Liberdade ainda que tardia – Galo Campeão da Libertadores 2013


Ninguém escolhe ser atleticano. Duvido qualquer atleticano me dizer quando foi que ‘ele’ ou ‘ela’ escolheu ser atleticano ou atleticana. Eu não lembro, eu só sei que sempre torci pro Galo, o que me leva a conclusão que você é escolhido, não o contrário.

Ser atleticano te ensina muitas coisas. Te ensina principalmente a entender futebol de uma forma diferente, te ensina a sentir esse esporte tão incrível de uma forma não convencional. O gol é o mais importante? Os títulos? Só importa dentro do campo, ou fora das quatro linhas também conta? Futebol é estatística mais intuição ou mística?

Não. Não. Tudo importa. Os dois.

Os Deuses do Futebol existem de fato?

Existem, são bem humorados e escrevem por linhas intermediárias tortas.

Galo Campeão da Libertadores

***

Não quero dar uma de Zagallo aqui, mas o primeiro gol do Atlético na Libertadores 2013 saiu aos 13 minutos do primeiro tempo. 24 de Julho, ou 24/7 – data da final – é 2+4+7… TREZE.

Sabe qual foi a última vez que o Galo participou de uma Libertadores?

Ano 2000. Treze anos atrás.

Cuca é o décimo terceiro técnico brasileiro a ganhar a Libertadores.

Tem mais, mas acho que você já pegou a ideia.

***

Eu nunca vou esquecer de um dia que eu estava no clube, logo após jogar bola com outros garotos da minha idade – devia ter uns 9 anos – fomos para a lanchonete. Não sei o que levou a isso, mas de repente os pais da maioria dos garotinhos me explicavam por que eu deveria ter vergonha de ser atleticano.

O escárnio foi exagerado. Mas eu não me abalei. Com nada a meu favor, eu ainda me mostrava superior a todos eles, desviando o assunto com bom humor.

Porém por dentro eu sofria.

Ouvi a minha vida inteira que eu, assim como o time que me escolheu éramos patéticos.

Aprendi desde cedo a comemorar o título de 71. E apenas ele.

Aprendi que todo atleticano tem três espinhos no coração. O Brasileiro de ’77, e os dois jogos que o Senhor Wright tirou da gente.

Um espinho foi retirado pelo pé esquerdo de Victor contra o Tijuana.

O segundo espinho foi retirado pelo pé direito de Guilherme contra o Newell’s.

O terceiro, e maior dos três – o do Brasileiro de ‘77 invicto, “perdido” no Mineirão no dia 5 de Março de 78 – foi retirado por Gimenez, e à força por milhões de atleticanos mundo afora. Naquela mesma trave que João Leite pegara dois penais e o time perdera três, dando o título para o São Paulo.

O coração atleticano está livre novamente. Para gritar, para chorar e para sonhar.

***

Sobre a nossa torcida, a mais impressionante do Brasil. Sim. Pode não ser a maior em números, mas é a mais fiel, apaixonada e sofrida. Mesmo sem ganhar nada há 42 anos, a nossa torcida é a segunda que mais encheu os estádios em média no Brasil.

Torcer pro Barcelona é fácil. E é por sofrer tanto que a vitória se tornar tão, tão saborosa.

Foi Roberto Drummond, que em uma frase de genialidade ímpar, que conseguiu traduzir em palavras o que é a torcida do Atlético:

“Se houver uma camisa branca e preta pendurada num varal durante uma tempestade, o atleticano torce contra o vento.”

contra o vento
***

Exatamente 230 anos depois do nascimento do Grande Libertador da América, Simón Bolívar, o Clube Atlético Mineiro conquistou enfim a sua Independência.

Independência do seu calvário.

É a primeira lufada de ar, emergindo depois de um mergulho profundo de 42 anos de duração para conquistar da forma mais épica e inacreditável de todos os tempos, o título mais importante de sua história.

O Atlético pode ganhar mais doze Libertadores, mais trocentos títulos. O de ontem, será sempre o mais importante de todos. Por tudo que ele significa.

***

Victor, Michel (Alecsandro), Leonardo Silva, Réver, Júnior César, Pierre (Rosinei), Josué, Ronaldinho, Bernard, Diego Tardelli (Guilherme) e Jô. Cuca. Kalil. / Marcos Rocha, Richarlyson, Luan, Leandro Dozinete.

Esses nomes estão gravados na mente de todos atleticanos, e nas gerações que ainda estão por vir.

Muito obrigado! O time todo!

Pedro Turambar

Já fui de um tudo nesta vida, mas há uma coisa que nunca deixei de ser: escritor. Escrevo para viver e manter minha sanidade em um mundo tão louco. Sou uma mistura de palavras, lágrimas e reclamações.

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6 Comentários

  • Lívio Drumond Guerra
    28/07/2013 at 21:36

    Muito massa o texto Pedrão. Parabéns!
    Nos libertamos com certeza, a partir de agora tudo será diferente.

    Eu não acredito em nada de superstições, mandingas e outras coisas que influenciam em um jogo de futebol dentro das 4 linhas.

    Mas cara, dessa vez com o galo, me impressionei demais com as coincidências.

    Outros exemplos além do que vc disse, que eu não sei se vc sabia, é que o primeiro jogo do galo na libertadores que teve um gol aos 13 minutos, 13 anos depois da última participação foi no dia 13 de fevereiro de 2013.

    Quando a Luz acabou contra o Newells faltavam 13 minutos para o fim do tempo regulamentar.
    E ainda tem muito mais mesmo, é só procurar.

    No estádio tb, desavisadamente na hora dos penaltis, olhei para uma cadeira ao meu lado por pura distração(todo mundo estava em pé) e vi que o número dela era 13.
    Depois daquilo não sei pq, nunca tive tanta certeza do título
    hahahaha

    Outra coincidência que aconteceu comigo e com a Nathália velho, acho que vc vai gostar.
    A gente se conheceu no dia 24/07/2010, e desde sempre essa foi a data mais importante pra gente, é a data que sempre comemoramos e fazemos algo de diferente. A placa do nosso carro é OPN-2407 justamente por causa desse dia.

    A uns 2 meses atrás quando vi que a final da libertadores era no dia 24/07 tb, fiquei louco! Já imaginei o que que aquilo poderia significar. Seriam respectivamente o dia mais feliz e o mais triste da minha vida?

    Ou seriam os dois dias mais felizes?
    Acho que realmente esse é o meu dia, fiquei feliz em dobro!

    Um abraço velho tudo de bom!

    • Pedro Américo
      06/12/2013 at 02:02

      TODOS os Deuses estavam olhando para esse jogo. Apenas que SIM, todos!

      Obrigado cara, por fazer parte disso junto comigo e por comemorarmos isso juntos!

  • Janaina Oliveira
    25/07/2013 at 18:20

    Lindo, meu caro. De arrepiar. Todo atleticano passou pela fase da humilhação na infância, vendo o Cruzeiro ganhar tudo. Todo atleticano sentiu seu coração se despedaçar, quando o time caiu pra segunda divisão. Todo atleticano crente questionou Deus naquele 6 a 1. Como vc bem lembrou, aprendemos desde cedo a valorizar 1971 e a chorar o que nos foi tirado.
    Não mais.
    A partir de hoje, todo mundo sabe o que sabemos desde que nos conhecemos como atleticanos: o Atlético é grande. E não resta mais dúvidas. Cavalo paraguaio é a mãe. Timinho é a véia.
    Somos grandes. Do tamanho das Américas.
    E queremos ser maiores que o mundo.
    Alcançar as galáxias. Transcender entre as eras.

  • Adriana Torres Ferreira
    25/07/2013 at 17:21

    Chorei aqui. De alegria e de emoção. E olha, tem ainda mais treze aí… em agosto faz treze anos que meu pai se foi. Atleticano, deve estar rindo a toa do lado de lá! 😉

    Beijos, querido.

    • Pedro Américo
      06/12/2013 at 02:03

      Como eu falei pra Janaína, ele ainda há de sorrir de novo antes do ano 13 acabar. ;D

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Pedro Turambar

Gosto de escrever, reclamar e não tenho controle sobre chorar. Escrevo há 10 anos sobre a loucura de viver em sociedade, futebol e falo bem e mal das coisas que leio, vejo e ouço.

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