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O Herói Silencioso e os Fardos Que Carregamos


Recentemente eu terminei o fantástico jogo The Legend of Zelda: Breath of The Wild. Eu sou completamente apaixonado pela franquia, pela Nintendo e claro, pela música desses jogos. Comprei um Nintendo Switch e tive uma overdose dos símbolos da empresa: Mario e Zelda. Esse último, me lembrou algo que sempre ilumina a minha alma: a aventura. O jogo em si é ótimo, mas eu não estou aqui para falar de mecânicas, gameplay ou mesmo o quanto eu odeio aqueles polvos que cospem pedras.

Eu estou aqui para falar de Link, Zelda e como a Nintendo conseguiu adicionar camadas de personalidade em personagens tão historicamente unidimensionais. O Herói Silencioso e a Princesa em Perigo.

Link – O Herói e Sua Espada Lendária

A premissa básica de quase todo jogo de Zelda até hoje foi a seguinte, “Link deve resgatar Zelda e salvar Hyrule das garras de Ganon.” Essa premissa não é diferente em Breath of The Wild, mas ela ganha algumas nuances que faz com que o equivalente a um cinema pipocão de aventura se torne um filme sobre angústias tão relacionáveis com nosso dia a dia.

No jogo, você acorda depois de 100 anos. Você ouve uma voz na sua cabeça lhe dizendo que está na hora. Em pouco tempo, descobrimos que a mensagem era de Zelda, a princesa que havia “se sacrificado” para contar a calamidade Ganon. Em termos de eu ser o jogador, eu sabia quem Link era, quem era a princesa e o vilão e sabia o que eu tinha que fazer. Enquanto isso, aquele garoto sem memória não sabia de nada.

Daí é que vem a mecânica no jogo que mudou tudo pra mim. Você recebe, logo de cara, as informações que você é um herói caído, que ficou num sono suspenso de 100 anos enquanto a princesa que você nasceu para proteger se sacrificou numa luta para que você pudesse destruir um demônio. Mesmo sem memória, e no início do jogo, recebemos a missão que é a última, derrotar Ganon.

O que eu sinto, é que Link meio que só vai, ele precisa descobrir o porquê de tudo isso e quem é ele nesta história. Numa das primeiras vilas, você encontra uma senhora que lhe dá outra missão: visitar locais específicos, espalhados pelo mundo para recuperar memórias perdidas.

O jogo, que até então não tinha me fisgado completamente, brilhou neste momento. Nesta memória específica Zelda, interpretada brilhantemente por Patricia Summersett, coloca pra fora toda sua angústia, sua dor e sua preocupação — quase à beira de um ataque de depressão. Ela carrega em si a esperança de todo um reino, é nela que reside o poder que deveria selar a Calamidade de vez, mas ela não consegue, por algum motivo, desbloquear esse poder. Suas orações, seus treinos e sua força de vontade não são suficientes. Link, por outro lado, ouve silencioso o desespero daquela que ele deve proteger, tão perdido quanto ela.

Essas memórias colocam tanta profundidade nestes personagens que me criaram uma angústia enorme. Eu sabia, de certa forma o que eles estavam passando e criou-se em mim uma urgência fora do normal de querer ajudá-los. E aqui entra, novamente, a atuação na voz de Patricia Summersett. Dá pra ouvir a dor de Zelda. Dá pra sentir seu desespero e desamparo em uma frase. Mas, principalmente, sua frustração devido a sua incapacidade de ser o que, teoricamente, havia nascido para ser.

Link, por sua vez, antes e depois da perda de memória, se tornou para Zelda um lembrete, constante, da sua incapacidade. Ver Link com a lendária espada nas costas, ver alguém que já era alguém completo, por assim dizer, mostrava o quão ineficiente ela era. E isso a machucava muito.

O “Herói Silencioso” é um recurso de storytelling em que a “voz” do herói, neste caso, é preenchida pelo jogador. Porém, em Breath of The Wild, esse recurso faz parte da história. No diário da princesa, ela conta que perguntou a Link porque ele é tão calado e a resposta é, na minha opinião, genial.

“…When I finally got around to asking why he’s so quiet all the time, I could tell it was difficult for him to say. But he did. With so much at stake, and so many eyes upon him, he feels it necessary to stay strong and to silently bear any burden. A feeling I know all too well… For him, it has caused him to stop outwardly expressing his thoughts and feelings.”

Imagine por um momento dois jovens adolescentes com um fardo deste tamanho. Uma de desabrochar seu poder e salvar o mundo da Calamidade, o outro, de proteger a primeira.

Enquanto Frodo perguntava desesperado a Gandalf porque ele, dentre todos, deveria carregar o fardo, porque o Anel acabou caindo nas mãos dele, Link simplesmente aceitava seu destino. E decidira encarar o fato da forma mais corajosa possível.

Para mim, Link se retraiu ao máximo para que a princesa não se sentisse ainda mais pressionada.

Zelda – A Princesa em Nem Tanto Perigo

A lenda de Breath of The Wild diz que a princesa e o herói com a espada iriam vencer Ganon e extirpar a Calamidade. Enquanto Link havia sido nomeado o herói e já havia recebido a Espada Mestre, Zelda não fazia ideia de como desbloquear seu poder.

Na última memória, vemos enfim como se deu o ‘fim’ de Link e como eles perderam a primeira batalha. O herói desmaia após salvar a vida de Zelda. Quando vê Link perto da morte, ela enfim consegue libertar seu poder e destrói todos os inimigos com ele. Ela então resolve colocá-lo numa espécie de sono suspenso, em um local chamado Santuário da Ressurreição.

Após garantir que seu herói iria sobreviver, Zelda marcha para o castelo e começa uma batalha contra Ganon.

Isso mostra uma evolução no estereótipo da princesa em perigo, porque coloca Zelda numa posição mais ativa.

Tem outra memória, que adiciona mais duas camadas à princesa. Uma em que ela mostra um lado divertido, bem humorado e engraçado até. Ela fala sobre uma flor rara, chamada Princesa Silenciosa e brinca com Link com um sapo na mão, dizendo que ele deveria experimentá-lo, contando uma história sobre como dizem que sapos em receitas podem dar algum poder especial — o que de fato acontece no jogo, já que dá pra usá-los para fazer elixires que podem aumentar sua força, por exemplo.

Eu gostei de ver, mesmo que pouco, uma sombra de uma Zelda feliz, sem aquele peso todo na voz.

Um momento em particular, Mipha, uma das campeãs do mundo, tenta confortar Zelda contando a ela sobre o que ela faz quando usa seu poder, como ela faz para que seu poder seja utilizado num máximo potencial. Ela iria contar, que ela pensa naquele que ela ama, no caso Link. Porém, ela é interrompida pela chegada de Ganon e sua Calamidade. Pensando em como Zelda desbloqueia seu poder num momento onde Link está em perigo, parece ser bem possível que haja um sentimento muito forte entre os dois.

Talvez a prova disso seja outra passagem em seu diário:

“P.S. Tomorrow my father is assigning HIM as my appointed knight…”

Esse ELE em maiúsculas deve querer dizer alguma coisa.

Além disso, as memórias falam de forma muito importante sobre esses fardos, essas expectativas que colocam na gente com tão pouca idade. É completamente relacionável com nosso mundo, com nossos problemas. O que a sociedade, nossos pais, esperam da gente. Como nosso destino parece traçado.

E se não quisermos? E se eu nasci para outra coisa além do que me foi designado?

Só de trazer essas discussões, eu já considero muito a história desse jogo. Além dos diálogos serem brilhantemente bem escritos. Nossa, em poucas linhas eles conseguem carregar todo esse sentimento e peso a uma narrativa tão profunda e bonita.

Veja, neste vídeo, todas as memórias reunidas.

Caso você não queira, ou não esteja afim de dedicar mais de 100 horas como eu, para viver nesta história, veja o vídeo. Garanto que valerá a pena.

Enquanto ainda penso na história e sinto um vazio enorme após terminá-la, fico aqui pensando nos meus fardos e como os enfrentei e os enfrento hoje. Já fui como Link, mas muitas vezes vivi dividido com a angústia de Zelda. Dividido entre duas carreiras e completamente infeliz, pois não conseguia ser completo.
Acho que por isso essa história tocou tão forte em mim.

Acho que por isso eu quis tanto livrar o mundo de Ganon e voltar para a princesa. Porque ela merecia após tantos anos de dúvida, ansiedade e se sentindo incapaz.

Que jogo senhoras e senhores. Que jogo!

1 – Fazia tempo que eu não escrevia sobre jogos.

2 – Sem condições o tanto que esse jogo, principalmente a história, mexeu comigo.

3 – Me siga adicione nos mundos dos joguinhos: PSN, Switch – pedroturambar, Steam.

Pedro Turambar

Já fui de um tudo nesta vida, mas há uma coisa que nunca deixei de ser: escritor. Escrevo para viver e manter minha sanidade em um mundo tão louco. Sou uma mistura de palavras, lágrimas e reclamações.

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1 comentário

  • Rodrigo
    17/04/2018 at 16:05

    Perfeito! Não há o que comentar sobre sua análise. Jogue Xenoblade 2 e escreva um texto como esse sobre a história desse jogo.

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Pedro Turambar

Pedro Turambar

Gosto de escrever, reclamar e não tenho controle sobre chorar. Escrevo há 10 anos sobre a loucura de viver em sociedade, futebol e falo bem e mal das coisas que leio, vejo e ouço.

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