Visitas


“Não posso, tem visita aqui em casa.” Essa frase é, para mim, uma das maiores provas de que a humanidade deu errado. Veja bem, eu era uma criança independente, saia de casa e ia explorar meu mundo. Quando meu pai construiu nossa casa no bairro Lucília, era uma das primeiras lá, o resto todo era um grande terreno baldio. Eu acredito que estou em posição de dizer que conheci, durante um certo amontoado de tempo, todos os profissionais da construção civil de Monlevade. Saía de casa e logo me apresentava para o primeiro que via “Oi, eu sou o Pedro Américo Henriques…”

Dizem que eu entrava na casa das pessoas, ia todo conversado e conversando. Não tinha o menor pudor, nem me sentia diferente da Gente Adulta. O efeito colateral intrínseco à minha personalidade era, portanto, o topete. Ai de quem tentasse, à força principalmente, me convencer de algo que, na minha cabeça, não fazia sentido. E olha que cabeça de criança, quase nada faz muito sentido.

Por exemplo, eu nunca entendi, desde àquela época, porque diabos as pessoas tinham que dormir antes de uma viagem. Com exceção óbvia ao motorista e isso não me importava já que eu, com seis anos, só era amigo de passageiro. Você não faz (nem pode) nada, absolutamente nada, em uma viagem. Olha a paisagem, olha pro banco, olha pro irmão, respira fundo, sente calor. Repete até chegar. Sabe o que as pessoas poderiam fazer com esse tempo? Dormir. Essa lógica não fazia, não faz, nem nunca fará sentido pra mim.

O que nos traz de volta à tal da visita. Direto e reto (as pessoas falam isso fora de Monlevade?) ia visita lá em casa. Ninguém visita criança. A não ser, é claro, quando ela nasce. Adulto se importa mesmo é com adulto. Eles que se entendam, pensava eu, não tenho nada com isso. Quando ia gente lá, eu adorava. Significava que eu estaria livre para ir aonde quisesse. Sentia pena mesmo dos meus pais, por ter que cumprir esse protocolo social sem sentido.

Se você faz uma “visita” à casa de alguém é porque você não tem intimidade o suficiente para se sentir em casa. Isso quer dizer, na minha lógica, que nem você quer ir, muito menos o outro quer te receber. Mas, por alguma convenção místico-filosófica-astral, você é obrigado a ser um, ou outro nessa história. Já reparou como ninguém se sente lá muito bem? Ao colocar uma qualquer nome sob a alcunha de visita, automaticamente um elefante branco se materializa no local.

Awkward

Apenas vá na casa de um amigo, ou não. Faça o que quiser, só não coloque na jogada, também, esse pobre animal exótico, e muito tímido.

 

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1 comentário

  • rafabarbosa
    04/05/2015 at 14:29

    Acho que nunca usei a expressão “fazer uma visita”. Eu simplesmente ia na casa de amigos e as ~visitas~ simplesmente iam lá em casa.

    É uma situação engraçada. Ainda mais quando se tem que falar para outra pessoa o motivo pelo qual vc não pode sair no momento hahahahaha.

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Pedro Turambar

Pedro Turambar

Gosto de escrever, reclamar e não tenho controle sobre chorar. Escrevo há 10 anos sobre a loucura de viver em sociedade, futebol e falo bem e mal das coisas que leio, vejo e ouço.

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