Xixi ou Morte?


Quase todos os dias eu tenho que tomar uma decisão bem séria: Xixi ou Morte?

Mas antes de falar disso eu preciso contar um caso antigo. O dia em que dois amigos foram “presos” e eu quase fui levado para delegacia por urinar (usando um termo científico) na rua.

Lá pelos idos da adolescência, fomos até a casa de um amigo comemorar o aniversário dele. Caso você não saiba, é comum no interior as pessoas começarem a beber cedo. Meu primeiro porre, por exemplo, foi aos 11, bebendo cerveja num bar como uma pessoa qualquer. Eu devia ter uns 17 na época do caso. Bem, bebemos. Muito. Sabe como é, adolescente tem essa coisa do exagero.

O problema é que esse amigo não aguentou por muito tempo a fome (ou sede) da galera e deu um perdido. Quem avisou foi a mãe dele, já vestida para dormir, que ele havia deitado e sucumbido ao sono. Resignamos e fecharmos a conta. Não antes de uma ou duas saideiras.

A saída foi apressada e ninguém foi ao banheiro. Biologicamente é impossível manter tudo dentro do corpo. Já na rua, tal qual uma catarata, a vontade veio. Parei em frente ao portão de uma outra casa, residência de um ex-amigo, e resolvi me aliviar ali mesmo. A casa ficava no fim de um pequeno morro e lá no alto, reparei um par de luzes. Pensei comigo “imagina se é o dono da casa…”

Ouvi o carro parando atrás de mim. “Fodeu” foi uma das coisas que passaram pela minha cabeça. Eu só não sabia o quão fodeu tinha sido, já que o caro que parou atrás de mim era uma viatura policial. Encarei o portão quando ouvi. “OU! Essa casa é sua?”, olhei para trás, já terminando o que tinha feito e falei “Não”. “Então que porra é essa?! Cê ia gostar que mijassem na sua casa?”. Respondi o mesmo não de antes.

Eles resolveram que não valeria a pena fazer toda uma operação por causa de um adolescente fazendo xixi. O carro seguiu e virou a esquina. Eu, já terminado, fui na mesma direção.

O que sucedeu aconteceu como num filme.  Desci o resto do morro, virei a esquina e minha mente registrou: dois amigos mijando, um esperando, policiais gritando e uma sensação horrível de vai-dar-merda. Tudo isso em meros segundos.

Ouvi: “PODE PARAR COM ESSA MIJAÇÃO AÍ, PUTA QUE PARIU. TODO MUNDO ENCOSTANDO NA PAREDE”. No meio da frase, eu tentei me virar e voltar, mas o Sr. Polícia Número Um já emendou um “VOCÊ TAMBÉM!”. Obedeci, né?

Depois disso, foi o procedimento de sempre. Número Um estava bem exaltado, enquanto Número Dois vasculhava nossos bolsos sem nenhum, digamos, carinho. Pediram identidade e eu não tinha. “Fodeu” nem passava mais pela minha cabeça, parecia estacionado lá, escrito em neon. Eu e o Não Mijão éramos menores, mas eu não tinha como provar.

Tudo corria quase normal, mas um deles resolveu que precisava de uma arma. Sr. Número Dois, cá entre nós, não havia necessidade de pegar uma metralhadora no porta-malas.

Um dos amigos, resolveu se rebelar e começou a trocar “rebeldias” com o policial. “Fodeu” brilhava intensamente na minha cabeça. Teve tapa, teve defesa do outro maior de idade, teve mais tapa, chute e o Número Dois com uma metranca na mão.

A discussão não parou e Número Um, que parecia mais inofensivo apesar dos tapas, deu voz de prisão (sempre quis escrever isso), e pegou o primeiro pra levar pra delegacia. Eu, ainda com as mãos na parede, aparentemente tentando me fundir a ela, mal respirava. Com um tentando defender o amigo “preso” ele acabou sendo levado também.

Número Um então se lembrou de mim, mandou eu ir até lá e me pediu a identidade. Eu disse que era menor e ele não resolveu acreditar. Mandou a gente ir pra casa e levou os caras pra delegacia. “Fodeu” começou a dar umas piscadelas, mas ainda brilhava muito. “Porra cara, meu irmão foi preso, puta que pariu, vamo embora. Minha mãe vai ficar louca.”

Como se tivesse sido acordado por essa frase, fui embora com meu amigo que tinha um “fodeu” brilhando como 10 sóis na testa.

Desde esse dia, criei um medo de me encontrar numa situação em que eu possa chegar a isso novamente. Quando me mudei para Belo Horizonte, estudei na Una, Campus Buritis. Lá perto tem um parque e na frente do parque há passeio que conta com uns jardins suspensos. Falando assim parece algo legal.

Não é.

Acontece que, talvez a prefeitura tenha construído o melhor banheiro ao ar livre das Américas.

Todo mundo que estuda ou estudou naquele campus acabou fazendo um pit stop ali. Correção, todos homens. O problema maior não é a falta de educação, ou empatia com quem mora ali ou tem que fazer o caminho todos os dias.

O problema maior é o nojo mesmo.

Homem já tem um problema intrínseco com higiene no geral. Pintos caem aos montes no Brasil, todo ano, por causa disso e, recentemente, houve uma campanha para que homens lavassem o ânus, algo que, para o meu terror, parecia não acontecer regularmente com a maioria.

Acontece que, atualmente, moro logo após esse mesmo parque. E, da forma, como a coisa é construída, eu tenho que escolher entre o xixi (passando pelo caminho à direita) e a morte (em meio a carros ônibus e carroças em velocidades absurdas).

Veja o desenho (bastante rudimentar):

Minha esposa é corajosa, nem titubeia, escolhe (e vence!) a morte todos os dias. Já eu, sou mais cagão, ou mijão.

Eu que defendo que o homem não deve só lavar as mãos DEPOIS de urinar, mas ANTES também. Já viu o tanto de coisa que a gente passa a mão e em seguida coloca a mão no pênis (termo científico pra pinto)?

Quem dos leitores homens nunca passou a mão numa bandeja de shopping e foi no banheiro depois? Lavou a mão antes? Já viu o teste do Fantástico do quão nojento é bandeja de shopping?

Meu sonho é colocar uma placa amaldiçoada no local. “SE MIJAR AQUI O PAU ENCOLHE.”

O design eu já tenho, falta o feitiço.

Alguém conhece uma Magda aí?

Pedro Turambar

Já fui de um tudo nesta vida, mas há uma coisa que nunca deixei de ser: escritor. Escrevo para viver e manter minha sanidade em um mundo tão louco. Sou uma mistura de palavras, lágrimas e reclamações.

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Pedro Turambar

Pedro Turambar

Gosto de escrever, reclamar e não tenho controle sobre chorar. Escrevo há 10 anos sobre a loucura de viver em sociedade, futebol e falo bem e mal das coisas que leio, vejo e ouço.

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