Crônicas do Cotidiano // Crônica: Antônio e o Dinheiro
Financeiramente a vida de Antônio andava mais feia que mudança de pobre. O homem tinha que ter mais ginga que pato solto em galinheiro pra fazer a feira do mês. Mas tudo mudou naquele dia. Resolvera pegar um desvio para o trabalho. Achou que faria bem em passar pela ruela atrás da igreja. Ledo engano. Sem dar mais que dez passos, Antônio se depara com uma cena estranha. Um envelope rasgado no chão e várias cédulas espalhadas ao lado. Uma nota de cinquenta. Cinco notas de dez. Antônio fez um cálculo mental e logo concluiu que achara cem reais na rua. Cem reais. Puta que o pariu, pensou. Era o seu dia de sorte. Antônio apanhou o dinheiro, não sem antes olhar para o lado e verificar se havia alguém o espionando. Afinal de contas, cem reais era um dinheiro considerável. Não era todo dia que se achava uma quantia em dinheiro assim, ao léu, no vento, sem lenço nem documento.
Nesse dia Antônio não foi trabalhar. Afinal de contas, havia achado cem reais, várias notas. Podia ser incriminado. Podia ser uma conspiração do sistema, para provar a honestidade das pessoas. De qualquer forma, achado não era roubado e ele ficaria com o dinheiro. E ponto. Se trancou em casa. Ficou várias semanas sem sair. Espiava pelas frestas da janela. Qualquer um podia ser um suspeito. Um agente em potencial. Alguém do sistema, atrás dele. Não atendia mais a telefonemas. Correspondências nem pensar. Emails, em hipótese alguma.
***
Começou a arquitetar planos, soltando gargalhadas estilo muahaha durante a noite, como gastaria o seu dinheiro. Fazia planos. Talvez comprasse um barbeador elétrico. A barba de semanas sem fazer já o incomodava. Acabou enterrando o dinheiro no quintal. Desfez-se do envelope (leia-se: queimou no fogão). Antônio não tinha mais vida. Vivia em função do dinheiro achado.
A namorada desistiu de tentar entrar na casa. Achou que Antônio tinha morrido e arrumou um negão daqueles que dançam e tremem na Emitivi. Sua mãe foi à sua porta. Afinal, há 2 meses não comparecia aos almoços familiares de domingo, religiosamente frequentados por ele. Queria saber dele. É claro que não respondeu. Sabia que era alguém se passando pela senhora que o tinha botado no mundo. O seu patrão, depois de alguns dias tentando contatá-lo, sem obter resultado, o deu como morto.
Antônio gastou toda a sua poupança comprando mantimentos para sua base. Pela internet é claro, nada de sair de casa. A sua casa. Seu quartel. Depois de seis meses. Concluiu que a poeira já havia baixado. Desenterrou o dinheiro (que estava debaixo do pé de manga), e resolveu usufruir dos seus benefícios.
***
Lista de compras do Antônio, cedida gentilmente pelo sistema de probação de honestidade pública, um setor altamente secreto do governo:
-Uma caixa de cigarros “Oliú” – 25 reais.
-Um sorvete de côco na Sorveteria Pantagelis – 2 reais.
-Impressões de currículo, para a procura de um novo emprego – 10 reais.
-Um caldo de cana na Rua da Bahia- 1 real.
-Um DVD pirata de James Bond 007, Cassino Royale – 5 reais.
-E um vinho Francês – 45 reais -, que bebeu sozinho em casa, fumando os cigarros comprados, degustando o fato de ser tão sortudo. Ficava no sofá, rindo sozinho. E às vezes falava para si mesmo, 100 reais. Puxa vida…
Os dois reais que restaram? Antônio doou à igreja onde tinha achado o dinheiro, como agradecimento. Afinal, Antônio era um sujeito do bem.
***
Dona Maria, empregada doméstica, senhora respeitável, já de idade, até hoje se queixa para o marido: “Maldito dia em que perdi aqueles cem reais! Passei aperto durante um mês inteiro!”. E ele murmura: “Pelo menos o seu dinheiro fez alguém feliz”.
***
Eram os dois, velhos, numa festa de aniversário de uma funcionária da firma. Aroldo toma um gole de chope e de repente, para, e diz:
-Olhaquilalí Humberto. Olha só que coisinha rapaiz…
-É Aroldo. Realmente é uma moça muito garbosa. Muito diferente daquele elefante sem rabo ali no canto.
-Bunita Humberto? Para cum isso Humberto… Aquilalí é um pitelzinho rapaiz. Olha aquelas perna Humberto. Olha a pintinha em cima da boca Humberto. E depois o povo reclama quando se comete estupro. Elas que provoca! Ah! Isso sim! Quem provoca são elas!
-Sei Aroldo… Pega aí pra mim – disse apontando para algum lugar.
-O quê? A muié?
-Não! O chope porra!
-Ah. Taqui – e volta olhar para o salão – Humberto, olha só aquela bunda! Omahnomanohn! Aquela ali deve que paga IPTU só pelo tamanho da bunda.
-Olha a sua idade Aroldo, você tem é cinquenta anos, rapaz. Um cara casado, com filhos, se prestar a esse tipo de comentário.
-Tenho cinquenta e ela continua sendo gostosa do mermo jeito. Olhaqueli umbigo Humberto! Ah não! Umbigo não. Aí já é dislealdade! Eu vou lá nela.
-O senhor não vai a lugar nenhum e pode tratar de ficar aí. Toma um gole do seu chope e se segure. O que é isso rapaz? Parece até tarado, porra!
-Olha lá ela! Ela tá vino Humberto! Ela tá vino! Você me segura que eu pulo! Me segura, pois não me responsabilizo pelos meus atos!
Mas Humberto, aleijado que era, não segurou, pegou as muletas e se levantou da mesa. Nem Aroldo pulou. A moça passou. Ele deu um gole no copo e acendeu um cigarro.
***
Não. O final da crônica com os velhos não faz sentido nenhum, mas porra, você quer que tudo na sua vida faça sentido? Vá se foder.



