy não ficou com medo. Pelo contrário. Sentia uma revolução ali. É! Chega com os testes! Viva os animais! Não podemos mais nos submeter a isso. O discurso dos jovens ativistas era cativante. Tommy não conseguia se segurar na sua gaiolinha. Via os humanos libertando os cachorros, que tadinhos, estavam sem entender uma virgula daquela confusão toda.

Os humanos teriam que achar outros meios. As doenças deles eram problemas deles. Não é mesmo? Tommy se sentia corajoso. Queria enfrentar a liberdade! Arrumou suas coisas – não era muito –  e agarrou-se às grades, esperando a sua vez. Quase todos os cachorros estavam livres agora. Fazia sentido, afinal não entendia o que se passava. Tommy e seus amigos poderiam seguir ordens e ir tranquilamente para qualquer veículo de remoção que estivesse por ali.

Tommy nunca se sentiu tão excitado na vida.

Todos os cachorros estavam livres agora. A qualquer momento ele experimentaria o “mundo lá fora”. Que humanos incríveis aqueles. Arriscar suas vidas para salvar os animais dos testes que ironicamente salvavam a vida deles. Seres tão generosos. Abdicar da própria existência futura em prol dos animais. O amor de Tommy era tanto que ele… sentiu ainda mais orgulho de estar ali para salvar os humanos.. mas.. estranho.

Sentimentos conflitantes.

ratinho

Porém ninguém veio buscar Tommy. Nem ele nem seus iguais. “Ué”, pensou Tommy. Mas.. não iriam salvar os animais? Será? Não.. não era possível. Será que por animais eles queriam dizer apenas os cachorros? Mas ele era um mamífero também. Bebeu tanto leite das tetas da mãe quanto um humano.

Tommy por fim entendeu. E entristeceu-se. Era melhor que nada daquilo tivesse acontecido. Ao conhecer a natureza preconceituosa e mesquinha daqueles humanos, de repente não se sentiu mais tão feliz assim em fazer o que fazia. 

Os humanos não entendiam era nada. Por isso concordava com aquele autor que dizia que eles eram apenas a terceira raça mais inteligente do planeta. A vida iria continuar. Não por muito tempo, mas iria continuar.

Melhor era dormir, porque amanhã temos que trabalhar. Principalmente com a enorme falta de efetivo.

Tommy desfez sua trouxinha e foi dormir.

*Dedicado ao Lucas Ed. aka Poderoso Porco que postou a imagem que ilustra o texto no facebook e me deu a ideia para escrever. 

Pedro Turambar

Já fui de um tudo nesta vida, mas há uma coisa que nunca deixei de ser: escritor. Escrevo para viver e manter minha sanidade em um mundo tão louco. Sou uma mistura de palavras, lágrimas e reclamações.

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2 Comentários

  • Carlos
    30/10/2013 at 16:53

    que texto idiota e inútil.. nem sei como vim parar aqui nesse blog, mas já tô indo embora

    • Pedro Américo
      06/12/2013 at 01:33

      Que comentário inteligente e esclarecedor! Nem sei como pude viver até agora sem ler tamanha sapiência… agora fico aqui pra sempre.

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Pedro Turambar

Pedro Turambar

Gosto de escrever, reclamar e não tenho controle sobre chorar. Escrevo há 10 anos sobre a loucura de viver em sociedade, futebol e falo bem e mal das coisas que leio, vejo e ouço.

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