Crônicas do Cotidiano // Adeus Ronaldinho e obrigado pelas lágrimas

Eu nasci em 87 e sou torcedor do Atlético, não necessariamente nessa ordem, é bom que se diga a verdade. Se você conhece um pouco do futebol brasileiro sabe o que isso quer dizer. Quer dizer que eu não vi os anos mais gloriosos de um dos grandes do ex maior futebol do mundo. Quer dizer que quando eu tinha um pouco de noção da vida, leia-se futebol, eu vi o último suspiro de brilho que precedeu uma era extremamente triste e sofrida para o torcedor mais injustiçado da história do melhor esporte do planeta. Falo aí daquela geração do vice de 99 e do que veio logo depois.

adeus ronaldinho

Ainda criança, beirando a adolescência, me sentia traído. Porque o time que eu tanto amava, herança do meu avô materno já que meu pai é Botafoguense — alvinegro sofredor igualmente –, me tratava daquela forma. Quantas e quantas vezes, chorando uma derrota, não prometi que não ia mais passar por isso, que ia abandonar aquela besteira e deixar de sofrer com futebol. Coitado de mim. Naquela época, brincávamos — internamente, claro — como seria o Galo campeão, com um bom time e com um craque. Havia uma comunidade no Orkut, Ronaldinho no Galo. A imagem era o dentuço vestindo o manto preto e branco. Era engraçado e azedo ao mesmo tempo. Era tão surreal que doía.

Só que os Deuses do futebol tocam a bola por linhas intermediárias tortas. O calvário atleticano foi proporcional ao que viveu, do instante em que Ronaldinho desceu do helicóptero, e vestiu o uniforme de treino, a volta olímpica do último dia 24 de Julho.

De Junho de 2012, a Julho de 2014, Ronaldinho não transformou apenas o Atlético, transformou o atleticano.

Ronaldinho foi um mago, no maior sentido da palavra, dentro do campo. A adoração, do mundo inteiro, perante a figura de Ronaldinho e o que ele representa, talvez o último representante da mágica do ex futebol brasileiro. Ronaldinho foi o último suspiro de um futebol que provavelmente morrerá com ele. Há de se dizer, que R10 foi exatamente aquilo que quis ser. Poderia ter sido muito maior, mas se contentou apenas com uma Copa do Mundo, uma Libertadores, uma Champions, dois prêmios de melhor do mundo e alguns outros títulos. Imagina se ele quisesse ser maior.

Foi acolhido, e entendeu, o que é ser amado pela torcida atleticana. Que ama tão intensamente quanto sofre. E ele soube, ah como soube, retribuir.

Ronaldinho me devolveu o Atlético. Um dos meus maiores amores, e eu não poderia ser mais agradecido que isso. Eu não torcia mais por um empate com o Figueirense. Eu estava torcendo para um time, que além de jogar por música, lutou pau a pau pra ser campeão brasileiro. Foi quase. Sobre a libertadores eu não vou comentar mais do que já comentei. Pé esquerdo, Pé direito e Liberdade ainda que tardia. Ronaldinho não só se motivou a jogar mais um ano de bom futebol, ele motivou todo mundo a jogar no limite do seu melhor futebol. Réver, Pierre, Donizete, Tardelli, Bernard e Jô.

adeus ronaldinho

Meu caro Ronaldo,

eu nunca vou esquecer o que fez por mim. Nunca vou poder agradecê-lo o suficiente por ter trazido meu Atlético de volta. Nunca vou esquecer daquele lançamento para o Leo Silva no 3 a 2 contra o Fluminense. Nunca gritei tanto na vida. Nunca vou esquecer daquele gol contra o nosso maior rival. Você driblou todo mundo e calou a torcida deles, você quase os fez aplaudir, como os merengues no Bernabéu. É que eles são menos educados que os madrilhenos. Nunca vou esquecer daquele jogo contra o São Paulo em casa. Quando tá valendo, tá valendo. Aquele passe olhando para o outro lado, para o Jô sentar o sarrafo nela. Eu estava lá e vi você quase fazer um gol antológico — mais um — contra o tricolor. Nunca esquecerei do gol contra o Arsenal. Que cavadinha. Nunca vou esquecer daquele passe pro Bernard no início do jogo contra o News. Que visão de jogo.

Nunca vou esquecer do gol emocionante contra o Figueira, você tinha acabado de perder seu padrasto. Nem do amor e da reza forte pela sua mãe, Dona Miguelina.

Nunca vou me esquecer também, que no dia 24 de Julho de 2013, eu estava chorando desesperadamente, nas arquibancadas do Mineirão, por causa de uma fagulha que você trouxe. Se JK quis fazer 50 anos em 5. Você fez 20 em 2. Você fez 85 jogos pelo Galo, ganhou um Mineiro, uma Libertadores e uma Recopa. Fez 28 gols e deu 32 assistências. Nunca perdeu em BH, 44 jogos, 30 vitórias e 14 empates. Nesse terreiro você mandou, desmandou e encantou.

Nunca vou me esquecer, vou sempre agradecer.

Com lágrimas nos olhos, de pura felicidade, orgulho e gratidão, eu escrevo,

Adeus Ronaldinho e obrigado pelas lágrimas.


Sociedade Alternativa // Dunga, Zangado e Burro. Para onde irá a Seleção da CBF?

Eu parei de torcer para a Seleção Brasileira quando eu entendi que ela é apenas um produto na mão da CBF. Isso foi em 2006, na fracasso da Copa da Alemanha, na mão do patético Carlos Alberto Parreira. Um homem que tem no seu currículo dois títulos. Tudo bem, um deles é a Copa do Mundo. Em mais de 50 anos de carreira, ele é lembrado por dois bons trabalhos, se muito. Além disso, vivemos para ver a seleção tentando bater recordes em 2006 — Cafu, nunca irei te perdoar (o capitão do penta disse que não podia sair do time porque tinha recordes pessoais para bater) –, para ver a ridícula carta da Dona Lúcia, além da célebre frase: “A CBF é o Brasil que deu certo.”

Ó sim. E como dá certo a CBF, quem dera viver nesse Brasil, em que tudo é feliz, cor de rosa e com dinheiro saindo pelos poros.

naaao

Depois do Parreira, veio o Dunga. Acabou a putaria! Contratamos um xerife para separar quem tava de sacanagem e quem tinha amor à camisa. Ah, esses Klébersons, Julhos Batistas, Grafites e Felipe Mellos cheios de amor à camisa amarelinha. Uma pena que futebol é jogado de outro jeito. Se a Copa de 2010 fosse a Copa do Mundo de Amor à Camisa… íamos perder feio do mesmo jeito. Uma vez que, obsessão, paranóia, mania de perseguição e babação de ovo do técnico estão longe, muito longe de ser amor à camisa. O que aconteceu em Weggis, em 2006, tem muito mais a ver com a Seleção Brasileira do que 2010.

Ah sim, com o Dunga a Seleção da CBF tem números impressionantes. São 42 vitórias, alguns empates e apenas 6 derrotas (não pesquisei os números, mas não está longe disso). Um aproveitamento inacreditável, eu diria. Ainda mais para um homem que jamais havia sido treinador. Só que, mais uma vez, ainda bem que o futebol não é só um amontado de números e estatísticas.

A Seleção Brasileira, aquela, tricampeã em 4 copas disputadas, com mais nome no Olimpo do futebol que em lista de político corrupto, que é conhecida por ter tido o primeiro e o segundo melhor time de todos os tempos, um deles sem nem ter ganhado a Copa. Essa seleção deixou de existir quando João Havelange decidiu que dinheiro era muito melhor para a CBF do que futebol. O poderoso chefão, assim como Vito, passou seu poder para outro — pior que ele — que fez o que fez. Ricardito, por sua vez, fugindo com o rabo entre as pernas, deixou a entidade ‘dona’ do futebol em terras tupiniquins, na mão de um facínora (um homem que elogia um torturador é tão insano quanto ele), louco (o vídeo abaixo mostra o depoimento que Marin deu, levando a prisão e morte do jornalista Vladimir Herzog), que pelo discurso ainda acha que estamos da sua saudosa Ditadura Militar.

(Dá um certo medo, ouvir esse pessoal falando)

O discurso dele, no vídeo, é o mesmo nas bancadas das coletivas de imprensa. Felipão, o gaúcho de bigode, idiota, caiu nesse papo. Junto com Parreira, outro bobo que sempre esteve a serviço da CBF e tem também ligações com os milicos na época da Ditadura. Esse discurso de que tudo é bonito, tudo é ótimo, que nada aconteceu, que nós somos o país do futebol, que temos que torcer, sem jamais criticar, que temos que ser subservientes e calados levantar a bandeira sem encher o saco. Marin, por sua vez, passará o bastão para o idôneo Marco Polo Del Nero (investigado pela PF).

Torcendo, praticamente sozinho, pelo desastre da Seleção da CBF — lembrando aqui outra vez o texto que escrevi em Dezembro de 2013, dizendo que torceria para a Argentina ser campeã em 2014 — fui xingado de anti-patriota, de fanfarrão, e de mais um daqueles bobos que torcem ‘contra’. Esse discurso parece com o de quem mesmo? Pois é. O desastre veio, maior que eu esperava, e eu tive esperanças.

Agora sim. Agora vão revolucionar o nosso futebol. Ganhou a Alemanha pô, eles reinventaram o futebol por lá, o trataram como patrimônio, parte importante na economia e na vida cotidiana do cidadão. O Bom Senso iria entrar de voadora, a CBF, obviamente iria admitir que estamos longe de ser o país do futebol, que a seleção não representa mais a nossa história e que está na hora de mudar TUDO. Da formação de jogadores ao 4-2-3-1.

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Só que eu sou idiota, claro.

Quinta eles anunciaram um agente de jogadores para ser coordenador de seleções. Agora eles vão anunciar o anão paranóico como “novo” comandante da Seleção. Perder a copa em 50 era, até os 7 a 1, a maior tragédia do nosso futebol. O que mais me dói, é que a vergonha não acabou nos sete tentos da Alemanha. Vem coisa pior por aí.

Eu pegarei a pipoca, darei boas-vindas aos amigos que cada vez mais se juntam ao clube, e ficarei assistindo o circo pegando fogo. A minha esperança da revolução pós tragédia não aconteceu. Agora tenho outra. A de que, com Dunga, a CBF faça da Globo, de uma vez por todas a sua inimiga. Porque se a Globo quiser, cai todo mundo.

Que ela também entre no clube.

seleção da cbf


Sociedade Alternativa // A incrível geração de pessoas que precisam ter opinião própria

Leu o título? Agora veja o vídeo:

De tempos em tempos, surge na rede mundial de computadores, a internet, essa linda, um texto querendo definir uma geração, um gênero, um tipo de pessoa, um nicho. Junto com esse texto, vem outras dezenas de textos acabando com o original, para depois aparecer outros dizendo que na verdade, ele estava certo.

Isso aliás, acontece bem antes da internet. Não tenho dúvidas que um macaco, algum dia, escreveu sobre a geração que não quis descer das árvores. Esses, por sua vez, escreveram outros tantos textos rebatendo o primeiro, dizendo que descer das árvores é uma falácia e que tudo isso iria terminar mal.

Alguém, uma vez, nos convenceu que somos todos livres. Alguns acreditaram, outros foram obrigados a aceitar essa ‘verdade’. Você não é livre. Eu não sou livre. Mas, dentro dessa falsa liberdade, você não precisa, mesmo, de outros — tão cegos quanto nós — ditar como você deve viver sua vida.

Só faltaram nos convencer de que temos culpa. Somos ótimos em querer liberdade, ser donos da razão, ter opinião sobre tudo e bater no peito para falar que vive do jeito que quer. Só não somos bons em assumir culpa.

Nesse pouco tempo consciente que temos aqui, perca seu tempo fazendo coisas que você escolheu, certas ou erradas. Se você escolheu pautar sua vida pelo vício em likes, ou por textos que dizem como você deve viver a vida, pelo menos faça essa escolha conscientemente.

Viva como quiser, mesmo que alguns, tantos, ou ninguém concorde. Só seja verdadeiro o suficiente para aguentar as consequências sem transferir a culpa.

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Crônicas do Cotidiano // A Copa das Copas

A Copa das Copas na verdade mesmo foi a de 70. Foi porque lá desfilou, jogou e ganhou a Seleção das Seleções, aconteceu a Defesa das Defesas e claro, os Gols Perdidos dos Gols Perdidos do Jogador dos Jogadores. Além do mais, a final foi disputada no estádio mais incrível do mundo na minha opinão, o Azteca. A Copa de 70 está para as Copas o que Pelé está para todos os jogadores de futebol que vieram antes e depois dele. Um patamar fora da escala normal de realidade. Ela, por tanto, não entra na conta.

Dito isso, ao fim da terceira rodada — hoje, infelizmente #NaoVaiTerCopa –, já está cravado na história que a Copa de 2014, no Brasil é, contra absolutamente toda nossa expectativa, a Copa mais sensacional de todos os tempos. Se o mundo inteiro já acha isso, nós brasileiros, que temos uma relação tão particular com Copas do Mundo, e muito, muito especialmente essa, temos certeza.

copa das copas

Você sabe muito bem que, quando a expectativa é ruim (muito ruim), e essa expectativa e virada do avesso e elevada à potência, causa uma impressão muito mais positiva que se esperássemos, de fato, algo bom. É a versão bizarra do Monstro da Expectativa. Monstro que ataca quando você cria muita expectativa positiva sobre algo, e tudo sai horripilantemente ao avesso. Como Batman Dark Knight Rises, por exemplo.

Para nós, brasileiros, sermos o país do futebol, sermos reconhecidamente os melhores na história do esporte, termos tantas lendas e mitos que envolvem o futebol, crônicas, livros, etc, é uma realidade comum, trivial. Nós sabemos disso desde o nascimento, é algo cotidiano pra gente. A nossa preocupação, correta diga-se, sempre foi com as contas da Copa, os elefantes brancos, o tal legado que será praticamente nulo, os absurdos das desapropriações e mortes de operários. Além dos desvios de verbas, do atraso das obras e do não cumprimento de tantas promessas.

Nós, povo brasileiro como um todo, mostramos a nossa insatisfação. Como o humorista inglês John Oliver disse naquele vídeo, compartilhado por Deus e o mundo. Como é complicado por dentro amar e odiar a Copa do Mundo ao mesmo tempo. O pior de tudo é que em campo, o futebol está fantástico.

A Copa do Mundo está linda, arquibancadas cheias, veio gente de tudo que é canto — eu tenho certeza de que, tinham mais colombianos em Belo Horizonte que na própria Colômbia —, os jogos estão sensacionais, tirando uns Nigéria x Irã da vida, só tem jogaço, com gols, com emoção, com histórias, com heróis e vilões, erros de arbitragens, pênaltis inexistentes, e tudo aquilo que faz o futebol ser maravilhoso.

Sabe desde quando não tínhamos uma Copa assim, destruidora de recordes, números e falácias? Isso mesmo, desde nunca. Me perguntando aqui, vendo as reações incrédulas e surpresas de puro êxtase dos jogadores que fazem gols nessa Copa — principalmente de jogadores não muito acostumados a tanto —, vendo também as entrevistas, e os sacrifícios que alguns fizeram para jogar esse mundial, cheguei à conclusão que esse é sim um torneio diferente.

copa das copas

É o maior torneio, do maior esporte, sediado pelo maior representante desse esporte.

A questão, que nós não havíamos levado em conta, é o quão mágico isso é para qualquer outra pessoa no mundo que se importa com futebol. Os torcedores de fora do país, as seleções, os jogadores, a Copa do Mundo tem ainda mais valor, exatamente por ser no Brasil. Esse é o ingrediente que nunca existiu em uma Copa, em 50 não éramos o país do futebol. É isso que faz dessa, a Copa das Copas*. (E sim, o uso constante desse nome é completamente irônico, caso não tenha percebido. Essa Copa não é do governo, não é da Dilma, não é nem da FIFA. É de quem joga e de quem empurra).

Os Deuses do futebol, que um dia, certamente, o arrancará das garras podres da FIFA, são justos. Que na terra do futebol, se jogue futebol com tudo que ele tem de melhor (e de pior).\

Que lindo os hinos cantados à capella. Que lindo as seleções das américas conquistando resultados incríveis. Que lindo o garotinho costa riquenho chorando ao ver a improvável vitória contra o Uruguai. Que lindo o zagueiro do EUA, de 21 anos, chorando sem acreditar, porque fez um gol na Copa. Que lindo a festa da torcida colombiana no Mineirão. Que lindo o goleiro Ochoa, sem clube, fechando o gol contra o Brasil e entrando para a história. Que lindo os estádios cheios. Que lindo a união que o futebol traz. Que lindo Luisito Suárez, um mês após estar em uma cadeira de rodas, fazer os dois gols que dariam chances novamente ao Uruguai — para depois estragar tudo, é verdade, toda Copa tem um vilão. Que lindo a Costa Rica. Que lindo o mundo parando para ver a Copa do Brasil. Que lindo o gol de Van Persie. Que lindo o gol de Tim Cahill. Que linda a classificação da Argélia pela primeira vez. Que lindo os jogadores conversando com as crianças antes de entrar em campo. Que lindo os memes e as brincadeiras no twitter. Que lindo a homenagem da Colômbia ao mito Mondragón. Que lindo o garotinho chorando com Eto’o. Que lindo o futebol bem jogado. Que lindo a média de gols e de público. Que lindo o povo nas ruas, no mundo todo, juntos comemorando e festejando. Que lindo o futebol.

Copa das copas

É lindo mesmo. Só não é transcendental, porque o preço dessa Copa, infelizmente é alto demais como já disse… (desapropriações, mortes de operários, mega-ultra-super-duper-faturamentos das obras, etc). Para ser quase perfeita, só falta acontecer o que eu disse nesse texto aqui. Aí sim, essa poderá se equiparar à Copa de 70.

Lindo será mesmo, quando acontecer o que aconteceu na grande Copa das Copas. A de 70, quando o governo militar tentou limpar a sua imagem com toda aquela magia, e não deu certo. Não deu certo daquela vez, não dará de novo.

Não somos tão bobos assim. Quando a festa acabar, vamos cobrar a conta. Ah, vamos.


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