Capacitor de Fluxo // Um bando de crianças brincando de adulto

Queria falar sobre um pensamento que me ocorreu nessa semana. Estava em companhia de alguns colegas de trabalho, engomados, roupas alinhadas. Até os sapatos eram sociais. O que me espanta é a postura ‘socialesca’, a maneira em que nós somos condicionados a nos portar de formas diferentes em lugares diferentes, de como somos um bando de crianças brincando de adulto. Deixamos a nossa essência dentro do apartamento. E só. No entanto, fica complicado que façamos a distinção da pessoa entre o que ela é em casa, no trabalho, com o chefe, no círculo social, com a mulher,  sendo o chefe ou no curso de culinária.

criança brincando de adulto

“Soraya, você pode desmarcar a reunião das 11?”

As maiores referências que fazemos as associações mais fantásticas de nossos corações tem sua gênese na infância. Por exemplo: quem nunca viu na rua alguém que te fazia referência a algum personagem dos Simpsons? Quem não tem um tio que faz a “hora do cafuné”, igual o Tio Ted do Fantástico Mundo de Bob? Ou, vai dizer que você nunca imitou o “Slot quer chocolaate”, lá dos Goonies? Você, como eu, que foi criança nos anos 90 tem boa recordação disso, tenho certeza.

Claro, isso não é exclusividade nossa.  A diferença é que nós fazemos parte de uma geração de transição.

Nossos pais, que tiveram seus 20 anos lá pelos tantos dos anos 70 ou 80, não participaram de nenhum momento de explosão tecnológica/social. Não excluindo fatores-chave, a exemplo da Guerra Fria, mas, há de se entender a grande monotonia que passamos hoje em dia, no aspecto de, realmente, sermos fruto de uma geração em que precisamos estar produzindo e nos divertindo fulltime e, as vezes, realizando mais de uma operação ao mesmo tempo. Velocidade, essa, que não era característica dos nossos pais. Esse papo doido de geração X, Y, Z…

"Pai?"

“Pai?”

E é justamente por causa dessa monotonia de hoje em dia que nossa mente só tem um lugar para recorrer, o único lugar onde todo mundo achava que era feliz, onde todo mundo achava que não tinha problema e que a pureza dos sentimentos estava ali, ainda, intocada: a infância. A pieguice da nostalgia! Mas é, justamente, isso que nos classifica como grupo hoje em dia. Isso que molda uma geração, que dá característica e, de certa forma, faz com que nos identifiquemos um com o outro.

Para a galera da criação, é de fundamental importância o retorno a essas referências para trazer de volta “velhos novos ares”. Criar identificação com o cliente, ou com o espectador, é fundamental para o sucesso do seu trabalho. Se você sabe com quem você está falando, se essa pessoa se identifica com a sua ideia, se essa pessoa se ver em você e gostar de você, na pior das hipóteses, você ganha um advogado para a sua marca.

Então, se você chegou no emprego novo, num escritório de advocacia, numa pequena grande empresa e ali você vê um cara de terno, grava alinhada e calça devidamente passada, ora, não tenha dúvida: Esse cara viu os mesmos desenhos que você. Esse cara fez cenário para os bonequinhos lutarem. Esse cara tentou memorizar os fatalities do Mortal Kombat e atirou o controle longe quando não conseguiu. Esse cara já ralou o joelho jogando boa. Ele já tocou a campainha e saiu correndo. Esse cara já teve medo do Brinquedo Assasino. Ele já riu do Geléia dos Caça Fantasmas. E, provavelmente, não perdia um episódio d’A Caverna do Dragão. E mais: não perdia só um episódio da TV Colosso.

Esse cara foi você ontem. Ele tá sendo um projeto daquilo que ele imaginou que gostaria de ser em um determinado período da vida dele.  Vai lá, dá um jóia pra ele. Bate um papo com ele.


Sociedade Alternativa // Maria Maria

Há alguns meses eu venho mudando muito a forma como eu encaro a vida. E principalmente as minhas atitudes em relação à sociedade em que vivo e à mim mesmo. Entender o quanto eu era preconceituoso foi parte muito importante para essas mudanças.

Ainda quero falar bastante sobre o comportamento absurdo que temos às vezes – sem que percebamos – em situações comuns do dia a dia. Frases como “Não sou preconceituoso, tenho vários amigos gays (inclua sua minoria aqui)” são ditas com a naturalidade de quem ainda vê as sombras na caverna. Espero que eu consiga com esse texto virar-te a cabeça para o mundo lá fora.

Maria!

Maria!

Como hoje mais cedo acabou o Campeonato Mineiro de 2013, resolvi usar o exemplo do futebol mineiro para falar do assunto.

Em diversos lugares do país – principalmente onde o estado é ‘dividido’ por dois grandes clubes de futebol – existe sempre um time em que seus torcedores tem a fama de serem pobres, sujos e ladrões em contrapartida aos torcedores rivais, ricos, bonitos e efeminados. É uma cultura do futebol do brasileiro, enraizada e disseminada como doutrina desde pequenininho. As mais evidentes, e mais conhecidas são as torcidas de Corinthians x São Paulo e claro, Atlético x Cruzeiro.

O exemplo mineiro ainda tem um agravante, já que o torcedor cruzeirense tem o apelido de ‘Maria’, o subjetivo-adjetivo no caso aqui é empregado de forma pejorativa. Ou seja. Ser Maria, ser mulher, é ser pior. É ser menor. Baixo.

Maria – o subjetivo – para nós brasileiros é a representação máxima da mulher. Representa mais que nossas mães, irmãs e esposas, representa uma luta. Uma luta pela igualdade, pelo fim da violência contra a mulher – que existe em números absurdos no mundo todo.

Maria JAMAIS deveria ser usado de forma pejorativa. Ninguém nunca deveria ser rebaixado por ser ‘Maria’. Não somos nós atleticanos filhos, irmãos e companheiros de tantas? Como estamos errados.

Você imagina a vergonha que eu sinto lembrando todas as vezes que fiz coro junto à tantos outros. Tudo isso por causa da camisa amarela e dos longos cabelos do goleiro galã Raul.

O Cruzeiro perde aqui – para mim – uma oportunidade de marketing gigantesca. Não só de acabar de vez com essa história, como ser um porta-voz da luta pela igualdade travada a tanto tempo pelas mulheres. Assim como o Boca assumiu para si o apelido de bostero e virou motivo de orgulho para eles, o Cruzeiro deveria assumir a Maria. Maria é mãe, é mulher. Que figura melhor representaria o espírito guerreiro que os cruzeirenses se orgulham tanto. Fica a dica para a diretoria celeste.

Gênio.

Você caro atleticano, pare um pouco para pensar no absurdo que é o uso disso. Não sou contra palavrões, gritos e palavras de ordem dentro de um estádio de futebol. Essa discussão é para outro post. Podemos ser mais criativos e fazer graça com o torcedor rival sem disseminar a misoginia e a homofobia.

maria maria

O Lado Rosa

‘Maria’ é usado pela torcida do Atlético em relação aos cruzeirenses. Mas ‘xingar’ o torcedor rival de “gay”, “bicha”, e outros tantos termos que não irei reproduzir aqui é comum à todas as torcidas.

O argumento anterior é o mesmo aqui. Citando – veja só – um ex-BBB eu acho que consigo resumir bem o que penso hoje sobre isso. Quando saiu do programa, ao ser questionado sobre o que achava de ser chamado de gay pelas pessoas Nasser respondeu assim “Por que eu deveria me irritar por me chamarem de algo que eu não considero ofensivo?”

Precisa falar mais?

Eu venho repetindo como louco no Facebook que às pessoas ainda vão se horrorizar pelo fato como se dirigem aos homossexuais hoje em dia. É exatamente a mesma coisa que faziam há 200 anos com os negros. O tratamento é lamentavelmente parecido.

“Tenho vários amigos gays” é o novo “Tenho vários amigos negros”.

Temos que parar com isso. E principalmente, para de achar que isso é “só uma brincadeira”, ou “é só no futebol”. Não. Não é. Se você racionaliza, vê como isso é errado. Não racionalizamos em cima disso porque estamos condicionados a esse comportamento desde que nascemos. A nossa sociedade incute e dissemina essa ideia exatamente através de piadas, brincadeiras e estereótipos.

Um padrão de comportamento que leva a tirar vidas humanas e é abertamente aceito pela sociedade não pode ser brincadeira.

***

Para terminar, queria muito deixar links que irão lhe ajudar – e muito -, a entender um pouco mais sobre o assunto, e sobre como você pode abrir os olhos. Poucas coisas me fizeram pensar mais que o Feminismo, curso rápido e o Cavalheirismo é machismo  do Alex Castro.

Não poderia ainda, deixar de aplaudir de pé a iniciativa da página Galo Queer. Torcedores do Atlético que se juntaram para lutar contra a homofobia, e causaram ‘somente’ a criação de páginas de torcidas por todo país com o mesmíssimo objetivo.

“Galo é amor, não é intolerância” é uma frase muito forte, que me faz acreditar todo dia que é possível acabar com essa cultura no futebol e na nossa sociedade.


Crônicas do Cotidiano // Do PdH: Ao Longo da Torre de Vigilância

Mesmo quando não tem conteúdo no blog, vai ter conteúdo no blog. Hoje é um conto ‘Ao Longo da Torre de Vigilância’ que eu escrevi baseado na música composta por Bob Dylan tocada magistralmente por Jimmi Hendrix.

Tenho um monte de coisas devidamente postadas no Papo de Homem que nem todo mundo viu. Então, nada melhor que poder te mandar para lá.

Esse em particular é um dos meus preferidos.

***

torre de vigilancia

*Não se esqueça de ler escutando a música acima.

– Ei, Joe!

Chamei novamente a atenção do meu improvável companheiro de fuga, mas assim como da primeira vez, pareceu fingir que eu não estava ali. Ele continuava olhando pela fresta da porta da saleta do chefe da guarda, que continuava imóvel sentado em sua cadeira com um sorriso sinistro no rosto. Morto.

–> Continue a ler.


Sociedade Alternativa // As outras inteligências dele

É engraçado. Homem inteligente não é aquele que sabe qual a capital de Bangladesh ou qual ação está em alta no mercado. Inteligente é o que demonstra pequenas peculiares e habilidades que o fazem parecer culto aos olhos de uma mulher.

Mestre é aquele que sabe exatamente qual o tamanho do parafuso necessário para consertar o vazamento da cozinha – e, quando conserta, fica com cara de quem tá pedindo beijo. É o que sabe indicar o melhor livro do Ruy Castro e resolver uma conta de supermercado rapidamente.

É o que te faz rir.

Inteligente é aquele que sabe onde existe a melhor casa de lasanha da cidade, que sabe analisar um mapa com extrema facilidade.

- É aquele que, bêbado, cita uma frase do Poeta da Vila.

Sábio é o que tem um vinil empoeirado do Chico e que sempre tem na ponta da língua a previsão do tempo para o fim de semana. Que sabe quando vai chover apenas sentindo o cheiro da brisa que entrou pela janela. Que cantarola uma música. Que cantarola lindamente sua música favorita. Que sabe imitar perfeitamente passarinhos.

Que sabe que atrapalhar nossa franja é a morte.

E como é.

 inteligencias dele

PHD é o que entende o que a mulher quer dizer só de olhar pra ela. Que sabe dizer qual o melhor remédio para a ressaca pós-noitada de quinta-feira. Que sabe onde comprar por um precinho módico aquela cerveja importada que você tanto gostou.

Doutor é o que na hora do amor diz que você é um petardo e repara na sua lingerie. Que sabe como ninguém fazer um bom chimarrão. Que entende tudo de churrasco. Que te leva pra conhecer o ponto mais alto da cidade, só para que se possa observar melhor a paisagem.

Graduado é o que te ensina com delicadeza que, para a carne ficar macia, deve-se esquentar bem a panela antes de colocar a manteiga para fritar. Que sabe onde te levar para tomar aquela caipirinha de uva impecável. Que te presenteia com uma coletânea musical que fez pensando em você. Que sabe abrir um vinho num piscar de olhos.

Pós-graduado é o sabediço dos filmes que acabaram de entrar em cartaz no cinema. Que te ensina com maestria a trocar um pneu ou a armar uma barraca naquele camping que você nem pensava existir. Que te explica porque o chope, pra ficar bom, tem que ter apenas dois dedos de espuma.

Argucioso é o que mistura isso tudo com a ciência de que, atrás do joelho da sua mulher, o arrepio corre solto. É o que sabe fazer poesia e diz que nosso riso é um prefácio. Que fala um monte de besteiras, mas de vez em quando cita o Drummond. Que te apresenta o melhor sorvete da cidade.

Inteligente é o homem que, por isso tudo, sabe como fazer falta.

E que falta um homem desses faz.

***

[Nota do Editor]

Deem as boas vindas à querida Carol Dini, que estará por aqui fazendo muito mais do que escrever. Estará ensinando. Aproveitem as dicas!

Se quiser ler mais textos da Carol, ela já tem muita coisa boa lá do PdH


Crônicas do Cotidiano // Contos do Ôns #1 – O protocolo da Mochila

Eu nunca vou esquecer da primeira vez em que um cara virou pra mim no ônibus e disse “Quer que eu segure sua mochila?” Foi o contato inicial com o Protocolo da Mochila.

mochila no ônibus

Tem certas coisas que ninguém te explica, nem seus pais, professores, tios, turma da rua de baixo, amigo de colônia de férias. Ninguém. O protocolo da mochila é uma dessas coisas. Ninguém chega pra você e fala, “Ou.. se liga que se  o ônibus estiver lotado e você tiver de mochila, quem tá sentado e é gente boa vai oferecer o próprio colo para você não se embananar todo com esses 43 quilos de coisas inúteis e para você parar de dar com a mochila na cara da tia que tá do seu lado, falou?”

Se alguém tivesse explicado a coisa de forma clara, concisa e objetiva assim eu teria evitado muito tempo perdido em devaneios desnecessários tipo “O que que esse cara quer com a minha mochila véi?! Será que ele tem fetiche com mochila? Que doente cara…”  ou eu teria evitado momentos constrangidos segurando forte a mochila e correndo por minha vida toda vez que cruzasse com o cara pela faculdade.

Meses depois eu fui descobrir o que diabos significava aquela loucura toda e eu pude parar com a paranoia. Só que descobrir do que se tratava, de forma alguma resolveu o meu problema, uma vez que eu agora deveria então fazer parte desse protocolo social que eu desconhecia. Sem contar, o horror que se seguiu por eu me sentir o maior babaca do mundo, andando de ônibus esse tempo todo, sem segurar a mochila de ninguém.

Eu fico extremamente desconfortável até hoje com essa história da mochila. Quando alguém se oferece e eu recuso por exemplo, estou sendo babaca? Preconceituoso talvez? Aconteceu de um dia um rapaz negro – logo na frente do meio do ônibus – se oferecer e eu recusar, mas quando cheguei na parte de trás do ônibus – local onde eu prefiro ficar, sempre – entreguei a minha mochila para uma garota branca.

E a neura do cara achar que foi por puro preconceito e não porque eu prefiro ficar na parte de trás. Mas se eu deixasse minha mochila com ele, o fato de eu ter que ficar ao lado dele a viagem toda ‘vigiando’, não configura uma ação meio preconceituosa? Merda.

O que já nos leva a outro problema. Se a pessoa que te oferece segurar a mochila estiver atrás de você, você vira de uma vez e fica ‘vigiando’, espera um pouquinho e vira no migué, ou fica olhando pra onde estava inicialmente e foda-se? Confesso que já fiz os três, e fiquei constrangido em todos.

Outro dia divagando sobre o assunto no almoço, chegamos a um pensamento aterrorizante, para dizer o mínimo. Veja só, eu sempre estou com fone no máximo enquanto estou no ônibus, o que quer dizer que eu nunca ouço de verdade o que as pessoas falam. Apenas deduzo o que elas querem dizer. Nesse caso da mochila, a pessoa apontar e mexer a boca já quer dizer que ela quer segurar o negócio certo? Mas e se a pessoa que está sentada estiver apenas dizendo para você que seu zíper está aberto? EM? Aí em resposta a isso você simplesmente entrega a mochila para ela.

Olha que loucura.

-       Moço, seu zíper tá aberto…

-       Valeu – respondeu o rapaz entregando a mochila.

-       Ó! – exclamou a garota sem saber muito bem como reagir

É um protocolo social muito constrangedor. Se você recusa a oferta, você fica pensando no que a pessoa pode pensar de você (eu pelo menos fico). “Alá, já me acha babaca, deve achar que eu estou com medo de alguma coisa”. E quando o papel se inverte? “Não foi com minha cara, deve tá com medo deu roubar alguma coisa dela, é a barba… só pode. Ninguém com uma barba dessa é boa pessoa…”

Além disso, parece haver um código universal para que você queira ou não que sua mochila seja ‘segurada’. É a ajeitada. Se você ajeitou a alça, deu uma balançadinha… é pinto. É só depois de fazer isso que as pessoas oferecem. Você pode estar carregando um rinoceronte, mas até dar uma ajeitadinha, ninguém se atreve a oferecer ajuda.

Eu só sei que depois de tantos anos, ainda não me acostumei e me perco pensando nas implicações socioculturais do protocolo da mochila enquanto fico batucando no ônibus.


Crônicas do Cotidiano // Contos do Ôns #0

Não adianta você querer que a gente fale ‘busão’ (que parece nome para bunda grande), ‘balaio’ ou mesmo o nome horrível que deram para os gigantes azuis, o tal ônibus. Mineiro pega ôns e não se fala mais nisso. Uai.

ôns

Eu tenho uma relação um tanto quanto paradoxal com os ôns de linha aqui de beagá. Lembro de praticamente todas linhas que já peguei, mesmo que uma só vez, e costumo me lembrar dos incontáveis causos ocorridos dentro de um desses ôns. Lembro bem do meu tão odiado 4106, que sempre me deixava na mão, nunca passou quando eu precisei, e hoje toda vez que passo perto de um ponto dele, ele passa por mim com aquela risada de canto de boca, meio que me provocando a tacar-lhe uma pedra.

Como esquecer do 9250 e do S20 – que por obra do destino e do acaso, era de fato um coração, porque sempre cabia mais um filho da puta naquele micro ônibus. Esses foram os que me acompanharam no início da faculdade, antes do campus sair do Buritis e ir para a rua da Bahia. Que me fez voltar a contar com o maldito 4106 e mais tarde com o irmão mais velho e melhor 8106, quando já morava no Belvedere.

Depois que a faculdade terminou, essa relação foi cortada quase por completo. A passagem aumentou uns tantos centavos, e eu perdi aquilo que me fascinava dentro do ôns: a capacidade de gerar histórias e situações absurdas. É incrível como você pode observar as pessoas, o que elas fazem, como se comportam. E como o próprio “pegar ônibus” é cheio de protocolos e costumes sociais e antropológicos – porque não filosóficos – incríveis!

É por isso que agora que pego dois ôns todos os dias (um beijo pro 4110, e pro 4113), qualquer um pra ida, qualquer um pra volta, que eu irei escrever uma série de contos e crônicas falando sobre o modus operandi e as loucuras do dia a dia dos famosos mercedões da capital mineira.


Nerds Gonna Nerdar // O Espadachim de Carvão – Review

espadchimdecarvão

Quando eu descobri que o Affonso Solano, co-criador de um dos meu podcasts preferidos há muitos anos, iria lançar um livro – O Espadachim de Carvão – eu fiquei curioso. Que tipo de história esse ilustrador com opiniões muito fortes e bagagem cultural bem comum aos que cresceram bombardeados pelas obras dos anos 80 e 90 poderia escrever?

Quando li algumas sinopses pensei que ele estava sendo um pouco prepotente. Como assim ele me manda um mundo fantástico, cheio de nomes, deuses, histórias e muita, muita ‘base’ para sua aventura?

Bem, para falar sobre o Espadachim de Carvão, e sobre como Affonso Solano conseguiu de muitas formas me surpreender, eu tenho que falar um pouco sobre o Matando Robôs Gigantes, o podcast do qual falei ali em cima. O MRG foi criado em Julho de 2008, eu fui virar ouvinte em algum lugar de 2009, como o próprio Affonso escreveu no meu exemplar do EdC, sou um ouvinte vintage.

Quando você ouve um podcast como o MRG (de uma forma um tanto sinistra) você vira amigo dos participantes. Porque você passa a conhecer aquela pessoa, mesmo que ela não te conheça. E conhecer alguém é saber quantos robôs gigantes ela dá para qualquer coisa. E se ela mata ou pilota outras tantas coisa. Até você saber isso sobre alguém, você não pode se considerar um amigo.

Dessa forma, ouvindo o Sr. Affonso e seus companheiros Beto Duque Estrada e Diogo Braga, eu não só passei a conhecê-los como também eles passaram a moldar o meu gosto e a minha opinião em relação à algumas coisas. Sem eles eu não teria lido nem 10% das HQ’s fodas que eu li. Não teria conhecido Game of Thrones (eles foram os primeiros a falar sobre o livro). E obviamente, não teria rido tanto dos três.

Voltando ao livro.

Ok, quase.

Eu fiquei sabendo através da Priscila que trabalha comigo, que o Affonso viria até BH para autografar o Espadachim de Carvão e também participar do HQ Festival – novo evento voltado para o ~público nerd~ aqui em Bh. Depois de saber que o Diogo Braga também viria, não pensei duas vezes e comprei os ingressos do evento.

Você pode procurar por depoimentos de um monte de gente que já conheceu pessoalmente os matadores, todos, absolutamente todos vão falar que eles são gente boas demais, e lindos, e etc. Talvez nem todos falem que são lindos, mas enfim. Nenhum desses depoimentos, muito menos o que eu escrevo aqui faz jus ao que são Affonso e Diogo ao vivo, ali, brincando e trocando ideias.

diogobraga

Aqui posso afirmar com todas as letras que Diogo Braga é de outro planeta. Não pode existir aqui um cara tão legal. Simplesmente é impossível acreditar que exista um cara tão incrivelmente gente boa. Ele era exatamente aquele cara que eu aprendi a gostar ouvindo o MRG, as mesmas brincadeiras, a mesma voz, a mesma postura. Ainda consegui fotos e momentos memoráveis com ele. A foto é a que está aí em cima, e um dos momentos foi a massagem relaxante que ele me fez enquanto eu – nervoso – perguntava ao Affonso sobre possíveis continuações para o Espadachim de Carvão.

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O Affonso obviamente estava ali num papel um pouco mais “profissional”,  afinal ele era um autor autografando sua obra. Acho que era por isso sua postura era um pouco mais… digamos séria do que me acostumei a “ver” nos podcasts. Isso de forma alguma é uma coisa ruim, é um comportamento até esperado. Mas mesmo assim ele brincava, conversava e atendia a todos, sem exceção. Consegui ainda brincar com ele e arrancar uma gargalhada com meu nome fictício. Hollaybson.

Infelizmente não conheci o matador que mais se parece comigo – em questão de opinião principalmente, porque o Roberto não é tão gordo assim. Mas não tenho dúvida que ele seja tão incrível quanto os outros dois. Ainda quero realizar o sonho de sentar em um buteco e beber umas cervejas falando sobre futebol com o Duque.

Agora sim, sobre o livro.

Voltando de ônibus no primeiro dia de evento, já comecei a ler meu autografado e novíssimo livro. E o legal de você “conhecer” o autor, é que você vai identificando no texto dele, todas as influências, todas as opiniões tantas vezes ouvidas ali nas entrelinhas.

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O livro é um absurdo. Em algum episódio do MRG, o Affonso disse que a música tema de Indiana Jones é a Aventura em sua essência. Ele inclusive transformou os “tân tân tân tâns” em letra e cantou “A aventura, começou…”. O Espadachim de Carvão é isso. Do início ao fim. Aventura. Incrível, fantástica, rica e dolorosamente curta. O personagem principal, Adapak é de uma inocência e riqueza única, você se identifica e quer estar do lado dele logo no início. A profusão de nomes complicados, lugares incríveis, situações às vezes impossíveis e.. ufa!

Você consegue respirar um pouco da ação quando volta no tempo para entender como Adapak se tornou o espadachim. E é aí que a história brilha, é nessa troca e nessa alternância que Affonso Solano se mostrou como ótimo contador de histórias. Ele conta o passado e o presente de forma correta, sem se apressar, e você vai aprendendo a gostar de Adapak, a virar um fã dele. Em alguns momentos você quer estar lá para dar força, outros para dar-lhe um abraço.

A influência dos livros-jogos que eu tanto joguei quando era criança é absurda. Eu esperava a todo momento um parágrafo terminar com “Se quiser entrar na casa vá para a página 290, se quiser investigar ao redor vá para a 187”. O mais incrível é que na maioria dos casos Adapak escolhia exatamente a ação que eu escolheria se estivesse jogando. E isso é uma das coisas que mais me cativou.

Kurgala é um mundo riquíssimo, cheio de povos e criaturas estranhas mas ao mesmo tempo fascinantes. Um dos dois problemas que tive ao ler o livro foi exatamente as descrições dos seres de Kurgala, foram apresentados muitos seres em um curtíssimo espaço de tempo, então era um pouco difícil identificar onde que ia o tentáculo de quem, a terceira perna do outro ou até mesmo quem é que tinha seis patas. Ou seis braços? Como eu disse, o livro é dolorosamente curto, e tantos seres peculiares poderiam ser melhor degustados e entendidos com um pouco mais de tempo. Não dá muito tempo para você conhecer as particularidades de cada raça.

Mas isso de forma alguma tira a grandeza do livro. Grandeza na história. Porque repito, a duração do livro faz você quer ler mais dez logo em seguida. Quero mais aventuras de Adapak!

O Espadachim de Carvão é um drops de um novo mundo fantástico que eu já adoro e quero conhecer afundo, como é comum a todos os nerds.

Nota: 5 Robôs T-800. Gigantes.


Sociedade Alternativa // Wololo! Explicando o que é uma Religião

Recentemente saiu a ~remasterização~ do eterno clássico dos games: Age of Empires II. E o melhor de AoE, todo mundo sabe, é o Priest e seu “Wololo!” (descobri que é só no Age of Empires I que tem wololo*) O que pode ser apenas uma onomatopeia boba do jogo para você, para mim explica em poucos segundos que é uma religião.

Religião é Wololo sacoé?

o que é uma religião? wololo

Não se ofenda, por favor. Ser wololo não quer dizer que é ruim, que você está errado em seguir uma religião nada disso. Quero enfatizar, que na minha opinião, religião é um cara falando wololo sem parar, querendo fazer isso entrar na sua cabeça, até que você troque a sua cor.

Explicando: Esse personagem no jogo – priest (padre ou sacerdote em inglês) – era usado para converter as tropas inimigas – muçulmanos, representados pela cor vermelha – em católicos, representados pela cor azul. O priest chegava perto e você ativava a habilidade e ele gritava a plenos pulmões seu mantra “Wololo!”. Alguns segundos depois você tinha conseguido mais um soldado para a causa do Senhor. No jogo, obviamente. Porque a gente sabe que isso não acontece na vida real.

Você que está lendo já deve ter ido em missa, culto, comunhão ou qualquer nome que você queira dar. Tem sempre um cara lá na frente falando para várias pessoas. E em todas as vezes que eu ouvi esse cara falando, ele estava falando “Wololo!”. Todas.

E wololo, assim como religiões em geral, não faz o menor sentido para mim. São – aos meus ouvidos – a mesmíssima coisa. Uma tentativa desesperada para angariar mais seguidores. Se isso é bom ou ruim, não vou julgar. Em tempo, “religião” nada tem a ver com fé, ou acreditar em Jeová, Alá, Buda, Zeus ou Odin. 

Para você não terminar esse post apenas com essa constatação, deixo você com 10 minutos de Wololo Blues:

Não escute os 10 minutos direto. É meio hipnotizante. Juro, por Deus.

*Dica do eterno Diego.


Sociedade Alternativa // Precisamos acreditar em Super Heróis

Quando eu saí do cinema após ver Os Vingadores eu me sentia uma criança saindo da sua primeira experiência em um parque de diversões. Eu não parava de falar, de sorrir e de falar. “E aquela hora que o Hulk faz aquilo?”. Eu tinha visto um filme de Super Herói, com agá maiúsculo e acento. Mas o que não saiu mesmo da minha cabeça foi a cena final, que me fez chorar:

*É até o fim da fala da garota loira, 1:15

“Captain America saved my life. Wherever he is, and wherever any of them are, i would just… i would wanna say thank you.”

É lindo. Fomos ameaçados, houve destruição, invasão alienígena, sofrimento e mortes. Mas há esperança, há bondade. A cena emblemática do garotinho que usa uma tampa de lixeira pintada igual ao escudo do ‘Capitas’ no fim do filme do Capitão América também retrata aquilo que eu quero colocar nesse texto, que nós precisamos acreditar em Super Heróis. Precisamos de bons exemplos.

euacreditoemherois

 

O MDM definiu muito bem o tipo de herói que é o Super Homem, Capitão América, Homem Aranha – só para citar alguns, eles os chamam de os heróis que bebem leite. São os chamados heróis solares. São os “heróis heróis”. Aqueles que enchem o coração das garotas e são tudo aquilo que queremos ser quando criança. São os heróis altruístas, que inspiram a esperança, a justiça e o bem. Esqueça o Batman, o Wolwerine, seus lados negros e o anti heroísmo. Nós não precisamos mais disso. Precisamos de esperança. Nesses últimos dias tenho visto o novo trailer do filme do Superman e tenho me arrepiado todas as vezes. Cada frame, cada cena ali ajuda a reconstruir a imagem do símbolo máximo do super heroísmo, O Super Homem. O primeiro e maior de todos. Aquele que todos seguem, todos amam, porque ele é a personificação de tudo que é bom e justo.

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Peço para que pare um pouco e de play nos dois vídeos abaixo. Deixe o trailer no mudo e o assista ao som do primeiro. É o novo trailer mas com a trilha sonora clássica composta por John Williams.

Ouça esse:

 

Veja esse no mudo:

Ps.: Depois veja o trailer com o áudio original. =)

Eu sei que parece infantil, idiota. Sei que não existe tal coisa. Mas será que nós não podemos aprender com eles? Com os sacrifícios que esses seres imaginários fazem para salvar outras pessoas? Será que é só segurando uma viga de aço que você pode ser um super herói? Eu acho que não. Você pode salvar a vida de alguém com um bom dia. Com segurar o elevador por mais alguns segundos. Com uma pequena ajuda para carregar as compras. Você pode salvar a vida de muitas pessoas apenas sendo legal com as pessoas. Citando um exemplo recente, temos a história da professora que deu a vida para proteger seus alunos no massacre da escola Sandy Hook, nos Eua.

Outro exemplo mais recente ainda é o de Tyler Dodd. Você pode pensar que ele não fez nada demais, mas ele é um daqueles que nos fazem acreditar. Enquanto todos corriam desesperados para longe das explosões ele foi na direção contrária e vendo uma garota feria parou para… ficar ao lado dela, para consolar, e dar… esperança! Dizer que tudo ia ficar bem, que ele iria ajudá-la. Inspire sentimentos bons nos outros e criaremos um exército lutando por um ideal.

Um filme, uma HQ, um ídolo e um ideal pode ser a diferença entre correr para salvar a própria vida ou ajudar quem estiver ao seu alcance.

Eu tenho esperança. Eu acredito.

 

superman

“This is not an ‘S’, from where i come from, this stands for ‘hope’”. – Superman.

Vale a pena acreditar. Vale a pena ter esperança e compartilhá-la. Mesmo em tempos difíceis, com atentados, ameaças, com tantos Lex Luthor’s espalhados por aí e crimes hediondos contra a humanidade e contra a liberdade.

O bem, como nos ensina as histórias em quadrinhos, sempre prevalecerá.


Sociedade Alternativa // O Homem que não sabia trepar

Três amigos estavam em uma mesa de bar no momento da noite em que a cerveja já não tem gosto, as bitucas de cigarro já transbordam pelos cinzeiros e já rasgaram em pedacinhos mínimos todos os guardanapos e palitos de dente. É aquele momento em que não chegaram a conclusão alguma durante nenhuma discussão em nenhum assunto. Carlos já não suportava mais ficar ali com os amigos, mas também não tinha nenhum motivo para ir embora. Então pedia mais uma e falava “Ééé… tá foda…” em intervalos regulares.

o homem que não sabia trepar

Depois do que pareceram horas sem que eles pudessem exaurir qualquer outro assunto, Augusto levantou a cabeça que estava apoiada no seu braço e diz:

- Ei Fred, por quê você não conta uma daquelas suas histórias?

- Ahn?

- Boa! Fred, vai lá cara… conta alguma coisa aí pra gente, o Augusto já conseguiu deixar chato todo e qualquer assunto do mundo. Eu não tô nem um pouco afim de ir pra casa às… duas e meia.

- Eu fiz o qu…

- Deixa o Fred contar a história!

- Gente… de novo? Não sei mais de história nenhuma.

- Ah sabe sim – disseram Carlos e Augusto em uníssono.

- Porra, toda vez é assim, vocês ficam falando merda a noite inteira e pedem uma história para irem dormir. Eu sou pai de vocês agora pra botar na cama e contar historinha?

Os dois não queriam nem saber. Pediram mais uma cerveja e uma porção de pastelzinho que só Barnabé sabia fazer, para ouvir mais uma das história que só o Fred sabia contar. Eles frequentemente diziam para outras pessoas que eles nem eram tão amigos assim, mas que se encontravam toda semana só por causa do pastelzinho do Barnabé. A verdade, óbvio, é que eles encontravam para ouvir o Fred. Inclusive o Fred.

- Tá, pode ser que tenha uma história que eu ouvi esses dias… – Fred gostava de começar as histórias assim, como se fossem verdadeiras, como se ele de fato as tivesse ouvido por aí.

“Essa é a história do ‘Homem Que Não Sabia Trepar’. A história de um homem aterrorizado por não saber fazer aquilo que em teoria ele mais amava. Não é uma história feliz meus amigos. Não mesmo.”

Carlos e Augusto pegaram um pastelzinho cada um e tomaram um gole, essa seria uma daquelas. Até o Barnabé ficou ali para ouvir o início.

“Marcos era um cara normal, como a gente assim, boa praça, simpático, inteligente. As garotas curtiam aquele cabelo meio rebelde, a barba por fazer e o sorriso. Marcos tinha um belo sorriso. Daqueles que deixam a gente com inveja e abrem pares e pares de pernas pela noite a fora. Tinha um bom emprego, ganhava muito bem. Saúde boa, pais e irmãos também felizes e bem de vida. Uma vida perfeita, não fosse Deus um cara tão irônico.

Só tinha uma coisa que as pessoas achavam estranha sobre ele, o fato dele ter vinte e poucos anos e nunca ter tido uma namorada. Alguns dos amigos tinham certeza que ele era virgem. Os boatos começaram. Talvez seria gay, ou talvez tivesse o pau tão pequeno que teria vergonha. Ou o pau era gigantesco – vai saber! – diziam elas. Especulavam de tudo, até que ele seria eunuco.

Nenhum deles estava certo. O que eles não sabiam, era que Marcos na verdade não sabia trepar. Na realidade ele sabia. Sabia tudo sobre sexo. Era viciado em sexo, em quase toda e qualquer forma. Era um especialista. Amava sexo. Só não sabia fazer. Ou melhor, detestava fazer.”

“E como é que o cara podia não gostar de sexo Fred? – perguntou Augusto”

“Ele gostava de sexo como um todo, mas odiava ‘fazer’ sexo, entende?”

“Não.”

“Deixa eu continuar”

“Marcos estava dando uns beijos na Marcinha – a garota mais absurdamente linda de todo o colégio -, quando a coisa esquentou um pouco ela foi levando a mão dele para lhe fazer um carinho mais íntimo aconteceu algo horrível…”

“O quê?!”

“Posso tomar um gole de cerveja senhor? – perguntou Fred enquanto pegava um pedaço de pastel da mão do Augusto e bebia um gole. – Traz mais uma porção pra gente Barnabé?”

“Trago depois que você contar o que aconteceu quando o rapazinho foi abrir o botão da rosa…”

“Então… coitado do Marcos. Quando ele colocou a mão lá e sentiu aquele toque húmido de pura vitória e felicidade para qualquer garoto, ele sentiu um nojo tão grande que vomitou. (Putamerda! – soltou o Barnabé indo fazer mais uma porção de pastel.) Isso mesmo, vomitou enquanto estava beijando ela. Ela obviamente vomitou nele de volta. Foi uma merda. A situação foi tão traumática e horrível, que Marcinha se entregou para um convento acreditando piamente que o diabo quase a possuiu. Já Marcos ficou horrorizado por meses, pensando e tentando descobrir o que havia de errado com ele.”

“Já sei! Marcos era gay gente, é lógico que era! Aonde já se viu ter nojo de boceta?”

“Deixa de ser idiota pô, não tem nada a ver, quer prestar atenção na história? Calma que você vai entender.”

“Só de pensar naquele toque Marcos ficava enojado e o vomito logo aparecia. O primeiro pensamento é de que era gay. Antes fosse, pensou ele depois. Sentia atração por mulheres, disso tinha certeza. Mas começou a perceber que não suportava a troca de fluidos com ninguém, homem ou mulher. Ele realmente não gostava tanto de beijos assim. E isso começou a aterrorizá-lo. Como ele poderia amar alguém? Como poderia se casar? Porra, como teria filhos!?”

“Depois de um tempo, Marcos aprendeu a conviver com seu problema. Se tornou um viciado em sexo, contando que nada nem ninguém encostasse nele. Se tornou um voyeur dos mais especialistas em sexo, dava dicas para os casais que ele pagava para ver, mostrava como devia ser feito e se deliciava. Uma vez, uma das mulheres cismou que ia chupá-lo de qualquer forma. A crise nervosa foi tão grande que ele desmaiou. Tirando esse ou outro ‘acidente’, Marcos ia levando a vida o mais normal possível.”

“Até o dia em que se apaixonou.”

“Alá, sabia que ia dar merda. Certeza que ia dar merda.”

“Você pode ter suas próprias maluquices, mas sempre tem uma mulher pra ferrar com sua vida.”

“Machista. Me dá mais um pastel aí e escuta..”

“Carla era uma mulher mais ou menos. Mais ou menos linda, mais ou menos foda pra caralho, mais ou menos sensacional. Aquela mulher tão cheia de mais e menos que todos praticamente todos os homens que ela conheceu durante a vida se apaixonaram por ela. Eram tantos pequenos defeitinhos e imperfeições que a tornavam perfeita. Uma mulher irresistível. Incrível. Que Marcos teve o azar de conhecer um dia quando foi no dentista. Ela estava lá para um clareamento, ele para fazer um canal. Ainda hoje dizem que nunca se deve cair em um relacionamento com uma garota que você conheceu quando foi fazer canal. Todas as vezes que isso aconteceu, ao redor do planeta, acabou em tragédia.”

“A Míriam! A Míriam! Eu conheci ela quando fui fazer canal! PUTAMERDA!”

“Shhhhh tá bom Augusto, a gente sabe.”

“Não Carlos, você não ouviu o Fred? Conhecer uma mulher quando tá fazendo canal é tragédia. Putamerda eu sou parte de uma estatística. Estou chocado. Meu mundo caiu..”

“Tá bom Augusto, chega. Deixa eu terminar.”

“Putz… vai lá.”

“Eles se apaixonaram, é claro. Marcos a amava tanto que não sentia nada além de tesão e carinho por ela e pelo toque dela. Ele estava em puro êxtase, conseguira uma cura. O seu caminho para a felicidade perdida após Marcinha e o vômito. Ele era o cara mais feliz do mundo… até o dia em que eles foram fazer amor pela primeira vez….

“Ele cagou nela?”

O bar inteiro caiu na risada. Nesse momento, todo mundo já tinha parado tudo o que estava fazendo para ouvir a história.

“Hahaha, não Carlos, não.”

“Então conta porra!”

“Se você deixar…”

“Marcos não conseguiu. Não teve crise, nem vomitou nem nada, conseguia iniciar os trabalhos mas parava logo. Ele simplesmente não conseguia. Devia ser o cara que mais sabia comer uma mulher no planeta, mas simplesmente não conseguia fazer isso. Ele então abriu o jogo e chorando contou sobre seu problema. Carla ouviu tudo e disse que o amor que ela sentia por ele era maior que tudo isso. Que eles iriam resolver juntos.”

“E eles tentaram de tudo. Benzedeira, Preto Véio, Umbanda, missa, culto, exorcismo, até psicólogo. E nada. Nada no mundo fazia com que Marcos conseguisse trepar. Cansado de ver o amor da sua vida ‘perder seu tempo’ com ele, decidiu que deveria deixá-la. Ela obviamente não aceitou. Ele então propôs o absurdo. Que ela transasse com o tanto de gente que ela quisesse, contando que ele sempre estivesse junto para vê-la. Era o único jeito deles sentirem prazer juntos, disse Marcos para Carla. Ela de início achou um horror. Depois foi pensando mais na ideia e cedendo à vontade de Marcos.”

“Mas já devia tá beliscando azulejo a menina também né?”

“Beliscando o quê?”

“Azulejo. Fica quieto.”

“Cala a boca que tá acabando”

“No fim das contas, Marcos acabou convencendo ela. Começaram com michês escolhidos a dedo, depois foram pegando homens e mulheres em barzinhos, boates e festas. Eram de longe, em qualquer lugar que iam, o casal mais bonito e mais feliz. Marcos e Carla eram muito satisfeitos juntos, sexual e espiritualmente. Ela se tornou insaciável, aproveitava seus parceiros para satisfazer o seu amor. Se descobriu uma devassa. E Marcos um voyeur que não podia reclamar da vida. Sua mulher satisfazia todas suas fantasias e ele não podia pedir mais nada da vida.”

“Nos primeiros anos foi uma maravilha mesmo. Foram muito felizes. Depois de um tempo, as coisas foram ficando um pouco estranhas. Marcos já captava uns olhares diferentes, Carla parecia gostar, mais do que costumava, da situação. Ela já não pedia mais opinião para ele na hora de escolher os parceiros. Ficava irritada quando ele falava algo ou fazia algum pedido para o ‘casal’. E Marcos, por incrível que pareça, passou a ter ciúmes. Ciúmes mortais de sua esposa. Tudo que ela fazia era motivo para brigas. Ele passou a seguir todos os seus passos. Abandonou o emprego, ficou obcecado. Até o dia em que descobriu tudo. Ela estava namorando um dos rapazes que aparecia com muita frequência nos últimos meses. Ele a viu entrando no apartamento deles com o cara. Ele então esperou alguns minutos e entrou.”

sadkeany

Não se ouvia um pio no BARnabé. Ninguém piscava.

“Quando Marcos entrou no quarto sua esposa estava como ele nunca a havia visto. Ela estava… livre! Eu pensei que ela fosse feliz – pensou Marcos com amargura – mas ela nunc’a foi tão feliz assim. Ela fez o que fez por amor. Mas o amor não resistiu. Ela só queria se sentir normal… e eu pensei em matá-la por isso. Eu sou um monstro!’”.

- Então meus amigos… após essa epifania, nosso Marcos foi em direção à varanda do seu apartamento no vigésimo quinto andar, e pulou. – e com um sorriso no rosto, Fred completou: – Fim.


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